Estava frio. Ele estava vestindo suas pesadas e velhas roupas. Todo fim de ano se vestia igual. Gostava daquelas roupas, eram quase como se fossem sua segunda pele, eram acima de tudo um simbolo daquilo que ele já fora. Mas naquele dia... naquele dia não passavam de velhas roupas...
Se sentou na frente da lareira, abriu uma carta, os velhos e cansados olhos não quase não conseguiam ler mais, entretanto, ele forçava a vista, dava importância as cartas que recebia... embora costumava receber muito mais cartas, ele ainda lia as poucas que chegava com a mesma boa vontade de antes, talvez não com o mesmo entusiasmo, mas ainda, com a mesma boa vontade.
A boa vontade se esvaiu, leu a carta, os impostos estavam atrasados, estava sendo coagido a abrir falencia... o governo levaria sua fábrica...
Era um velho industrial. Lembrava com orgulho dos bens que produzia na velha linha de montagem. Como seus produtos voavam o mundo inteiro. Como fazia tantas pessoas felizes. Seus funcionários eram um exemplo para o mundo.
Mas enfim... acabou obsoleto... não precisavam mais do seu serviço... os funcionários tristes, iam embora, até sua esposa o largou... disse que a magia havia acabado... que não havia porque continuar.
O velho respirou fundo. Imaginou a velha linha de montagem sendo substituida por máquinas e robôs, provavelmente seria fabricado algum refrigerante no lugar...
Largou a carta, começou a chorar... olhou para os céus e rezou... sabia que era a última vez que rezava... nesta vida pelo menos... junto a imagem de cristo, pedia perdão por duas coisas.
Pedia perdão pelo ato que estaria a cometer. O pior de todos os pecados.
Pedia perdão pela conclusão que chegara. Após tanto tempo sem serviço, começou a pensar e concluiu que era ele quem merecia estar ali, pendurado na cruz, estava pronto para aceitar as chamas do inferno... foi sempre muito religioso, mas afinal, pensou, "fui eu quem matei cristo".
Olhou para os céus pela última vez, lembrou o quanto gostava de sentir o vento no rosto enquanto atravessava os céus... pressionou o velho revólver contra a própria cabeça...
Nunca nem imaginou segurar uma arma de fogo, ali não era lugar para isso... a verdade é que o revólver foi a única encomenda que ele não havia entregue... tinha o lema de sempre entregar tudo que lhe pedissem, não importando o que fosse, afinal, seu último pedido havia sido este, estava desesperado, sem serviço a anos, sem funcionários, pessoalmente construiu a arma... por fim decidiu que era errado... não podia fazer aquilo... era moralista, antiquado, se recusava a fazer uma entrega que pudesse levar a consequencias desastrosas... fracassou em seu ultimo trabalho...
Um lágrima escorreu pelo rosto, uma bala perfurou o crânio... o pesado corpo do velho caiu no chão... sem vida...
Sua fábrica ficava em um local bem isolado... no fim, ninguém achou o corpo, sinceramente, ninguém nem procurou... ninguém sentiu falta... era como se ele nunca tivesse existido... era como se ele não passasse de uma lenda... de um conto de fadas... e foi assim que ninguém chorou a morte do papai noel.
Um comentário:
Realmente, o Pink Floyd tem a mania de mudar a vida das pessoas. Concordo tb com a passagem da industrialização da música. Já quanto ao seu professor, foda-se a globo, vira você um roteirista de empresa mais decente.
Postar um comentário