Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Compaixão


Compassion and Caring por Dale Wicks

Há algo de inescapável na solidão.
Toda alma traz, dentro de si, o todo do universo.
Em algum local atrás de seus olhos e simultâneo a seu cérebro, está a capacidade de transformar a força cega e indiferente que compõe o mundo em coisas dotadas de significado, mesmo que ausentes de sentido.
Em cada alma há uma constelação incrível e de sensações e conceitos; relacionados de acordo com ainda outra incrível constelação de formas e regras.
Ainda assim, é como se cada alma, cada local atrás do olho, está preso em uma caixa. O ato de transformar o todo do universo em sentido é um ato universalmente solitário.
Os outros realizam o mesmo processo dentro de seus locais atrás de seus olhos, mas cada alma é uma interpretação do mundo, por semelhante que seja, no nosso universo vive nós apenas e por importantes que os coadjuvantes sejam, estão fadados a serem apenas coadjuvantes.
Toda vida é um monólogo com interlocutores fantasmas.

A inevitável solidão advinda precisamente do modo como nos compartilhamos com o mundo é acompanhada ainda do modo como esse mundo se revela para nós:

O mundo é uma constelação de fatos sem sentido e sem propósito experimentados em um corpo que se tornou o que é por ter sobrevivido e que sobreviveu por sua capacidade de impulsionar-se aos seus desejos e tal impulso é o que chamamos de "sofrimento".

Criamos universos em corpos que adquirem suas energias do sofrimento. O sofrimento da fome nos faz buscar alimentos, o sofrimento da abstinência sexual nos faz reproduzir, todo tipo de sofrimento abstrato, o sofrimento por não ser importante o bastante, não ser competente o bastante, não ser rico o bastante, por querer alcançar o prazer futuro, por não satisfazer o que os coadjuvantes esperam do ator principal; toda ação é causada por sofrimento.
O sofrer não só é o constante do viver, mas ele confunde-se com o viver; sem o sofrer, a vida torna-se uma impossibilidade. É pelo sofrimento que se dá a propagação e manutenção da vida e é pelo sofrer que o fim do sofrimento se mostra como algo terrível. Sofremos com a morte, pois sofrer é vida.

Tudo o que vive sofre incessantemente enquanto vive.

Presos em seu universo particular, o homem criou constelações incríveis de conceitos para lidar com o modo como o mundo lhe aparece; tentativas das mais diversas de prometer o fim do sofrimento.
Presos em algum lugar atrás de seus olhos, tudo o que homem pode almejar é a mentira do fim do sofrimento.

Se criamos o universo em algum lugar atrás de nossos olhos e simultâneo a nossos cérebros, é com o todo de nossa vida que o sofrimento se manifesta.
Se com os nossos olhos nós podemos apenas presenciar a vida alheia, é pela vivência que há algo que pode ser sinceramente chamado de compartilhação.

Compaixão é sofrer o sofrimento do outro, não pelo ato egoísta de imaginar-se sofrendo o sofrimento alheio, mas pelo compartilhar da vida.

Se é pelo sofrimento que temos vida, é pela compaixão que compreendemos que o outro também tem vida e é por essa compreensão que escapamos da antes inescapável solidão. Recusar-se em compreender porque o outro sofre, até exigir que ele não sofra, é recusar-se a fazer parte da vida do outro, é exigir que ele seja expulso de sua vida.

Não há, no outro, respostas possíveis, não há, no outro, sentido ou propósito ou justificativa ou promessa de fim de sofrimento. Essas são as propostas dos egoístas e mentirosos.
O outro não nos oferece salvação ou redenção, mas nos oferece compreensão e companhia.
Nesse único verdadeiro ato de doar-se, a compaixão nos oferece um caminho para o universo do outro, onde temos o momento raro e precioso de vislumbrarmos outro ponto de vista.

Na compaixão adquirimos compreensão sobre a vida em si, realizando uma série de coisas que compreendemos como bem: alcançamos uma verdade, ajudamos a aliviar sofrimento, abrimos as portas da comunicação, da tolerância e ganhamos ajuda no projeto de fazer o mundo um lugar, num geral, melhor de se viver.

É impossível haver compaixão em quem está impregnado pela promessa de um tipo de existência sem sofrimento, seja nessa vida ou na próxima; desses conseguimos apenas mandamentos, exigências, deves e não-deves, toda uma série de coisas para que o universo particular do outro cumpra as exigências daquele que tem a resposta para o tal fim do sofrimento.

