Segunda-feira, Junho 01, 2009

Duas forças - algo sobre religiosos e secularistas.

Esses dias, bickering no msn com um amigo; ele, católico, dizia que eu não entendia que por trás das críticas ao cristianismo estava um ódio ao ocidente e eu contra-bati-boca que esse era o problema; que cristãos estavam, aos poucos, cada vez mais se afastando do "resto de nós" e se isolando de tal modo que o que eles falam é de fato incompreensível.

Ontem (se não me engano) eu li um argumento exatamente como o meu, mas mirado no "resto de nós".
A pequena notícia iniciava-se dizendo que o número de religiosos estava aumentando no mundo e em lugares que a sociologia atual não prevê - entre pessoas ricas, bem educadas, acadêmicos e cientistas e o autor concluia algo do tipo:
Dawkins foi criticado por ser teologicamente analfabeto; as dawkinetes respondiam que se Deus é uma ilusão, então teologia é inútil; ao que o autor do texto responde que se cientistas chineses estão se encontrando regularmente para discutir a bíblia cristã, então teologia é ao menos útil para que o "resto de nós" consiga fazer parte do mundo e se comunicar.
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Então remendando meu bate-boca irracional de internet, eu diria que vivemos em uma época complicada (não, jura?).
Pra começar, nós, do ocidente ao menos, vivemos em um mundo razoavelmente secular - secular não significa, obviamente, ateu; podemos até ter um governo religioso e um Estado secular.
Dá pra pensar como exemplo disso uma admnistração Bush, que tinha uma sala de orações na Casa Branca e frequentemente invocava Deus como uma das justificativas para fazer tal e tal ação (não que ele fosse um fanático dizendo "as evidências apontam o contrário, mas minha teologia diz para fazer então farei", era mais "há num monte de motivos para fazer, além do que, minha teologia aprova".
Mas mesmo que o governo Bush fosse cristão, o Estado norte-americano continuava secular; o que manda no Estado são os três poderes e isso é constante não importa se os cidadãos votam em massa em candidatos religiosos ou não.
Assim, é possível até ter um presidente e um senado cheio de religiosos tomando decisões baseadas em teologia que continuamos a viver em um estado secular, pois estado é exatamente isso: aquilo que fica firme enquanto governos e suas particularidades vêm e vão.
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Em segundo lugar, é um fato sociológico inegável que há, de fato, um aumento da religiosidade não só entre as pessoas como no discurso político.
Eu acho que isso tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com Jesus (mas até aí, a crença acerca da imutabilidade e eternidade das verdades científicas tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com o modo como ciência funciona.)
O que temos, na minha visão, e algo bem irônico porque são duas visões de mundo se considerando guardiãs de algo de eterno e a-histórico surgindo por causa de briguinhas políticas bem medíocres da nossa época.

De um lado, religião foi um modo que os conservadores encontraram de dialogar com um eleitorado e estabelecer diferença em relação a seus oponentes. Já que socialistas são (ou eram - porque socialista é um parasita no matter what e como tal já descobriu um meio de se tornar cristão) em sua maioria ateus e estão sempre falando em revolução e "imagine there's no heaven" e etc; se apegar a uma tradição importante como o cristianismo e transformar deus em cabo eleitoral é simplesmente esperto. É um modo de dizer "somos diferentes dessa gente querendo destruir um estilo de vida que você até que gosta" sem precisar de fato entrar em uma teoria a respeito disso.

Do lado das dawkinettes, é que uma vez que religião começa a afetar o estado, há o medo de que ela afete outra coisa afetad pelo estado: a ciência.
Então nós temos essas várias táticas de gente desesperadas que vemos aparecer nos últimos tempos; primeiro, para tentar proteger a ciência desse ou daquele governo, vem o desespero para fundamentar (e rápido!) a ciência como algo eterno e imutável (todo covarde apela para o eterno - eternidade é um sintoma de medo da morte).
Claro que desde o século XVII, "encontrar um fundamento seguro para as ciências" faz parte da cartilha da maior parte dos filósofos, mas o que acontecia antes era um esforço para aperfeiçoar a ciência; era algo como: "essa coisa chamada ciência dá certo, mas não sabemos bem porque, então vamos desmontá-la e, descobrindo como funciona, podemos fazê-la funcionar melhor ou, ao menos, impedir que ela se corrompa e deixe de funcionar"; mas isso era quando ciência era um problema epistemológico.
Hoje, ciência é um problema político, então a questão se tornou algo do tipo: "essa coisa chamada ciência dá certo, não importa porque, temos que convencer as pessoas disso antes que o governo corte nosso financiamento!"

A questão do criacionismo ilustra bem o problema: toda a epistemologia das dawkinettes baseia-se na seguinte pergunta: "que tipo de concepção de ciência é necessária para que o criacionismo não seja considerado ciência?"
O medo da dawkinete é que um dia haja algum consenso entre algum grupo de cientistas (propriamente cientistas e não esses freaks que raramente surgem aqui e ali em alguma universidade só para depois irem choramingar na fox news que são oprimidos) dizendo que criacionismo é ciência.
Então eles se esforçam pra criar a noção de uma ciência eterna e imutável que diga: "os tempos podem mudar, a humanidade pode até entrar em consenso que criacionismo é ciência; mas mesmo assim não será."
Daí o medo das dawkinetes em relação aos "relativistas"; é, em suma, medo do tempo; mas afinal, como já dito, todo apelo à eternidade é um medo do tempo que traz a morte.
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O que acontece, portanto, é que existem essas duas forças na sociedade cada vez mais se distanciando uma da outra; ambas com suas próprias mitologias de eternidade e sua própria batalha particular do bem contra o mal.
Se fosse um problema de teologia ou de ciência, a coisa seria resolvida nos seus respectivos campos, mas sendo um problema político, ele começa a afetar outras esferas da sociedade. Ambos os lados se sentem oprimidos, ambos os lados se sentem revoltados por não serem representados o quanto acham que merecem, ambos os lados crescem frustrados e se fecham em seus círculos de amizade cada vez mais considerando o outro um inimigo a ser enfrentado; uma ameaça para toda a civilização.

