Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O Edifício



Empire State Building

"Enquanto eu envelhecia e acumulava memórias. Eu passei a ficar mais perceptivo em relação ao desaparecimento de pessoas e marcos. Especialmente problemático pra mim eram as remoções de prédios. Eu sentia que, de alguma forma, eles tinham algum tipo de alma." - Will Eisner

Um sinal de que a civilização estava caminhando inevitavelmente para o niilismo é a mera quantidade de sistemas filosóficos a partir de Descartes que propuseram-se como um fundamento.

Uma dica para entender história é que, num geral, algo que é repetido muitas vezes é algo que incomoda. Então se em determinada época fala-se muito de virtude e nobreza é porque as pessoas, num geral, precisam ser ensinadas a ser virtuosas e nobres. Ninguém perde tempo escrevendo sobre aquilo que todo mundo já sabe.

A modernidade, como entende Habermas, é uma constante busca por autonormatividade; isso significa, basicamente, que quando se perde a confiança na capacidade da tradição em dar respostas - e isso acontece porque é tradição é de fato incompetente - nós podemos olhar apenas para o presente e para promessas de futuro.

Então a metafora que você vai ver de novo e de novo na história da filosofia moderna é a do edifício. Não há só a confiança de que a tradição é incompetente na hora de dar os fundamentos de um edifício, mas há um medo enorme de que o que você proponha no lugar também seja insatisfatório, o que vai se amplificando século após século, com fundamento fracassado após fundamento fracassado.

O iluminismo é uma espécie de supernova nesse sentido. Há uma explosão de luz que consome a si própria deixando apenas um buraco negro no lugar.

Nós somos o buraco negro.
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Quando uma pergunta sobrevive muito tempo, uma boa estratégia é geralmente tentar se lembrar porque ela está sendo questionada em primeiro lugar.

Porque precisamos de um fundamento?
A resposta é sempre que o fundamento garante que a promessa seja cumprida.
A metáfora do prédio é sempre assim: se nós não fizermos um fundamento seguro agora, lá na frente vai desmoronar tudo de uma vez.

O que eu tenho a criticar nisso é que nossa amostragem foi falha. Os filósofos da modernidade ainda estavam mesmerizados com a queda da cosmologia aristotélica, que estava recheada de entulho cristão, assim, o que acontece é que de fato tinhamos um edifício, em seu fundamento estavam Platão, Aristóteles e São Paulo e esse prédio veio abaixo e nós bem sabemos o quanto dói quando prédios caem.

Um edifício é um simbolo de solidez e de sobrevivência. Will Eisner fala que os prédios tem algum tipo de alma, eu vou mais além e digo que os prédios são um tipo de alma, no sentido simples e tosco de que eles transcendem nossa vida, são habitações humanas criadas por seres humanos indiferentes à seus criadores.

Quando um edifício cai, a primeira reação é tentar reconstruí-lo, até que percebemos que a reconstrução é fútil. Aquela alma já morreu. Ela não vai voltar.

O primeiro grande edifício de nossa civilização durou mais de mil anos. Alguns séculos são de fato necessários para percebermos a futilidade de reconstruí-lo. É verdade que utilizamos diversos de seus tijolos, quando eles são úteis, mas algo de interessante ocorreu enquanto tentavamos construir prédios: fizemos uma cidade.

Grandiosa, decadente, confusa, eficiente. Vivemos nela sem perceber sua grandeza porque ela é tão cotidiana, mas basta um céu nublado e um coração quebrado o suficiente para nos fazer parar de correr pra lá e pra cá tempo o suficiente para olharmos para cima.

Os nossos prédios são grandiosos.
E belos.

A cidade, diferente do prédio, não pertence a um arquiteto, não é fundamento para crescimento (ela cresce desbravando a natureza), ela cresce da maneira que pode, alternando-se entre planejamento central e desorganização, entre lei e crime, entre prosperidade e recessão. Na cidade há catedrais, universidades, laboratórios, bordéis, cinemas, etc; edifícios de todo o tipo, feitos para as mais diversas funções e todas essas coisas fazem parte do mesmo conjunto, mas cada parte permanece uma parte e uma cidade é superior a um prédio porque, como nós também bem sabemos, a cidade sobrevive quando o prédio cai.

Se o edifício é um tipo de alma, a cidade é o corpo eterno habitado pelas infinitas almas mortais.