Mas compaixão não é resposta, não é sentido ou propósito, não é justificativa, nem salvação ou redenção.
Compaixão é companhia e companhia faz bem.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O Edifício



Empire State Building

"Enquanto eu envelhecia e acumulava memórias. Eu passei a ficar mais perceptivo em relação ao desaparecimento de pessoas e marcos. Especialmente problemático pra mim eram as remoções de prédios. Eu sentia que, de alguma forma, eles tinham algum tipo de alma." - Will Eisner

Um sinal de que a civilização estava caminhando inevitavelmente para o niilismo é a mera quantidade de sistemas filosóficos a partir de Descartes que propuseram-se como um fundamento.

Uma dica para entender história é que, num geral, algo que é repetido muitas vezes é algo que incomoda. Então se em determinada época fala-se muito de virtude e nobreza é porque as pessoas, num geral, precisam ser ensinadas a ser virtuosas e nobres. Ninguém perde tempo escrevendo sobre aquilo que todo mundo já sabe.

A modernidade, como entende Habermas, é uma constante busca por autonormatividade; isso significa, basicamente, que quando se perde a confiança na capacidade da tradição em dar respostas - e isso acontece porque é tradição é de fato incompetente - nós podemos olhar apenas para o presente e para promessas de futuro.

Então a metafora que você vai ver de novo e de novo na história da filosofia moderna é a do edifício. Não há só a confiança de que a tradição é incompetente na hora de dar os fundamentos de um edifício, mas há um medo enorme de que o que você proponha no lugar também seja insatisfatório, o que vai se amplificando século após século, com fundamento fracassado após fundamento fracassado.

O iluminismo é uma espécie de supernova nesse sentido. Há uma explosão de luz que consome a si própria deixando apenas um buraco negro no lugar.

Nós somos o buraco negro.
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Quando uma pergunta sobrevive muito tempo, uma boa estratégia é geralmente tentar se lembrar porque ela está sendo questionada em primeiro lugar.

Porque precisamos de um fundamento?
A resposta é sempre que o fundamento garante que a promessa seja cumprida.
A metáfora do prédio é sempre assim: se nós não fizermos um fundamento seguro agora, lá na frente vai desmoronar tudo de uma vez.

O que eu tenho a criticar nisso é que nossa amostragem foi falha. Os filósofos da modernidade ainda estavam mesmerizados com a queda da cosmologia aristotélica, que estava recheada de entulho cristão, assim, o que acontece é que de fato tinhamos um edifício, em seu fundamento estavam Platão, Aristóteles e São Paulo e esse prédio veio abaixo e nós bem sabemos o quanto dói quando prédios caem.

Um edifício é um simbolo de solidez e de sobrevivência. Will Eisner fala que os prédios tem algum tipo de alma, eu vou mais além e digo que os prédios são um tipo de alma, no sentido simples e tosco de que eles transcendem nossa vida, são habitações humanas criadas por seres humanos indiferentes à seus criadores.

Quando um edifício cai, a primeira reação é tentar reconstruí-lo, até que percebemos que a reconstrução é fútil. Aquela alma já morreu. Ela não vai voltar.

O primeiro grande edifício de nossa civilização durou mais de mil anos. Alguns séculos são de fato necessários para percebermos a futilidade de reconstruí-lo. É verdade que utilizamos diversos de seus tijolos, quando eles são úteis, mas algo de interessante ocorreu enquanto tentavamos construir prédios: fizemos uma cidade.

Grandiosa, decadente, confusa, eficiente. Vivemos nela sem perceber sua grandeza porque ela é tão cotidiana, mas basta um céu nublado e um coração quebrado o suficiente para nos fazer parar de correr pra lá e pra cá tempo o suficiente para olharmos para cima.

Os nossos prédios são grandiosos.
E belos.

A cidade, diferente do prédio, não pertence a um arquiteto, não é fundamento para crescimento (ela cresce desbravando a natureza), ela cresce da maneira que pode, alternando-se entre planejamento central e desorganização, entre lei e crime, entre prosperidade e recessão. Na cidade há catedrais, universidades, laboratórios, bordéis, cinemas, etc; edifícios de todo o tipo, feitos para as mais diversas funções e todas essas coisas fazem parte do mesmo conjunto, mas cada parte permanece uma parte e uma cidade é superior a um prédio porque, como nós também bem sabemos, a cidade sobrevive quando o prédio cai.

Se o edifício é um tipo de alma, a cidade é o corpo eterno habitado pelas infinitas almas mortais.