Logo começam as teorias de que "se grupo X é tão influente na democracia e grupo X é claramente inimigo da civilização que permite tal democracia; logo a democracia deve ser salva de si própria".
Aí já viu.

Domingo, Maio 31, 2009

Um dia para destruir coisas...



... porque quando você tinha 19 anos

VOCÊ não quis um dia criar algo tão belo e puro
apenas para que um dia você pudesse inflamá-lo
e então ver a cidade acender enquanto queima?
Você já não quis fazer isso todos os dias de sua vida?

Nada deveria ser para sempre.
Bandas deveriam fazer um single e então se separar,
fanzines terminar após uma edição sem falhas,
amantes partir na chuva às 5 da manhã e jamais serem vistos de novo -

Hábito e medo de mudança são as piores razões para fazer QUALQUER COISA.

Acabar com um selo após 100 lançamentos perfeitos
é a mais linda declaração de arte pop possível
e diz mais sobre música pop do que qualquer digipak em duas partes
edição limitada em vinil 7" colorido
autenticamente lo-fi EP de dez faixas
(ou qualquer outro truque de marketing)
jamais irá.

Sarah Records pertence a ninguém a não ser nós,
então é NOSSA para criar e destruir como queremos
e nós não fazemos bis.

Nós queremos queimar em cores brilhantes e ir pop.
para ser alegre, impulsivo e bobo,
para beijar pessoas em novos lugares -
REQUINTADAMENTE
- e ousar despedaçar coisas.

O primeiro ato de revolução é destruição
e a primeira coisa a se destruir é O PASSADO.
assustador
como se apaixonar
nos lembra que nós estamos vivos

SARAH RECORDS
1987 - 1995
=

Sarah Records nasceu quando eu tinha dois anos e morreu quando eu tinha 10.
Quem lê isso acima pode pensar que Sarah era um selo punk comunista que queria obliteração da sociedade como nós a conhecemos, mas Sarah é o selo que lançou os álbuns mais doces e puros que conheço.

Sarah era o selo que lançava álbuns de Another Sunny Day, Field Mice, Heavenly e Blueboy.
Desse selo que surgiu o que hoje entendemos como "indie pop" e, talvez mais importante, o que entendemos como "indie".
EM 1987, punk era algo famoso e popular; o lendário 1977 havia acontecido há 10 anos atrás e as ruas de Londres estavam cheias de garotos violentos e machistas com seus moicanos e jaquetas de couro; em 1986, a NME havia lançado a C-86, uma fita cassete com bandas ao mesmo tempo tão independentes quanto as bandas punk, mas inspiradas por Smiths e nostálgicas por músicas pop simples sobre amor e besteirinhas adolescentes.
Um ano depois, surgia a Sarah Records para tais bandas independentes que não faziam parte de nenhum movimento específico.
Essas bandas eram para meninas que gostavam de coisas de meninas e meninos que se sentiriam bobos colocando um piercing ou fazendo um moicano; Heavenly por exemplo (minha banda favorita) era o projeto de uma menina que convidou uma amiga para fazer backing vocal, o namorado para tocar guitarra e o irmão de 14 anos para tocar bateria.
Era a essência do Do It Yourself sem esse ódio fingindo por tudo e por todos.
Suas músicas continham amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como tais elementos estão em histórias de crianças.
Assim como é infantil construir coisas só para queimar depois (não é uma das graças de construir castelos de areia em algum lugar onde há a certeza que a maré alcançará eventualmente? Não é algo puramente infantil brincar com seu carrinho favorito até ele quebrar? Atena sabe quantos batmans e wolverines não foram desmembrados em minhas mãos), Sarah Records sempre buscou lançar obras belas e puras e de bandas que ninguém esperava que fossem durar.
Fala-se em revolução, em destruir o passado, em "beijar pessoas em novos lugares", em não se tornar vítima do hábito e do medo; não é assim que crianças se comportam? Mais, não é esse o objetivo final de toda criança? Se tornar algo melhor do que os adultos que inevitavelmente se tornarão?
=
Eu achei isso interessante porque acabou recentemente uma re-publicação online de Chuva Contra o Vento no Quarto Mundo e foi uma história que eu escrevi quando tinha exatamente uns 19 anos.
Na época, o único referencial que eu tinha de histórias do tipo eram os gêmeos Bá e Moon (e ainda praticamente são os únicos) e sempre me atormenta esse pensamento de que hoje eu não conseguiria escrever algo tão simples e bonito quanto foi o Chuva...
E é engraçado porque antes de ler ela no Quarto Mundo, eu tinha uma visão um pouco diferente da história, eu não gostava tanto dela, como uma criança de 14 anos não gosta dos seus brinquedos de quando tinham 10 porque agora elas já estão todas grandinhas com seus enormes 14 anos.
Lendo recentemente, eu vi uma história infantil, com amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como eles acontecem nas histórias infantis.
É uma história que eu tenho orgulho, que eu vejo menos falhas do que via há um ano atrás quando eu só lembrava da história e mais qualidades do que eu lembrava.
Eu algum momento eu cheguei a pensar "hoje eu não escreveria a cena do estupro; eu colocaria algo menos pretensioso e menos espinhoso, algo como eles saindo para um encontro e simplesmente não dando certo, simplesmente não havendo química" e é verdade que hoje que eu não escreveria tal cena, mas eu estou feliz que na época eu fui criança o bastante para fazê-lo.
Hoje eu teria que levar em conta mil fatores que na época eu simplesmente não pensava, na época soou apenas um cliffhanger interessante para o final do quinto número; pouco tempo depois eu me arrependi dessa parte da história, me achei lidando com algo mais sério e mais pesado do que eu tinha competência de lidar.
Lendo a história de novo, eu achei engraçado o quanto eu consegui manter algo do tipo silencioso. O fato não rende cenas violentas e traumáticas. A consequência dessa cena é um dialogo no hospital e um abraço na mãe.
É raro eu me sentir orgulhoso, mas eu me senti quando eu percebi como lidei bem com essa cena - entenda, como eu fui profissional, POIS eu fui infantil; POIS eu não entrei em grandes questões psicológicas e grandes cenas dramáticas e grandes especulações políticas e sociais sobre nossa sociedade machista que continua a ver uma mulher de saia parada em uma esquina como um objeto a ser utilizado. Foi infantil, foi um diálogo no hospital e um abraço na mãe.
Ele vai pra casa e chora.
Como mais uma criança lidaria com isso?
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De qualquer forma, é estranho eu me ver como um escritor hoje, eu sou talvez o roteirista menos produtivo do Quarto Mundo, eterno está saindo aos poucos e o que há programado pra depois dele são umas histórias curtas (24 páginas se mão engano) que sairão no novo website que eu e o Cunha estamos montando.
Na verdade, eu estou procurando desenhistas para mais histórias. Precisaria de alguém com um estilo bem bonequinhos palito para histórias de dois personagens:
Um será o vestido vermelho e outro o vestido azul e sei lá, eles vão conversar.
Pensando bem, talvez eu desenhe.
Haha, eu vou ser para o malvados o que Sarah Records foi para o punk; enquanto ele é todo profissional e todo artista fingindo que não sabe desenhar para fingir que odeia o mundo, eu que realmente não sei desenhar e sou sinceramente deprimido vou fazer tirinhas bonitas.
Vamos ver como funciona.
Eu tenho um roteiro deles por aqui.
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Ok, isso não exatamente funcionou, mas sei lá, uma amostra feita por alguém que não consegue nem fazer bonequinhos palitos.
E enfim, é isso, em breve eu vou ter mais histórias na web e se você desenhar eu posso em breve ter histórias suas na web.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Pensamento bobo do ônibus (filósofos em bandas de rock e hedonistas oprimidos)

