Era 1966.
A califórnia era o centro do mundo e nela viviam... os surfistas.
Nesta mesma época, a revista que definiu o modo Marvel Comics de se criar super-heróis mais humanos e carismáticos chegava ao número 48. Era a "Fantastic Four" que se mantia no topo da lista de mais vendidos e no que a edição 50 se aproximava, era preciso um inimigo maior do que tudo que havia sido visto e uma história emocionante o bastante para tornar aquele arco de 3 edições especial o suficiente. Na época Jack Kirby escrevia e desenhava as histórias do quarteto, se baseiando nos personagens e argumentos de Stan Lee.
Reza a lenda que Kirby estava desesperado pois não conseguia pensar em algo grande o bastante, ele então ligou para Stan Lee que disse simplesmente "Que eles enfrentem Deus".
E eis que surge Galactus - O Devorador de Mundos
E este Deus tinha um mensageiro. Surfando as galaxias a procura de planetas para que seu mestre pudesse devorar, o Surfista Prateado chega a terra.
O arauto de Galactus avisa a seu mestre que um mundo fresquinho pode ser devorado sem problemas e este vem. O quarteto fantástico desafia o surfista e galactus pela primeira vez, mas falham. Quem salva o dia não são as chamas do Tocha Humana ou os punhos inquebraveís do Coisa, mas sim a mão carinhosa e a voz gentil de Alicia Masters.
Enfraquecido pelo Quarteto, o surfista prateado busca abrigo no apartamento da cega Alicia e graças a ela, descobre a bondade do coração humano e percebe que a terra não pode ser destruída.
O Surfista se revolta contra seu mestre e com a ajuda do quarteto expulsam Galactus da terra.
O ex-arauto do devorador de mundos agora é um herói.
Ok, bonito, mas o lance é que o surfista nunca conseguiu ser popular como astro das próprias histórias. Não em um base mensal e esse é o lance. Em seu gibi mensal, o passado do surfista é revelado. Norrin Radd era um jovem no planeta Zenn-La e apaixonado por Shalla-Bal quando o devorador de mundo decidiu... devorar seu mundo. Mas a coragem e a vontade de Norrin Radd fizeram com que o devorador pela primeira vez em sua existência, tão antiga quanto o universo, negociasse.
Ele deixaria Zenn-La em paz, mas em troca Norrin Radd se tornaria o surfista prateado e abandonaria sua prévia existência.
Sua série mensal criou uma bela origem para ele e o definiu como defensor dos cosmos (um alivio enorme uma vez que todo ser do universo marvel está misteriosamente em nova york) . Mas a característica mais marcante do surfista é sua existência solitária. Jamais existiu alma mais triste e mesmo que seu gibi mensal solo nunca tenha chegado a ser grande coisa, as Graphic Novels estralando o surfista prateado estão lá em cima entre os trabalhos mais belos já realizado pela Marvel Comics.
Silver Surfer - The Ultimate Cosmic Experience
Não se assustem, essa é uma história do Stan Lee e ele gosta de titulos explosivos.
Esta história na verdade é um "Como seria se..." o surfista prateado tivesse chegado em um mundo sem o quarteto fantástico... ou não, muitas coisas mudam, tirando galactus e o próprio surfista, nada mais é pertencente ao universo marvel.
O surfista sente compaixão pelos humanos assim que os vêem e não precisa nem de Alicia Masters para se revoltar contra seu mestre. Galactus então manda uma representante convencer o surfista que a terra não é assim tão boa.
O maior problema de Stan Lee sempre foi subestimar a inteligencia dos seus leitores e aqui ele está ingênuo como nunca. Nas 120 páginas, essa Graphic Novel talvez valha apenas pelo brilhante dialogo que mostra o grande ser que galactus é:
- They wish the humble ant no harm, but care not if they live or die
- But it´s not ants we speak of -- are these beings not human?
- The question is misplaced! Ask instead -- Am I not Galactus?
É sempre um alivio ver um vilão que não é mal pelo prazer de fazer maldades e galactus é brilhante por sua amoralidade. Ele se alimenta, igual fazemos com gado. "Mas esses seres não são bovinos?" "A pergunta está fora de lugar! Pergunte -- Não sou eu humano?"
Judgement Day
Depois que o Surfista se demitiu da posição de arauto de Galactus, outra pessoa se ofereceu em seu lugar.
Nova era uma namorada do Tocha Humana, com poderes semelhantes e tudo. Um dia, Galactus quebrou a promessa de deixar a terra em paz. Após a derrota, ele partiu novamente, enquanto ia embora, entretanto, um ser pediu para se juntar a ele. Diferente de Norrin Radd entretanto, Nova não tinha nenhum ideal nobre... ou maléfico... ela queria apenas viajar, abandonar a vida cotidiana e vagar pelo espaço. Como boa humana que é, nunca levava galactus para planetas habitados, mantendo o devorador vivo com pedaços de rocha sem vida, o que no final, era bom, pois assim ela acabava impedindo que galactus atacasse mundos como a terra.