O problema da busca por fundamentos, em primeiro lugar, pareceu ser de que sem um fundamento, estariamos frágeis; mas de novo, isso foi um problema de amostragem. O problema não é que tinhamos um fundamento frágil, o problema é que estavamos dependentes de um único fundamento e aconteceu de ele ser frágil.

O modo como nós, quase que sem querer, conseguimos nos defender desse problema é que, criando vários edifícios, com vários fundamentos, podemos sobreviver à várias quedas, enquanto pensamos em como construir outro edifício, dessa vez melhor.

Nós não precisamos de uma metafísica que sustente uma física que sustente uma ética que sustente uma política.

Nós temos o edifício da metafísica, o da física, o da ética, o da política.

Quando a metafísica falha, as pessoas correm se refugiar no edifício da física, fingindo, por exemplo, que o big bang é uma resposta satisfatória, enquanto trabalhamos no edifício da metafísica.

Quando a ética falha e as pessoas são simplesmente desmotivadas ou ignorantes em relação ao bem, podemos nos refugiar no edifício da política, das leis, de uma constituição.

É claro que isso às vezes leva a catastrofes. Esquecemos que uma moradia é temporária; acreditamos que toda metafísica está morta (e não apenas aquela metafísica dos que já tiveram seu edifício derrubado), acreditamos que toda ética não tem solução; apenas porque estamos temporariamente no edifício da física e da política.

Isso leva a biologia a fazer juízos sobre essências, almas, livre-arbítrio, etc; isso leva a política a definir o que é o bem e o mal e aí um problema é que isso vai nos levando a, mais uma vez, aglomerar tudo novamente em apenas uma edifício. Aí quando o edifício enlouquece, o caso clássico é o nazismo, onde uma filosofia biologista definiu conceitos éticos baseado em um tipo de nacionalismo; não há para onde fugir.

Outro problema é que isso simplesmente atrapalha especialização, que é o modo que temos construído nossa cidade em primeiro lugar. Metafísica é um caso interessante aqui porque é um prédio tão frágil que todo mundo acha que pode entrar e fazer melhor do que o metafísico.

O exemplo mais clássico é a igreja. Habitantes de catedrais não podem ver uma cabaninha metafísica abandonada que logo procuram um lugar para colocar uma púlpito. Eles agem como testemunhas de jeová em domingo nesse sentido. Batem na porta, dizem que respeitam suas crenças, mas que querem falar sobre jesus. Quando você menos percebe, eles "esqueceram" uma bíblia no seu sofá e semana que vem voltam para pegá-la.

É claro que a pobre cabaninha da metafísica não é construída, como que podemos trabalhar quando temos evangelistas tocando a campainha há cada cinco minutos?

Isso é simples falta de etiqueta, você não vê o metafísico indo para o quintal de uma catedral acampar no quintal; como diz Schopenhauer: "filosofia é essencialmente sabedoria-de-mundo; seu problema é o mundo. Com isso apenas deve se preocupar e isso deixa os deuses em paz; mas em retorno por isso, espera que eles a deixem em paz também".

O biólogo não tem as ferramentas para juízos acerca do problema da existência, dos universais, do livre-arbítrio, etc; embora muito apreciamos quando podemos trocar conhecimento; assim como o teólogo também não tem essas ferramentas, senão roubadas de nosso pobre casebre. Assim como o metafísico não pode falar sobre a unidade de seres oniscientes e onipotentes que são três em um; ele também não pode falar sobre o comportamento de neurônios e genes. Heh, eu sequer sei descrever se é realmente sobre essas coisas que essas pessoas falam, mas enfim, vizinhos chatos fazem parte da vida em cidade.
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O costume da contemporaniedade baseia-se mais em quantidade que qualidade. Ao invés de buscarmos um fundamento sólido buscamos apenas um espaço onde todo tipo de fundamento pode ser testado e, caso desabe, paciência; tentamos de novo.

O nosso limite é apenas o tempo e o espaço. Nossos prédios caem, mas cada ruína é um aprendizado. Não é sequer certo se de fato aprendemos a lição, mas se não somos grandes arquitetos, ao menos somos pedreiros incansáveis.

E é claro que eu admiro os grandes arquitetos do passado, mesmo que deles tenhamos apenas ruínas e tijolos espalhados pelas mais diferenes cosntruções. Mesmo para construir um casebre é preciso alguma arquitetura. O que não é imperativo é o solo firme ou o fundamento perfeito. Seria bom encontrar essas coisas, mas até lá estamos nos virando muito bem, obrigado.

