segunda-feira, abril 16, 2012

Sobre trabalhar com que se ama

Eu acabei de ler esse artigo sobre um tema que tem me pertubado muito ultimamente: isso de trabalhar com que ama. O resumo do texto é o seguinte: Se você espera ser pago pra fazer algo que gosta, você tende a substituir a motivação "gosto de fazer" pela motivação "dinheiro", ao invés de acrescentar. Então você passa a pensar que toda vez que faz deveria ser pago e aí você passa a não conseguir fazer só por amor e ainda por cima faz de má vontade quando é pago, pois agora é só um trampo. A saída seria ser pago "por acidente". Você faz o lance sem esperar recompensa e *PUF* ela simplesmente aparece.

O artigo não é ruim, mas como quase tudo que eu leio em psicologia na internet, parece só um modo longo e behaviorista de dizer um senso comum - nesse caso, como em tantos outros, oculto sob a máscara de "verdade que ninguém quer ouvir" por contrariar outro senso comum (somos uma época confusa e perdida, temos sensos comuns contraditórios); no caso o senso comum é a velha história do cara que vai fazer X trabalho artístico, entra no ramo e tem que fazer algo similar ao que gosta de fazer pra ganhar dinheiro; por exemplo, o desenhista que vai desenhar histórias que não gosta. Mas isso não é fazer o que gosta; eu não acho que um desenhista gosta de desenhar porque sentir a lapiseira entre os dedos estimula uma zona erógena. Ele desenha precisamente por ser um meio de contar a própria história, então se ele não está fazendo isso, então ele não está sendo pago pra fazer o que gosta. No caso, o mercado muito raramente te dá o estímulo pra fazer o que você gosta, na maior parte das vezes, ele deixa você fazer algo semelhante.

O artigo não aborda isso, ele realmente aborda "fazer o que gosta", mas os experimentos behavioristas erram o alvo, acredito: por exemplo, existe um jogo divertido, aí você é pago pra isso, então o jogo deixa de ser divertido, se torna sério. Sim, isso acontece, mas um jogo de tabuleiro não é o que você ama fazer, não é como você acredita que vai deixar sua marca no mundo. É só algo divertido. Então ele prova mais algo sobre diversão e entretenimento do que sobre o efeito do dinheiro no caminho que você escolhe pra vida num geral. Um outro ponto, esse o artigo faz melhor, mas acho que ainda não acerta a marca, é que quando tem algo que você faria de graça e alguém te dá uma quantia de dinheiro, a coisa se torna mais complexa e às vezes menos prazerosa. O exemplo é quando você vai ajudar um amigo a fazer mudança e ele te paga 50 reais; isso confunde a recompensa que você espera, pois você realmente espera um "muito obrigado, você é um cara legal e eu te amo" etc e tal; aí você recebe 50 reais e de repente a coisa fica besta: de amigo eu passo a trabalhador mal pago.

O problema aqui é que uma coisa que o artigo parece confuso é que dinheiro também é uma forma de validação social e não só uma recompensa material. Lembro de uma jovem escritora batendo no peito que agora sim é escritora, agora sim ganha pra isso. No caso ela não está feliz porque pode comprar uma tranqueira, mas porque dinheiro é como ter pessoas dizendo pra você: "gosto tanto do que você faz que até sacrifico as tranqueiras que eu compraria com isso para comprar o seu livro". Recentemente minha namorada ficou chateada comigo porque eu dei continuidade a um projeto só porque vi uma pequena esperança de ganhar dinheiro com ele, mas, e é o que eu disse pra ela, não é que eu esteja atrás do dinheiro, mas é que ganhar dinheiro com alguma com isso significa que o que eu faço tem valor pra alguém. Foi um motivo pelo qual vendíamos os fanzines a 1 real ao invés de dar de graça; por 1 real a pessoa lê, ela investiu, ela dá atenção, ela fez uma aposta no nosso trabalho. De graça, ela joga no chão.