Mas se lembre que eu falei do prazer de ver vilões que não são malvados por prazer? Pois bem o vilão dessa história é exatamente o cara mau que curte ser mau. Mefisto é, literalmente, o demônio, que cansado de se divertir com políticos e apresentadores de tv, decidiu buscar a alma do surfista prateado. é Nova entretanto quem cai na tentação e um feitiço de Mefisto a faz se apaixonar por Galactus. Ela então, começa a procurar para ele suculentos mundos cheio de seres vivos para devorar. Enquanto a história não mostra o bom surfista do modo lindo que veremos nas próximas duas Graphic Novels, a arte aqui é assustadoramente linda.
Sal Buscema é um daqueles caras que viveu na época em que um artista tinha que fazer 3 ou 4 gibis por mês, seus gibis mensais eram ótimos para o padrão da época, mas nenhum editor são os aprovaria hoje.
Entretanto com a Graphic Novel é diferente. Sem o terror dos prazos, Sal tem a oportunidade de desenhar com detalhe cada página. E nota que não há quadrinhos na história, cada páginas é um quadrinho. Então cada momento é ricamente detalhado.
The Enslavers
Surpreendentemente bem escrita por Stan Lee e muito bem ilustrada por Keith Pollard, encontramos aqui o surfista prateado que conhecemos e amamos.
A história começa com Galactus encontrando um mundo destruído, sem vida e amaldiçoando as criaturas que secaram o mundo antes que ele, assim o forçando a procurar outro.
Do outro lado, encontramos um Surfista Prateado, perdido, desolado e abandonado, chegando inconsciente a casa de Reed Richards balbuciando apenas "Am I Mad?"
E em outro canto do universo, a Voyager 3 (lembra, aquele treco vagando no espaço detalhando a existencia humana para caso exista alguém inteligente lá fora) é pega e analisada por... alguém lá fora.
Enfim, amargurado, o Surfista Prateado revela que finalmente achou seu planeta natal. Zenn-La, mas que ele não passa de uma rocha vazia. Aconselhado por Reed Richards entretanto, ele volta para a tal rocha vazia a fim de procurar mais pistas.
No que abandona o planeta terra, visitantes se aproximam e liderados por um ser talvez mais poderoso que Galactus, Mrrungo-Mu que além de ser o conquistador mais bem sucedido do universo, ter derrotado todos os heróis com um tapa, ter "one billion billion slaves", também tem problemas matrimoniais gravissimos. E enquanto o surfista procura traços de seu povo desaparecido, encontra uma jovem fugindo de seu enlouquecido e megalomaníaco marido que busca conforto nos braços de uma recém-adquirida escrava... Shalla-Bal (aquela do começo, lembra? O amor da vida de Norrin Radd).
O que se segue é a típica história de super-herói, mas a parte surpreende é Stan Lee que nos prova que a típica história de super-herói pode ser muitissimo bem escrita, sendo não apenas divertida, mas bem emocionante.
Homecoming
E aqui chegamos a ultima resenha do dia. Deixada por ultimo de propósito, por essa história realmente pegou meu coração e é a melhor retratação do surfista que eu vi até hoje. Escrita pelo pai das "ohmyfuckingod super mega sagas estrelares", o que já foi muito bom, Jim Starlin e desenhada por Bill Reinhold.
Para garantir a neutralidade de Zenn-La no conflito Kree/Skrull, o surfista mais uma vez é condenado a vagar fora de seu planeta. Entretanto ele recebe um pedido de socorro de sua amada Shalla-Bal e volta correndo pra casa só para descobrir que... a casa sumiu.
Os monitores de um satélite próximo não enganam. Um segundo o planeta está lá e no outro não.
Com a ajuda da Serpente da Lua, então guardiã da jóia da mente (antes do Starlin foder com a própria saga do infinito), o surfista descobre que o planeta foi absorvido por uma criatura mais mental que fisica e que Zenn-La agora não passa de um onda mental do ser.
O surfista então abandona o corpo e sua mente viaja até Zenn-La para descobrir seu mundo em... perfeito estado... literalmente.
O ser na verdade, não é nenhum ser maligno, ao contrário, ao absorver Zenn-La ele o livrou do conflito Kree/Skrull e até fez uma votação entre os habitantes perguntando se eles queriam permanecer lá ou não. Tudo feliz e saudavel, o surfista é abordado por algo que nunca teve antes. Paz. E pela primeira vez em sua história, ele pode viver com Shalla-Bal.
A história é um belo conto sobre dois seres muito parecidos procurando tão desesperadamente a paz e se deixando levar tão facilmente pelas emoções.
"so much power, possessed by such frightened soul" lamenta o surfista.
É uma história tão poderosa por ser tão trágica.
Felicidade utópica que acaba por se tornar a maior das tristezas.
"Moondragon of the infinity guard has seen many wondrous things in her travels, so believe in me when I say, that in all the universe... there is no sadder or more noble being then the silver surfer"