Depois que a primeira grande catedral caiu, nós fomos nos aperfeiçoando na arte de tentar e falhar e nisso nós não conseguimos construir nenhuma outra catedral que se estendesse aos céus e tocasse a Deus, mas como são lindos nossos prédios.

It's gonna take some time to fix this love of mine...

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Eu não passei.


Happy de Craig Pop Artist

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Amanhã

Desde que eu voltei do FIQ, eu entrei em um pequeno processo de me alienar do mundo. Eu faço isso vez ou outra, quando eu tenho que lidar com algo.
Eu me interesso por esse assunto de niilismo e de um mundo sem deus e sem verdade porque, basicamente, é o mundo em que eu vivo.
Eu quero entender como esse mundo funciona, porque eu acho que quero ajudar um pouco as pessoas que vivem nele. Não é fácil viver em um mundo sem regras sobrenaturais, mas é necessário porque esse é um mundo sem regras sobrenaturais; dada essa necessidade, o que eu vejo de mais comum é simplesmente pessoas vivendo por tentativa e erro.
E quanto mais eu envelheço, mais complicado vai ficando, não só, para parafrasear um dos meus personagens favoritos de sandman, apesar de ter tido tempo de ter corrigido alguns erros, eu também tenho tempo de cometer mais erros; mas ultimamente eu tenho me pego em todos os hábitos que eu vou adquirindo.
Um hábito é um tipo estranho de vício (ou vícios são um tipo estranho de hábito). É um vício que a gente adquire por meio de coisas que dão certos; o problema é que nós não temos como saber se as coisas que fazemos realmente funcionam, se outra coisa que não tentamos seria melhor, se isso só funciona no curto prazo, mas causa danos no longo prazo, etc.
A grande vantagem de seguir uma religião já estabelecida é que, estando aí há muito tempo, a religião desenvolve hábitos que são testados há mais tempo e que são, portanto, mais sólidos do que um moleque de 16 anos ouvindo Pink Floyd e sendo bombardeado pela vida sem nem saber que está sendo bombardeado pela vida.
A grande desvantagem é que, estando aí há muito tempo, a religião também desenvolveu seus hábitos que se tornaram vícios nocivos e que são difíceis de largar simplesmente porque nossa natureza é a de repetir aquilo que aparentemente deu certo.
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Esse pequeno percurso para dizer que eu tenho o hábito de lidar com meus problemas pensando sobre eles. Agindo muito pouco, mas pensando muito. Então agindo tudo de uma vez. Eu nunca adquiri (pois nunca precisei) um hábito de viver os dias mesmo tendo algo me pertubando.
Quando algo me pertuba, eu saio do mundo, deixo ele rodando sem mim e penso a respeito.
Nesse percurso, eu inevitavelmente decepciono pessoas e inevitavelmente acabo sendo alguém pouco confiável.
Dá pra perceber nesse blog, caso alguém acompanhe, que de vez em quando se passam um mês ou outro sem nenhum post e de repente eu escrevo umas coisas legais tudo em um curto período de tempo.
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Como eu disse, hábitos surgem porque eles dão certo e esse meu hábito deu muito certo fazendo meu TCC.
Eu decidi meu tema no final de 2007 e até algum período do segundo semestre de 2008, eu escrevi entre muito pouco e quase nada; tentei começar algumas vezes, mas não estava funcionando. Eu precisava pensar mais.
Até que um dia eu decidi que pensei o suficiente e no período de um mês mais ou menos, eu escrevi as 40 páginas do meu trabalho que acabou recebendo um 10. De longe, eu nunca fiz nada na minha vida que eu me orgulhe mais do que esse TCC sobre conhecimento metafísico em Schopenhauer. Eu tenho bastante orgulho também do Chuva Contra o Vento; feito em outro momento em que eu simplesmente precisava escrever.
O hábito que eu desenvolvi foi o de respeitar o de me acomodar ao meu ciclo mental, ao invés de tentar melhorá-lo em algo mais prático e mais eficiente; mas a verdade é que todas as vezes que eu tentei fazer isso, eu acabei com resultados medíocres e insatisfatórios.

Eu escrevo, sejam quadrinhos ou filosofia, quando meu corpo demanda que eu escreva. Até lá não tem nada que eu possa fazer; eu tentei mudar esse hábito, mas é difícil sair de um hábito que funciona para um que funciona menos, apenas porque o que funciona menos faria de mim uma pessoa mais confiável para os outros e para o mundo em geral.
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Em 2007 me aconteceu um caso clássico de mal que vem pro bem. Uma coisa bem clichê mesmo.
Eu peguei uma DP; em filosofia política, um assunto que eu costumava discutir o tempo todo; em autores que eu considerava fáceis demais para me incomodar, Maquiavel e Hobbes; por meio ponto.