Nietzsche é tipo o vocalista da banda; é pra onde as groupies adolescentes são automaticamente atraídas.
Marx é tipo o guitarrista da banda; é pra onde as groupies adolescentes que fingem que estão nessa pela música e não pelo star power são automaticamente atraídas.
Descartes é tipo o baixista da banda; é pra onde as groupies que se consideram mais profundas e que "realmente ouvem o som" são automaticamente atraídas.
Wittgenstein é tipo o baterista da banda; é pra onde as groupies esquisitas e tímidas que sinceramente gostam da música e estão nessa de groupie pra tentar fazer parte do lance, mas sem querer chamar atenção demais pra si próprias são automaticamente atraídas.
...(e eis onde o pensamento bobo começou)
Schopenhauer é tipo o amigo do banda; todo mundo gosta dele, todo mundo conhece ele, mas ninguém sabe exatamente o que fazer com ele. Às vezes ele fica de empresário, às vezes de roadie, às vezes ele até ajuda a escrever a letra de uma música ou dá um feedback sobre a música da banda e quem não conhece e vê ele no bar com o resto da banda até pensa que ele faz parte... e não é que ele exatamente faz parte, é só que a banda por algum motivo realmente gosta de ter ele por perto e então elas criam esses trampinhos off-stage pra ele só pra manter ele por perto.
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Bônus: Diderot é tipo Carl Johnson do Beat Happening; Kurt Cobain e outras 9 pessoas no planeta são realmente fãs dele e ele é peça-chave do início de um milhão de correntes de pensamento diferente; dito isso, ele ainda só é conhecido por Kurt Cobain e outras 9 pessoas, pois cada coisa que ele ajudou a criar ficou realmente famosa nas mãos de outras pessoas, então quando essas 9 pessoas morrerem (porque Kurt Cobain já se matou), ninguém vai lembrar que um dia ele existiu.

Bônus 2: Locke e Hume são Liam e Noel Gallagher respectivamente; eles são sempre citados como sendo quase a mesma coisa, mas Noel sendo mais violento.

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Vai, já que eu to no blog. Recentemente eu tenho ficado bravo com conservadores porque eles estão se sentindo abandonados agora que Obama ganhou a eleição. Os caras dominaram o planeta a década inteira e agora que perderam uma única eleição (e nem perderam de tão feio assim), estão profetizando que uma nova era de barbárie e comunismo e sangue e dor se anuncia. E a histeria, oh céus, a histeria!
É como se conservadores fosse uma minoria perseguida.
Mas falando em minoria perseguida, esses dias eu tive o mesmo sentimento de "pff, man up nancy boy" em relação a ateus hedonistas. É o que acontece geralmente quando eu decido visitar a comunidade de poliamor do orkut.
Ok, eu sou poliamorista, ateu, se não um hedonista convicto e por ideologia, ao menos hedonista porque não tem nada melhor pra ser por enquanto e essa é parte do ponto.
Você facilmente encontra na internet vídeos de todo e qualquer tipo de perversão sexual imaginada (protip: tubaholic); a série de filmes pornô dos anos 70 chamada "Taboo" que lida com incesto teve QUINZE versões. Uma série de filmes pornô que lida com incesto é um dos clássicos da pornografia, sucesso incrível de vendas e - de novo - 15 versões (eu assisti o primeiro, o segundo e o quarto se não me engano; o roteiro é bem decente, mas já no quarto dá pra notar uma decadência, eu gosto quando o irmão é mais tímido ao invés de full-blown tarado, sabe?), quero dizer, existem algumas centenas de milhares de norte-americanos que compraram vídeos e vídeos de um filme pornô sobre incesto; conseguir prostitutas e drogas é a coisa mais banal do mundo - basta ter dinheiro e nem precisa ser muito dinheiro.
Além da indústria imensa do sexo, existe toda a imensa possibilidade de sexo casual que pode ser feito por aí e existe toda a indústria das baladas, da festa, a quantidade incrível de bares ao redor de cada universidade.
Meu ponto é: existe algo mais estúpido nesse planeta azul do que um hedonista em São Paulo se sentindo oprimido? Eu nunca escondi pra ninguém que eu sou ateu e mesmo poliamorista e ninguém nunca me tratou mal por causa disso - e eu já andei algum tempo entre conservadores; eles achavam que eu estava errado em ser ateu e que poliamor era mais uma forma de justificar multiplas namoradas do que minha sincera visão de amor e relacionamentos (Até aí, especialmente pros conservadores que passaram por universidade, quantas vezes sujeito não tem que lidar com alguém, às vezes professor, dizendo pra ele que a visão monogâmica de romance dele é só um modo de oprimir alguém?), mas eu tenho 15 mil vezes mais problemas com alguém tentando me convencer que Obama é o anti-cristo do que com alguém tentando me convencer que Jesus é o cristo.