Fazer o que ama é um negócio muito mais complicado do que fazer o que ama; é também complicada a noção de recompensa: é uma área tão nebulosa essa de se sentir recompensado pelo que faz. O problema deve ser eu, mas eu nunca me senti recompensado pelas coisas que faço e eu não vejo escolha senão continuar a fazê-las. Existe uma noção aí que não entra nos estudos de psicologia, que é um senso de dever com algo. Esse esquema de explicar comportamentos humanos por escalas de recompensa e punição (materiais ou não) nunca fizeram sentido pra mim por causa de um pequeno detalhe da historia humana: as guerras.

Em qual esquema de mundo que vê o ser humano essencialmente egoísta faz sentido ir pra linha de frente em um campo de batalha. Faz sentido entender porque os líderes fazem guerra, não são eles que lutam, mas que egoísmo leva o soldado à lidar com a morte? Todos os motivos que aparecem fazem sentido apenas pro líder: Status, por exemplo, que soldado com uma arma na mão vendo os amigos morrerem ao redor acha que há uma boa relação risco x recompensa entre ficar famoso e morrer? Que vençam a guerra, ele não vai ser o único sobrevivente, a glória e o status que ele recebe são tão dispersados.

Se a explicação vai pro lado de sobrevivência da espécie, de um estilo de vida, etc e tal; aí fica mais justificável. Ter um filho vai pro mesmo caminho, não há bem um motivo egoísta pra ter um filho (nem no sentido burguês da questão de ter um herdeiro, que pamonhas um herdeiro faz por mim que o dinheiro que eu gasto criando ele não pode fazer?). Na geração da vida e na execução da morte, os motivos parecem quebrar e os instintos tornam-se melhores explicações. Mas se esse é o caso, são esses os únicos casos?

E se a busca pela arte e a busca pela verdade também entrarem no esquema do instinto de preservação da espécie? E se parte daquilo que dizem "você faz porque gosta" não é um gostar como se gosta de uma diversão, mas sim um "você faz porque ama" como se ama um filho ou uma nação? O que acontece quando você é megalomaníaco e sua neurose não passa por procurar dinheiro e fama, mas sim por procurar fazer algo de importante para a espécie, mesmo que a espécie não agradeça de volta. Mas aí a megalomania pressupõe um distúrbio da razão, uma falta de perspectiva; mas se é um jogo de instintos, a razão já não é secundária em primeiro lugar? A arrogância, no caso, não seria a pretensão de autocontrole perante o grito do sangue?

Rilke diz: "Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: 'Sou mesmo forçado a escrever?'"

Perante uma força que equivale à vida, como entram os termos de recompensa e arrogância? Acho que não é questão de falar que não entram, você não se torna um super-homem ou uma máquina de escrever só porque sente algo assim, ou talvez seja só eu que sou fraco nesse meio, mas é verdade que ser vedada a possibilidade significaria a morte, acontece também de ser nesses pensamentos, de ser com as crises referentes a esse tema que o pensamento de suicídio realmente aparece. Acontece às vezes de tanto dizerem ou darem a entender que os serviços à vida são desnecessários, que então eu peça demissão da vida.

4 comentários:

Anônimo disse...

Cara... Volte a escrever.

Por favor.

Abraços,
Anarco.

Anônimo disse...

Exacto! Estou sentindo falta de entrar aqui e ler novos textos. Espero que esteja tudo bem e que volte a escrever no blog.

Rodrigo Braga Alonso disse...

Pra quem finge que é leitor do meu blog, é só achar os meus textos no tumblr. Sou Sblargh lá também.

Anônimo disse...

Also it is really a device which could very
well save his life eventually and it doesn't get much more romantic than saving someone's life,
does it. The Men In Our Lives Should Receive These Great Gizmos Too.
It mustn't be any different in the gifts for fathers day.

Feel free to surf to my blog; http://nathanaelf.blogspot.com/2006/04/quebec-car-insurance.html