Eu passei pelos habituais estágios do luto, inclusive mentir pro professor no estágio da barganha, implorando pra que ele me desse o meio ponto. Não deu certo, ele acreditou na minha mentira, mas ele não podia mudar a nota sem passar por uma burocracia que poderia prejudicar a carreira dele e bom, eu decidi engolir logo que perdi um ano do que prejudicar um professor muito bom e honesto. Eu mereci aquela DP.

Esse episódio acabou me acordando pro fato que eu precisava estudar.
Não foi só isso, eu sei lá explicar o que aconteceu nessa passagem entre 2007 e 2008, mas o único ano em que eu me senti fazendo uma faculdade de filosofia foi realmente no último ano. Antes disso eu estava tentando ser outra coisa.
Eu até hoje não sei dizer porque eu decidi fazer filosofia, foi meio que parte do hábito de obedecer meu corpo sem questioná-lo demais. Ele queria filosofia e eu deixei ele me levar. Mas nos dois primeiros anos (o curso tem 3 anos de duração; eu estou no quarto por causa da DP) eu não estava estudando filosofia, eu só estava lá.
É claro que eu estava aprendendo coisas, eu sou inteligente afinal de contas, eu não preciso levar a sério ou estar interessado para aprender; é verdade que foi isso que me levou à DP, mas de novo, hábitos são hábitos por funcionam. Eu tive a imensa sorte de que o curso de filosofia é civilizado o bastante pra que você tenha um bom ambiente de aprendizado quando está disposto. Mas até então, eu estava aprendendo coisas muito legais, mas ainda meio que de visita.

Em algum momento, por algum motivo estranho por causa daquela DP, aquilo virou minha vida. Acho que foi a questão de ter sido superado e derrotado. Eu geralmente sou muito bom naquilo que faço, quando algo me derrota, aquilo ganha meu respeito.
E quanto mais eu fui estudando filosofia, mais ela foi me desafiando e mais eu fui aceitando o desafio.
Eu passei 2008 estudando. Pra valer. Em uma faculdade de filosofia. Não só tirando nota e não só aprendendo o que escrever na prova. Mas aprendendo de verdade. De repente aquilo não era mais minha faculdade, era minha vida. Eu me sinto de tal modo incorporado por isso que se eu não fizer eu isso, eu não me sinto no direito de fazer outra coisa.
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Em 2009 eu passei mais um ano estudando e o resultado foi um projeto de mestrado que enviei pra Federal de São Carlos.
Até enquanto eu escevo aqui, eu me pergunto sobre a sabedoria desse post. E se eles lerem? Se algo aqui me faz parecer um péssimo aluno?
Mas eu preciso escrever, eu preciso compartilhar, não com vocês, mas com o blog.
Vocês lerem é o lado péssimo disso na verdade; porque amanhã eu vou saber se eu passei para a segunda fase.
O que significa que eu vou estar em controle de novo.
Até então eu estou esperando para saber se meu projeto foi aprovado ou não. Se sim, eu vou fazer duas provas; uma de inglês e uma de filosofia. De qualquer forma, vai depender de mim ir bem nelas. Se eu passar isso tem uma entrevista, que eu não faço idéia de como funciona, eu espero apenas ter oportunidade de explicar porque meu projeto é importante, porque eu mereço a confiança da instituição e, de forma menos romântica e mais profissional, explicar que conseguir essa vaga marcaria a primeira vez na minha vida em que eu sinto que não estou só sobrevivendo via hábitos porcamente adquiridos, mas vivenciando aquilo que meu ser exige de mim.
E o medo é que se eu não passar, eu vou ter que vir aqui e dizer que não passei e é a internet, alguém vai rir de mim e toda vez que eu entrar nesse blog, eu vou sentir algo terrível; eu vou ler isso e pensar que hoje foi meu último dia de esperança.
Esse é o tipo de aposta que não se faz em público, amanhã já é o dia mais importante e aterrorizante que eu já vivi e eu estou só piorando com esse post. Mas é assim que funciona quando temos o hábito de nos obedecer.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Uma grande mentira de amor


True Identity por PaperMonster

Se ao menos tivessemos controle das mentiras que contamos.
E se ao menos tudo que soubessemos é que somos uma coisa que pensa.
Se ao menos não existissem tantas máscaras.
E máscaras atrás de máscaras.
Acredito que seriamos anjos.
E como tais não existiriamos.
E assim também não haveria sofrimento.