Eu não estou dizendo que esse é o mundo perfeito para o cidadão hedonista, que não há gente chata, familias intolerantes, gente que olha torto na rua, etc; mas esse não é o mundo perfeito pra ninguém. Sempre vai ter alguém criticando seu estilo de vida. Os carolas também sentem que seu estilo de vida está ameaçado (e eu digo pra eles também que coisa boba se sentirem oprimidos em um país com uma igreja católica e quinze evangélicas em todo bairro).

Esse post não tem muito propósito senão reclamar das pessoas que reclamam, mas meu conselho para os hedonistas é que eles estão muito estressados e que eles deveriam relaxar e aproveitar mais os prazeres da vida.

Domingo, Maio 24, 2009

ZOMFG! APARTHEID!!!11!11!SHIFT+1

Recebi um e-mail dizendo que o congresso constitucionaliza o Apartheid ao criar um estatuto da igualdade racial ou algo do tipo.
Em algum momento do e-mail histérico sobre como esses negros sacanas estão roubando algum direito nosso só porque nós os escravizamos por meros séculos, a pessoa cita um sociólogo com um sobrenome ironicamente alemão.

"Mas, como lembra o sociólogo Simon Schwartzman, o problema é saber quem deveria pagar essa dívida. "Portugueses escravocratas que já morreram? Ou filhos de imigrantes japoneses, italianos e alemães que vieram para o Brasil na miséria e não tiveram nada a ver com a escravidão?"

Sim; japoneses, italianos e alemães vieram para o Brasil na miséria e hoje são a classe média; já os negros, na mesma miséria, ainda são os protagonistas de favelas, sub-empregos e prisões.
Porque em um país tão admiravelmente usente de racismo como o nosso ofereceu ascenção social para grupos e grupos de não-negros miseráveis, mas não para os negros?

Sei lá, das duas uma:
Ou o sociólogo acredita que os negros são inferiores a ponto de estarem sistematicamente nas classes mais baixas por males inerentes à raça ou o sociólogo é racista.

E não consigo me decidir qual das duas.

Bônus:
"NÓS NÃO SOMOS OS EUA!"
É verdade. Eles entraram em uma guerra civil para acabar com a escravidão em 1865, enquanto nós pacificamente, no maior espírito de comunhão entre as raças, pacificamente acabamos com a escravidão 23 anos depois; em 1888.

Realmente, eles são os racistas, nós apenas passamos 23 anos sendo o único país das américas a escravizar negros. Que exemplo admirável nós somos! Orgulho de ser brasileiro.

Bônus 2:
Nós somos tão pouco racistas que o censo tem que olhar pra alguém indiscutivelmente negro e perguntar qual etnia ele se considera.
Afinal, nós somos tão pouco racistas que nosso governo não quer correr o risco de ofender alguém chamando ele de negro.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Sobre ser adulto

O adulto é uma farsa.
O profissional é uma mentira.
Esse é o tipo de coisa que eu descubro enquanto "cresço".
Eu sempre pensei que sairia do colégio e encontraria esses tais "adultos", pessoas como meus pais que eram emocionalmente estáveis e faziam seu trabalho e mantinham o mundo girando (ou explodindo por motivos legítimos).
Mas não há adultos, afinal, meus pais não eram emocionalmente estáveis, "fazer o seu trabalho" não é assim tão difícil e mesmo assim a maioria das pessoas não faz direito e as pessoas se explodem por estupidez.
Às vezes é difícil encontrar profundidade nesse mundo. Profundidade é, num geral, só falta de conhecimento.
Profundidade é na maioria das vezes só o que uma pessoa que quer convencer outra por meio do medo. "não entre em tais águas, elas são profundas!" ou "não fale disso! Você não sabe o que há nas profundezas".
E a segunda afirmação é verdade, na maior parte das vezes falamos sem saber o que nos aguarda nas profundezas, mas todas as vezes que eu ignorei o primeiro aviso e entrei em tais águas, eu não vi toda aquela profundidade que afirmavam, mesmo que eu já tenha usado "profundidade" como um meio de assustar os outros.

"Você não sabe! É muito mais complexo do que você pensa!" é o que dizem os ilusionistas. E esse mundo tem sua infinitude de mágicos.
Cientistas mágicos que conhecem profundamente o mundo com um jargão complexo demais para você leigo.
Religiosos mágicos com sua fé misteriosa que o conectam à uma entidade que você pobre ateu não tem acesso.
Artistas mágicos que criam suas obras usando suas mentes misteriosamente super-desenvolvidas vivendo em mundos exóticos que o pobre espectador pode apenas experimentar por meio da arte.

Não questione como o mágico faz sua mágica, é complexo demais, é profundo demais, você simplesmente *não sabe*!

E longe de mim querer dizer para as pessoas questionarem tudo, como eu disse, é verdade que nós não sabemos e conhecimento é poder no sentido que ausência dele pode te levar a acreditar em profundidades não-existentes e há medo da profundidade.

Mas quantas vezes *você* se sentiu profundo? Quantas vezes você buscou um conhecimento e, após ter adquirido, se sentiu com a chave para interpretar a humanidade de modo que apenas você e seus poucos companheiros de conhecimento conseguem?

Se você atingiu tal profundidade, minha aposta é simplesmente que você é tão ingênuo que realizou uma simples confusão: O fundo não é necessariamente profundo. Ver o chão só significa que você encontrou mais uma superfície.
E quão bobo não é quando alguém chama superfície de profundeza?
E quanto potencial não há em alguém que considera o mais profundo ainda superficial demais?