Nossa existência é de tal modo inexplicável e injusta que as mais mentirosas histórias de amor foram contadas para justificá-la.
A mentira é dita com precisão doentia para satisfazer nossas dúvidas e o inevitável senso de injustiça no que percebemos que viver é isso mesmo.
E é uma mentira tão poderosa que mesmo com suas curtissimas pernas, ela é carregada nos ombros dos desesperados e infelizes, deixando em seu rastro promessas vazias e carnificina. O que mais poderia se esperar de uma grande mentira, que é também uma grande história de amor?

Mas no que a mentira foi sendo contada, as pessoas foram acreditando que ela é verdade e logo, como um assassino que acredita ter feito um trabalho perfeito, ela convidou as pessoas para examiná-la.

Assim nossa civilização entrou em uma espiral de sangue e caos enquanto a mentira pedia para ser examinada, mas assassinava quem ousava descobrir que era, afinal, uma mentira.

E outras mentiras foram contadas, outras histórias de amor, com protagonistas diferentes apenas o suficiente para que aqueles que contam as mentiras pudessem chegar à conclusão sempre desejada: o mundo é de acordo com minha vontade.

Ah, se ao menos pudessemos controlar nossa vontade.
Se ao menos pudessemos escolher que realidade vemos.
E isso significa:
Se ao menos tivessemos controle das mentiras que contamos.
Se ao menos a razão utilizada para contar essas mentiras fosse nossa razão.
Fruto de nossa vontade.
Mas quanto dessa vontade é nossa?
E quanto nós somos dessa vontade?

Quase nada.
Quase nada.
Somos sempre quase nada.

Somos muito pouco organizados em uma bela arquitetura.
Somos quase nada capaz da extraordinária habilidade de construir universos.
Se esse tudo que existe em minha alma é tão pouco, o que diremos do nada que existe fora dela?
E se visto máscaras e conto mentiras de amor para que o peso da injustiça não me destrua, quem pode me culpar?
A nossa espécie é apenas triste.
Homens tristes não cometem pecados que eles já não paguem.

E se a verdade é impossível, que escolha temos senão as mentiras?
Então podem respirar aliviados, meus mentirosos.
Vocês estão absolvidos de suas mentiras.
E eu sou o único juíz que lhes importa nesse mundo.

Essa é a mentira que eu conto para que vocês não morram.
E eu não quero que vocês morram.
Eu quero que vocês sofram.
Essa é a pena que eu os setencio por toda a carnificina e por todo o ódio de sua mentirosa história de amor.
E eu sou o único juíz que lhes importa nesse mundo.

Essa é a minha mentira de amor.
É esse amor pela humanidade.
Essa espécie triste e mentirosa.
Como eu os desprezo...
Meus amores.

E que tipo de pessoa você esperava que ele fosse?

Do Daily Dish citando uma entrevista com Richard Dawkins.

RD: Okay, do you believe Jesus turned water into wine?

HH: Yes.

RD: You seriously do?

HH: Yes.

RD: You actually think that Jesus got water, and made all those molecules turn into wine?

HH: Yes.

RD: My God.

HH: Yes. My God, actually, not yours. But let me…

RD: I’ve realized the kind of person I’m dealing with now.
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Ok, pessoal que me conhece provavelmente sabe que eu não gosto do Dawkins, mas, embora o sujeito que o entrevista seja mal educado e passe boa parte do tempo falando de coisas que ele não entende tentando desmoralizar o caráter do Dawkins, esse trecho, em particular, não fez sentido pra mim.

É como o Pascal diz, se você acredita que existe um deus todo poderoso, que ele criou o universo inteiro, que ele enviou seu filho para morrer por nós, etc; acreditar que tal filho fez um milagre ou dois é o de menos.

O sujeito acredita que existe um tal ser onipotente, onisciente e infinitamente boa que criou, do nada, o universo; daí pra "transformou moléculas de água em vinho" é o de menos.
Particularmente, se eu acreditasse em deus eu acreditaria até que Jesus aparece em torradas, porque não? Se eu fosse onipotente, eu total mandaria mensagens aos meus fiéis via torradas.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Conversando com teístas

Do site "Friendly Atheist"

"What has kept me relatively sane in the matter is that I try to focus the conversation on things we can agree on.