Segunda-feira, Abril 20, 2009

Convicções e inveja

Desde os 17/18 anos, ler Nietzsche é um modo de masoquismo.
Por mais que eu concorde com Nietzsche em coisas relacionadas a parte mais técnica da filosofia (seu tipo de empirismo/positivismo perspectivista, sua postura evolucionária em relação à vida e à razão, seu ateísmo; o Nietzsche de Gaia Ciência, Humano Demasiado Humano), o Nietzsche "auto-ajuda" ("Como ser um filósofo bacana" - Assim Falava Zaratustra, Crepúsculo dos Ídolos) sempre me levou a crer que eu sou algum tipo de ponte para o sub-homem, para o anterior ao homem.

A grande maioria das minhas idéias e visões do mundo vem de coisas mesquinhas, de comportamentos que não consigo adotar, de invejas alheias. Não há nada de objetivo no modo como eu penso, então eu decreto a mim mesmo como realidade e digo "não há objetividade", coisas desse tipo.

Eu sempre tive inveja, ressentimento e ódio de pessoas convictas. Então eu eliminei a convicção da minha cosmologia.

A realidade muda, se suas opiniões não mudam, então você vai estar errado a maior parte do tempo.

É claro que isso é decorrência do modo como eu funciono. Minhas opiniões mudam e mudam semanalmente.
É claro que elas jamais mudam em um debate.

Você diz "A"
Eu digo "B"
Você diz "Não-B"
Eu digo "É? Mas sua mãe é uma vaca!"

Mas é claro que isso vai me atormentar profundamente durante meses e meses e meses até que um dia eu vou dizer "hum... A"

Mas é claro que isso não muda o quadro todo.
Concordar em um tópico e uma opinião é a coisa mais insignificante. Se em duas semanas eu vou ter uma nova opinião, nada é mais fútil do que fazer eu concordar com você hoje. Se alguma coisa, você ganha alguém pra dizer que a mãe dos seus oponentes é uma vaca durante duas semanas.

Tenho inveja da maior parte das pessoas que conheço. Todas elas alternam entre momentos de felicidade e tristeza e eu vivo apenas triste do momento em que me conheço por gente e isso só está piorando.
Atualmente tenho perdido minha capacidade de sobreviver. As pequenas coisas me mantendo vivo funcionam cada vez menos.
Agora eu funciono em uma alternância entre tudo ser um pouco mais urgente, um pouco mais importante porque eu não tenho muito tempo mais entre os vivos.
Por outro lado, de que importa? Eu não vou estar aqui pra ver ninguém chorar no meu funeral.
Dada a onipresença da minha própria miséria, eu acredito tão fielmente no sofrimento como essência do universo que meu medo é que exista uma vida após a morte porque até lá haveria sofrimento. Seja no inferno ou no céu.

O paraíso é ridículo.
Se nós não sofremos, então não nos importamos. Se os anjos no céu e as boas almas não olham para baixo e não sofrem com nosso sofrimento, então eles são apenas seres frios e cruéis. Se isso é o que deveria simbolizar o que há de mais próximo do criador, então não há como escapar do pessimismo da realidade.

Se tais seres sofrem, então o sofrimento persiste até depois da morte. Qual a diferença, aqui, entre paraíso e inferno senão que um é uma tortura psicológica e o outro física?
Dado que o sofrimento é eterno em ambos os campos, eu acho que depois de 5000 anos sendo mergulhado em um lago de fogo, eu vou estar bem acostumado a isso. Mas 5000 anos assistindo pessoas se matarem e sofrerem vai ser bem pior.
O paraíso é um castigo pior que o inferno.
Se existe um Deus e se ele é bom, a recompensa que eu peço a Ele é a não-existência após a morte. Completa obliteração. Isso me assusta de um modo imenso, mas a idéia de eternidade me assusta ainda mais.
Vida após a morte só significa sofrimento após a morte.

Pensando em céu e inferno, que é o mais inútil de todos os assuntos possíveis, material para blogs e bêbados (e infelizmente agora estou apenas blogueiro, não me lembro muito do que falei quando estava bêbado ontem, lembro de uma bartender dizendo pra mim que eu não precisava ser infeliz só porque era intelectual e de eu ter levemente me apaixonado por ela [mas fuck that, porque ela é boa demais pra mim, provavelmente lésbica, minha primeira impressão foi de um bêbado deprimido, o que é verdade, então eu não tenho nem como causar uma impressão melhor que essa] e lembro de ter pensado muito em suicídio e até ter falado um pouco a respeito com uma das mais queridas pessoas da minha vida atualmente... e se eu de fato vir a cumprir isso, queria que ela e minha mãe soubessem o quanto isso tudo é inevitável e que elas foram ótimas, mas que bla bla bla, como se eu não fosse deixar uma carta, sendo a drama queen que sou), eu entendo a queda dos anjos como sendo resultado de inveja.
Caso toda a mitologia cristã seja verdade, seria uma surpresa que quedas e guerras civis no paraíso, de anjos e pessoas boas (você morre e vai direto pro céu ou fica no limbo por milhões de anos até que o sol entre em supernova e todo mundo seja julgado ao mesmo tempo?) sentindo inveja dos habitantes lá embaixo.

De qualquer forma, se nossa razão sobrevive, se nossos sentimentos sobrevivem, então porque não haveria tanta violência e descontentamento no paraíso quanto há aqui? Só porque as ruas de ouro e ninguém sente fome? É misteriosamente uma noção marxista demais de paraíso pensar que as pessoas só guerream porque querem terra ou comida. Que exista livre-arbítrio o bastante para apenas um ponto de discórdia e os anjos estariam brutalmente se assassinando por causa disso, nem que seja algo como o que se ter para o almoço na quinta-feira.