I talk about the need for separation of church and state, the importance of teaching kids to question their beliefs and seek out their own answers (Christians, of course, think this will lead them toward faith), the lack of politicians who represent our constituency, why we need to keep forced religion out of public schools, the myriad cases of discrimination against atheists, etc.

I talk about the need for them to take those ideas back to their churches and pastors. They have a hard time saying no to those ideas above. So that’s where I keep my focus.

It’s more important to me that Christians get on board with those ideas than whether they believe in a god or not."

Particularmente, eu não tenho o mínimo interesse em que alguém deixe de acreditar em deus; na verdade, eu vejo lados bons em ter uma religião. A pessoa está em uma comunidade, ela pode exercitar compaixão e caridade, ela tem motivos (legítimos ou não) para agir de forma decente e honesta, etc.

É claro que, sendo ateu, eu vou defender meu lado da questão; religiosos são o tipo de maioria que espera algum tipo de respeito especial sem oferecer nenhum em troca; é difícil dialogar sobre religião porque todo mundo se ofende tão fácil.
Esses dias numa comunidade do orkut, eu argumentava que deus, como entendido tradicionalmente pela filosofia, não podia ser panteísta ou "uma energia"; que deus tinha atributos bem específicos, ele era o criador onipotente, onisciente, racional, infinitamente bom, etc; é claro, disseram que eu queria censurar alguém, que eu era um inimigo da liberdade de crença e tal.

Mas é o orkut. Quem se importa com o orkut?

Mas é um assunto onde as pessoas não sabem como se comportar, em termos de etiqueta, e aqui há um problema que atrapalha mais a questão do que a lógica da coisa.

Eu me ofendo fácil demais porque, bom, nesses dias, no Washington Post, um dos jornais mais lidos e mais respeitados nos Estados Unidos, rolou um artigo do presidente da liga católica dos Estados Unidos em que ele dizia (e agora já não é mais "orkut, quem se importa com orkut?")... bom, eu vou citar, é tão assustador que parafraseando parece mentira:

Nota que quando ele fala em "radicais", ele não quer dizer "radicais", ele quer dizer secularistas, gays, pessoal pró-aborto, artistas ateus; ele não está falando de ninguém jogando bombas ou assassinando pessoas, ele está falando de gente normal com opiniões diferentes das dele.

"Yesterday's radicals wanted to tear down the economic structure of capitalism and replace it with socialism, and eventually communism. Today's radicals are intellectually spent: they want to annihilate American culture, having absolutely nothing to put in its place. In that regard, these moral anarchists are an even bigger menace than the Marxists who came before them.

If societal destruction is the goal, then it makes no sense to waste time by attacking the political or economic structure: the key to any society is its culture, and the heart of any culture is religion. In this society, that means Christianity, the big prize being Catholicism. Which explains why secular saboteurs are waging war against it.

When Jesse Jackson led students at Stanford University in the late 1980s screaming, "Hey, Hey, Ho, Ho, Western Culture's Got to Go," it was a way of undermining this nation's Judeo-Christian heritage. When Yale University returned $20 million to Lee Bass in the 1990s because the faculty objected to its being used to expand its Western civilization curriculum--they wanted multiculturalism--it showed the power of radical secularists.

Sexual libertines, from the Marquis de Sade to radical gay activists, have sought to pervert society by acting out on their own perversions. What motivates them most of all is a pathological hatred of Christianity. They know, deep down, that what they are doing is wrong, and they shudder at the dreaded words, "Thou Shalt Not." But they continue with their death-style anyway. "

continua por um pouco e, fecha com o brilhante parágrafo final:

"The culture war is up for grabs. The good news is that religious conservatives continue to breed like rabbits, while secular saboteurs have shut down: they're too busy walking their dogs, going to bathhouses and aborting their kids. Time, it seems, is on the side of the angels."

Reinaldo Azevedo também chama quem é a favor do aborto de pessoas "pró-morte"; sujeito aqui nos meus comentários (ele vai jurar que não, mas ah, ele sabe que ele fez) deu a entender que eu era a favor de infanticídio por causa do meu vegetarianismo baseado em compaixão, minha mãe acha impossível eu ser ateu porque não é possível um filho tão adorável não acreditar em deus, (não fuma, bebe pouco, não usa drogas, passa o dia todo estudando, é bom com os animais, é bem educado, mesmo se um pouco antissocial e não acredita em deus? Ah, isso é uma fase que ele vive faz uns 5 anos, daqui a pouco passa).