E porque as guerras religiosas parariam?
A mitologia cristã é verdadeira: um judeu morre e dizem pra ele "olha, Jesus Cristo é o verdadeiro Messias, lá está o trono, lá está Deus, lá está Jesus à direita dele", algo similar acontece com budistas, politeístas, muçulmanos.
Se as razões e os sentimentos estão intactos (se o nosso espírito continua o mesmo), há qualquer motivo para acreditar que o sujeito em questão não vai pensar que é tudo uma farsa? Que ele está no lugar errado, que a jihad continua após a morte, que aquilo é na verdade o inferno? (afinal, se eu quero mandar um muçulmano fanático para o inferno, basta enviá-lo para um paraíso cristão, onde a mitologia muçulmana é uma piada sem nexo).

E se a presença divina por acaso fizer ele acreditar naquilo, ele está lá, parado, encarando a Verdade e é impossível não ver aquilo como verdadeiro. Como ele fica depois disso? De repente você descobre que passou a vida toda adorando uma mitologia falsa.

E se a presença divina não só fizer você ver a verdade da mitologia X, mas também te faz ver o quanto isso é bom e o quanto é feliz, etc. no que isso é diferente de uma lobotomia? Como isso difere daquele nosso primeiro cenário, onde as pessoas no paraíso são simplesmente frias e cruéis porque são felizes apesar de todo sofrimento?

É verdade que eu sou uma pessoa neurótica e é verdade que isso influencia o modo como eu compreendo o mundo, mas desse meu ponto de vista neurótico, a possibilidade de qualquer existência, viva ou morta, ser qualquer coisa além de sofrimento é não-existente.

Os prazeres hedonistas ficam chatos e entediantes rápido. O mundo intelectual é uma máfia e um punhado de pessoas com agendas colocando a si próprias no lugar da realidade e dizendo "minha neurose é a Verdade", é como eu faço pelo menos e até hoje não tive motivos para acreditar que os outros façam diferente. E se o meu pessimismo é idiota, eu nem vou começar a falar das pessoas otimistas, daqueles que acham que o universo misteriosamente concorda com elas.
Então elas não gostam de viver puritanamente e *PUF*, é óbvio que Deus não existe; então elas gostam de ir à igreja e *PUF*, é óbvio que Deus existe; então elas acham que conquistaram seus bens por meio de trabalho e esforço e *PUF*, é óbvio que incentivar a meritocracia é o melhor para desenvolver um país economicamente; então elas acham que foram injustiçadas, que o lugar onde nasceram ou estudaram ou seu sobrenome ou sua cor é o que impede o mundo de reconhecer sua grandeza e *PUF*, é óbvio que meritocracia não existe e que um tipo de força coerciva deve ser utilizada para ajeitar essa situação.
Acho que é Paul Veyne que define ideologia como auto-elogio e, bom, aí fica difícil não chamar todas as pessoas do mundo de ideólogas, já que o mero dizer "eu estou certo" é um tipo de auto-elogio. Além disso, as pessoas raramente param só no "eu estou certo", é "eu estou certo, portanto do lado certo da história e sou moralmente uma pessoa melhor que você e o meu caminho (mesmo que eu particularmente não consiga seguí-lo) é o melhor para se conquistar a verdadeira felicidade e a verdadeira sabedoria").
Então meh, pelo menos a minha ideologia neurótica só diz que eu estou certo (e por pouco tempo, porque a realidade muda e se minha opinião não mudar junto, eu me torno errado mesmo que usando os mesmos argumentos que há 5 minutos atrás eram certos), mas essa é uma das crises da minha vida. Se eu sou infeliz e os outros não, então estar certo vale muito pouco.

Eu estou aqui, na beira do suicídio, certamente minha visão de mundo não é a melhor para buscar felicidade ou sabedoria. Então mesmo que eu esteja certo, é algo ridículo, porque não é como se eu pudesse dar conselhos ou compartilhar minhas opiniões.
No mais, nem eu, nem meus genes, nem minhas idéias vão sobreviver, então eu estou claramente do lado errado da história.
Então é isso, eu acho. Pelo menos até onde esse mundo é considerado (e esse mundo é o único que vale a pena ser considerado), a não-existência completa é o caminho mesmo, já que nem na memória eu vou sobreviver.
E eu gosto disso.
Me dói a idéia da minha morte causar sofrimento, mas talvez tenha que ser tipo um band-aid, sabe? Se eu definhar aos poucos nesse marasmo e alguém aí se importar comigo (oi mãe!), então eu vou só causando um sofrimento contínuo enquanto sobrevivo. Pelo menos morrendo de uma vez e logo, as pessoas terão tempo para superar e em algum momento de suas vidas, eu vou finalmente deixar de ser um sofrimento e virar só mais uma história sem nenhuma moral em particular.
Aí esquecido.
Aí o nada.

Sábado, Abril 11, 2009

Battlestar Galactica

SPOILERS!
Eu vou falar de série, spoilers do primeiro ao último episódio. Estão avisados.
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Eu passei a última semana assistindo Battlestar Galactica. Vi o primeiro episódio tipo, há duas semanas atrás e o último anteontem. Foi uma maratona obsessiva e cansativa e eu sinto ter perdido a oportunidade de ter acompanhado a série semana a semana.
É uma série que todo mundo comenta e por bom motivo. Ela tem essa qualidade especial de séries de ficção científica de comentar eventos atuais usando um ponto de vista externo. Uma sociedade com problema similares, mas diferentes o bastante para definitivamente não serem os nossos problemas e, portanto, permitir um julgamento ao mesmo tempo em que julga a nossa.
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Então eu vou por tópicos.

As duas últimas temporadas
Eu acho que essa série sempre vai ser importante pra mim e eu não queria admitir isso que vou admitir agora, mas acho que eu só suportei as duas últimas temporadas por amor às três primeiras.
No momento em que os cinco últimos cylons são revelados, as coisas nunca foram muito boas.
Eu vou falar mais sobre os cinco Cylons finais abaixo, mas talvez seja uma preferência minha. Embora eu sempre estive muito aberto e adorei cada conflito interno dos Cylons (o díalogo do Cavil com Ellen Tight é, pra mim, um dos pontos altos de toda a série), se tornou meio bobo pra mim como de repente a série se tornou mais sobre eles do que sobre humanos. A sobrevivência da humanidade sempre foi um ponto alto da série pra mim. O respeito pelas pequenas coisas, pelas hierarquias e tradições de uma civilização que não existem mais, sempre foram pontos altos pra mim. De repente, se tornou cada vez mais o drama dos últimos 5 Cylons.
Estou exagerando? De qualquer modo.

O último episódio
Por algum motivo de metodologia, eu talvez devesse comentar o último episódio só depois de comentar os personagens, mas eu vou assumir que as duas ou três pessoas que lerem isso daqui assistiram a série.

O excelente excelente site avclub, que traz os melhores resenhistas de séries de tv (por se assemelharem mais ao norte-americano médio que se importa com os personagens ao invés de geeks doentes por continuidade) trouxe na resenha do último episódio da série a introdução:
"A pergunta que a série se coloca é se a humanidade merece sobreviver. A resposta é sim, se nós formos bonzinhos com nossos robôs".
Agora, certamente isso é uma provocação. A mensagem do último episódio não pode ser ASSIM tão superficial como "se um dia vocês desenvolverem inteligência artificial não escravizem as máquinas", não de uma série que constantemente perguntava explicitamente qual a essência de nossa humanidade, de nossa civilização, de nossa nobreza, de nossos costumes, de nossa legislação, etc.
Mas enquanto ele ia dissecando o episódio, eu percebi porque gosto tanto daquele site, como eu disse, são pessoas simples e não super-geeks, mas são pessoas simples e inteligentes.
A moral deveria ser o que Apollo diz: Que deveríamos desenvolver nossas almas no mesmo passo em que desenvolvemos nossa tecnologia. Mas em algum ponto o último episódio mostra isso?

A resenha toca em outro ponto muito bom. A humanidade no momento que o último episódio começa está no fundo do poço. Eles não tem esperança de onde ir ou do que fazer. Estão não só sem propósito, como que é uma questão de tempo até alguma das dificuldades letais não conseguirem ser superadas.
Sem objetivo, sem confiança em deuses ou homens, almirante Adama realiza o que é um gesto de virilidade e nobreza suicida, os últimos dois sentimentos que ele é capaz de realizar.

Os Cylons realizaram o holocausto da humanidade, mataram quase metade dos sobreviventes. Agora, quando nossas esperanças e sonhos já estão esmagados, eles vêm e sequestram uma garotinha. A filha dos dois pilotos mais simpáticos e dedicados da tropa. As duas pessoas (um humano e um Cylon) com o coração mais puro e a dedicação mais incansável.
Os filhos da puta seqüestraram a filha desses dois exemplos do melhor que há tanto na humanidade quanto na "Cylonidade" e pelos deuses, se a humanidade vai ser extinta, pelo menos nós vamos mostrar que somos machos e salvar essa garotinha.

Pode parecer que não, mas eu adoro isso, eu adoro a noção que, tudo perdido, ao menos temos nossa coragem.
Então a primeira parte do especial de 2 horas que foi o último episódio é excelente.

Eles entram na colônia Cylon.
Humanos, Cylons rebeldes e centuriões com livre-arbítrio enfrentam uma batalha impossível e os dois malditos que iniciaram todo esse pesadelo: Baltar e Caprica Six, provavelmente o oposto do nosso "casal do bem" (Helo e Athena), trazem a garotinha nos braços para dentro do nosso amado CIC.
Coisas acontecem, a última Battlestar do universo recebe sua última barragem de artilharia.
Starbuck tem uma última epifania: usar a música de Hera como coordenadas.
Eles saltam.
Eis a Terra.
Não aquela Terra das profecias de Pythia. A grande esperança que acabou por se tornar a grande desilusão.
Mas a nossa Terra. A nossa grande esperança que muitas vezes se torna nossa grande desilusão.

É engraçado como reconhecemos o planeta Terra de longe pela África. É o berço da humanidade, afinal de contas. Mas não há como escapar de hipocrisia que é olhar para o continente Africano e dizer "olha! É a nossa África!"
Damos tanto valor para a África quando somos 30.000 humanos vivendo há 5 anos de algas e dormindo em frias naves espaciais sem ter o que fazer senão se deprimir e se revoltar, mas quando somos 6 bilhões vivendo no planeta, é o lugar que mais facilmente esquecemos.

A África é a luxúria da humanidade.
"Se um dia nós tivermos o tempo, juro que vamos lá resolver o problema daquela gente".
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Continuando.
A partir daí, os meus sentimentos em relação ao episódio são mistos.
Colocar a Terra de verdade põe problemas sérios:
Se a Terra é colocada, implica-se que é a nossa, logo, que ou o presente que o público de sua história vive existe, já existiu ou vai existir.

Eles escolhem nos colocar no passado, isso força o escritor a criar uma justificativa de porque nós não temos indícios arqueológicos de Raptors e Battlestars?
A justificativa é essa:
A humanidade decide não fazer uma cidade, não colonizar o planeta formalmente, ao invés disso vão abdicar a tecnologia, se espalhar pelo globo, jogar as naves no sol e viverem como agricultores se reproduzindo com os nativos.

O meu problema com esse final é que ele joga fora a moral da série: que nossa alma deveria se desenvolver junto com nossa tecnologia.

No episódio do julgamento de Baltar, Apollo disse uma das coisas mais importantes e interessantes da série:
Nós não somos mais uma civilização, nós somos uma gangue. Um monte de pessoas cometeram crimes e foram perdoados porque a situação de toda a humanidade ser composta por algumas dezenas de milhares de pessoas fugindo em naves espaciais é tão asburda e tão única que não há regras sobre como agir nesse caso, que eles vão inventando enquanto prosseguem.