A maior parte do meu tempo como ateu, eu passei debatendo a questão com outros ateus; eu não acho, por exemplo, que acreditar em deus é um tipo de burrice automática, eu acho uma crença bem legítima (que eu não tenho) e que religiosos que fazem coisas ruins por causa de religião, são ou charlatães ou, sim, uma minoria de radicais. A maioria das pessoas que você conhece são religiosas e elas são tão falhas quanto você; siginifica, elas podem ser bem chatas e mesquinhas, de nenhuma forma são santas, mas de nenhuma forma são pessoas cuja ruindade vai além de "ela é realmente invejosa" ou "olha quanta fofoca ela faz".

Nos últimos tempo, eu tenho debatido com teístas; querelas filosóficas a parte, enquanto Bush era presidente, o ateu era só uma figura engraçadinha a se passar o tempo, agora, com a eleição do Obama, que passou por umas 3 igrejas no dia da posse, de repente nos tornamos essa ameaça vista acima.
Somos uma raça de pervertidos sexuais e anarquistas morais querendo aniquilar a sociedade e censurar os religiosos porque odiamos deus e temos medo do "você não deverás", etc.

Eu ainda não me considero nenhum tipo de minoria oprimida, mas vou dizer, estou começando a ficar preocupado, não em ser perseguido, mas em ter que tomar um lado. O que eu sempre briguei com todo ateu é essa mania que alguns têm de tratar religiosos como o inimigo, mas cada vez mais eu me vejo tratado como sendo o inimigo e, tipo, olha pra mim, eu não sou inimigo de ninguém, eu sou só o cara que passa o dia lendo Kant, Schopenhauer e jogando videogame.

O grande triunfo dos cristãos extremistas norte-americanos está sendo esse:

Transformar questões bobinhas em grandes questões (ele não é só um vegetariano que gosta de reciclar e acha que duas pessoas do mesmo sexo merecem todas as garantias legais ao casarem que heterossexuais geralmente tem - eles são O INIMIGO DA CIIVILIZAÇÃO OCIDENTA!) e eles estão cada vez mais criando uma equivalência entre um tipo muito específico e muito norte-americano de conservadorismo econômico (que, num geral, eu concordo) e social (que, num geral, eu discordo) e "Civilização Ocidental", basicamente jogando toda a cultura que começa na Grécia no lixo e substituindo por coisas que Nixon e Reagan defendiam enquanto discursando antes de uma corrida de NASCAR no Texas.

Não é que eu reduza tudo a política, eu reduzo boa parte da religiosidade atual (teísta ou atéia) à política, porque tudo que cristãos fazem hoje em dia é politizar questões; o seu cristão médio vai passar 10% do tempo falando sobre compaixão, caridade, salvação da alma e os mistérios da bíblia e 90% do tempo discutindo como os gays e os negros estão tentando destruir a cultura ocidental.

Não que eles não possam, obviamente, falar sobre esses assuntos, o que me preocupa é que se você me diz que você frequenta a igreja, eu vou deduzir que você é contra as cotas raciais na universidade, que você acha que o BNDES deveria ser limitado (ou até extinto) e que os hospitais públicos não deveriam tratar obesidade. Eu não sei se essa é uma associação que eu deveria ser feita, eu até entendo que junto com uma crença metafísica venha uma política, eu só acho impressionante que seja uma política tão específica, onde eu posso deduzir se você é contra ou a favor dessa lei aqui de 2009 baseado na sua crença.

Numa nota mais particular, acho interessante notar que sempre que eu faço um post sobre esse assunto, nunca é pra dizer que deus não existe, é só pra reclamar que os religiosos estão próximos demais de um grupo político a ponto de que não dá mais para diferenciar crença em deus e crença em Nixon. E sim, Nixon! Não estou nem falando de Hume, Locke, Montesquieu, Adam Smith, Rousseau (a interpretação liberal), mas sim Nixon.

É só, de novo, ler o texto do *presidente* da liga católica: ele não está defendendo grandes ideais, ele está defendendo a proibição de casamento gay e escolas levemente menos seculares, mas ele está defendendo essas coisas como se fosse a grande salvação da civilização ocidental. Ele não está casualmente dando a opinião dele sobre duas questões, ele está transformado aquilo que será votado no meio do ano que vem nas eleições para o senado norte-americano na grande luta dos católicos que seguem a grande civilização que teve origem quando Tales de Mileto disse: "É água!" e é assim que Nixon se tornou o mais importante comentador contemporâneo de Santo Agostinho.

Isso me preocupa.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

He knows not what it means



I used to know what it means.
Now I really don't.