E quando chega no final, bom, eles podem recuperar isso, eles podem deixar de ser uma gangue que perdoa assassinos porque tal cara é um puta de um engenheiro e tal cara é um puta de um piloto e nós não podemos sacrificar esses talentos.
E agora eles têm Cylons ao lado. Eles podem incluir os Cylons na sua civilização (o que eles já fizeram de qualquer forma) e garantir que dessa vez vão fazer correto. Que não vão tratá-los como escravos, que não vão se tornar consumistas desenfreados, que não vão construir armas nucleares.
Eles aprenderam suas lições à custos altíssimos e podem colocá-las em prática, finalmente, sua alma e sua tecnologia podem estar no mesmo nível.
Ao invés disso, o escritor precisa justificar que isso é o passado da humanidade.

O que me parece mais incrível não é nem que esse povo sacrificou prédios e naves estelares. Faz sentido querer uma existência mais agricultural depois de terem passado os últimos anos basicamente em prisões comendo alga processada. Faz especial sentido garantir primeiro a comida e as pequenas coisas da vida e depois buscarem carros e refrigerantes.
O que não faz sentido é eles não escreverem histórias. É eles não contarem suas viagens pros seus filhos.
Tudo bem que a civilização grega só vai acontecer 146 mil anos depois do ocorrido e uma porção de coisas acontecem nesses 146 mil anos, mas o problema é que o episódio dá a entender que eles queriam deixar tudo pra trás.
Se é pra só pra esquecer e procriar. Valeu mesmo a pena essa viagem que eles passaram? No fim, sua civilização não sobreviveu, o que sobreviveu foram 30.000 indivíduos espalhados aleatoriamente pelo globo.
Soa vazio pra mim.
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Sinceramente, ao invés de um Spin-off chamado "Caprica", eles poderiam aproveitar que 150.000 anos é um puta dum tempo e fazer um Spin-off da nova civilização na terra 10.000 anos depois do ocorrido em Battlestar Galactica, mas blé, quem sou eu?
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E numa nota mais pessoal, o único medo da Starbuck, literalmente um anjo de Deus, é concretizado.
Ela não quer ser esquecida.
Ela desaparece e Apollo diz: "Você não será esquecida, Kara Thrace".
Mas isso é mentira, ela é esquecida, Apollo lembra dela, mas eventualmente ele morre e como não há mais civilização pra contar histórias, não só Kara Thrace é esquecida, como também sua coragem, determinação, bom humor, lealdade e todas as qualidades que fazem dela alguém tão especial.
A vida, morte e ressurreição de Kara Thrace é uma história que a humanidade deveria contar enquanto existe. Mas se todos estão em cabanas colhendo tomate porque os livros foram enviados ao centro do sol. Essa história é esquecida.
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Dito isso, é óbvio que esse final doeu.
Eu não queria que a série acabasse.
Ver o túmulo de Laura Roslin doeu.
Ver a última vez em que o Almirante Adama e Starbuck trocam seu diálogo esquisito me fez chorar demais:
- Starbuck, what do you hear?
- Nothing but the rain, sir.
- Then take your guns and bring back the cat.

Doeu ouvir isso e saber que foi a última vez.
Doeu Apollo olhar para o lado e ver que Deus levou seu anjo de volta.
Doeu ver Sam navegando em direção ao sol, conectado à Física e Matemática como ele sempre buscou.
Doeu ver Saul e Ellen finalmente experimentando uma vida juntos.

Doeu ver essas resoluções e isso mostra o quão eu profundamente amava esses personagens e no fim, eu fico feliz que Kara Thrace teve a paz que buscou, que Apollo provavelmente viveu uma vida emocionante escalando montanhas, que Bill Adama provavelmente construiu uma cabana onde viveu solitariamente seus últimos anos, que Saul e Ellen viveram felizes, que Helo e Athena e Hera viveram felizes.
Enfim, no fim é injusto dizer que as coisas deram errado só porque a civilização caiu embora as pessoas tenham vivido felizes, mas ainda assim. Eles precisavam mesmo abdicar de suas lições junto com sua tecnologia?
De novo, eu entendo até abdicar da tecnologia, mas em algum lugar alguém poderia ter escrito: "Não construam armas nucleares. Não achem que são desenvolvidos só porque seus robôs pensam enquanto vocês vivem vidas tristes".
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E no fim, 150.000 anos depois, nós vemos uma montagem de robôs japoneses parecidos cada vez mais com humanos e os outros dois anjos comentando: "Será que repetirão os mesmos erros?"

E isso me soou o mais estúpido. Será que nós vamos repetir? Nós repetimos!
A única coisa que ainda não fizemos é escravizar máquinas pensantes.

Uma coisa que sempre fez Battlestar Galactica tão forte e intenso é a pergunta que Bill Adama faz no começo da série, antes do ataque Cylon:
"A humanidade merece sobreviver?"
Tanta coisa aconteceu e continuamos a nos matar por inveja e ganância. A humanidade merece sobreviver?

E se a medida é o quão parecidos nós somos com essas bilhões de pessoas que foram explodidas pelas suas máquinas pensantes, então a série se torna esse vazio cuja única moral é "seja bonzinho com a inteligência artificial" porque cada pecado de Caprica nós cometemos. Se eles não mereceram sobreviver, então nem nós.
É esse o problema desse final sem uma civilização capaz de contar histórias e transmitir os ensinamentos adquiridos dos erros passados.

Toda a moral da série é quebrar o ciclo: É que "tudo o que aconteceu antes", finalmente, não aconteça de novo.
E o "Anjo Seis" dizendo para o "Anjo Baltar" que ela "aposta" que dessa vez o ciclo será quebrado está só sendo estúpida. Esses dias a Coréia do Norte começou a fazer uns perigosíssimos testes com armas nucleares.
Nós estamos em um nível tão ridículo na relação Alma/Tecnologia que sequer precisamos criar máquinas inteligentes para nos exterminar, nós estamos dando conta do recado muito bem sozinhos, obrigado.
Tudo porque alguém esqueceu de escrever numa parede que armas nucleares são más.

Que ao menos desenvolvamos tecnologia de salto antes de nos explodirmos.

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Bom, o post está longo já.
Um dia eu escrevo sobre os personagens (talvez).