O problema da busca por fundamentos, em primeiro lugar, pareceu ser de que sem um fundamento, estariamos frágeis; mas de novo, isso foi um problema de amostragem. O problema não é que tinhamos um fundamento frágil, o problema é que estavamos dependentes de um único fundamento e aconteceu de ele ser frágil.

O modo como nós, quase que sem querer, conseguimos nos defender desse problema é que, criando vários edifícios, com vários fundamentos, podemos sobreviver à várias quedas, enquanto pensamos em como construir outro edifício, dessa vez melhor.

Nós não precisamos de uma metafísica que sustente uma física que sustente uma ética que sustente uma política.

Nós temos o edifício da metafísica, o da física, o da ética, o da política.

Quando a metafísica falha, as pessoas correm se refugiar no edifício da física, fingindo, por exemplo, que o big bang é uma resposta satisfatória, enquanto trabalhamos no edifício da metafísica.

Quando a ética falha e as pessoas são simplesmente desmotivadas ou ignorantes em relação ao bem, podemos nos refugiar no edifício da política, das leis, de uma constituição.

É claro que isso às vezes leva a catastrofes. Esquecemos que uma moradia é temporária; acreditamos que toda metafísica está morta (e não apenas aquela metafísica dos que já tiveram seu edifício derrubado), acreditamos que toda ética não tem solução; apenas porque estamos temporariamente no edifício da física e da política.

Isso leva a biologia a fazer juízos sobre essências, almas, livre-arbítrio, etc; isso leva a política a definir o que é o bem e o mal e aí um problema é que isso vai nos levando a, mais uma vez, aglomerar tudo novamente em apenas uma edifício. Aí quando o edifício enlouquece, o caso clássico é o nazismo, onde uma filosofia biologista definiu conceitos éticos baseado em um tipo de nacionalismo; não há para onde fugir.

Outro problema é que isso simplesmente atrapalha especialização, que é o modo que temos construído nossa cidade em primeiro lugar. Metafísica é um caso interessante aqui porque é um prédio tão frágil que todo mundo acha que pode entrar e fazer melhor do que o metafísico.

O exemplo mais clássico é a igreja. Habitantes de catedrais não podem ver uma cabaninha metafísica abandonada que logo procuram um lugar para colocar uma púlpito. Eles agem como testemunhas de jeová em domingo nesse sentido. Batem na porta, dizem que respeitam suas crenças, mas que querem falar sobre jesus. Quando você menos percebe, eles "esqueceram" uma bíblia no seu sofá e semana que vem voltam para pegá-la.

É claro que a pobre cabaninha da metafísica não é construída, como que podemos trabalhar quando temos evangelistas tocando a campainha há cada cinco minutos?

Isso é simples falta de etiqueta, você não vê o metafísico indo para o quintal de uma catedral acampar no quintal; como diz Schopenhauer: "filosofia é essencialmente sabedoria-de-mundo; seu problema é o mundo. Com isso apenas deve se preocupar e isso deixa os deuses em paz; mas em retorno por isso, espera que eles a deixem em paz também".

O biólogo não tem as ferramentas para juízos acerca do problema da existência, dos universais, do livre-arbítrio, etc; embora muito apreciamos quando podemos trocar conhecimento; assim como o teólogo também não tem essas ferramentas, senão roubadas de nosso pobre casebre. Assim como o metafísico não pode falar sobre a unidade de seres oniscientes e onipotentes que são três em um; ele também não pode falar sobre o comportamento de neurônios e genes. Heh, eu sequer sei descrever se é realmente sobre essas coisas que essas pessoas falam, mas enfim, vizinhos chatos fazem parte da vida em cidade.
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O costume da contemporaniedade baseia-se mais em quantidade que qualidade. Ao invés de buscarmos um fundamento sólido buscamos apenas um espaço onde todo tipo de fundamento pode ser testado e, caso desabe, paciência; tentamos de novo.

O nosso limite é apenas o tempo e o espaço. Nossos prédios caem, mas cada ruína é um aprendizado. Não é sequer certo se de fato aprendemos a lição, mas se não somos grandes arquitetos, ao menos somos pedreiros incansáveis.

E é claro que eu admiro os grandes arquitetos do passado, mesmo que deles tenhamos apenas ruínas e tijolos espalhados pelas mais diferenes cosntruções. Mesmo para construir um casebre é preciso alguma arquitetura. O que não é imperativo é o solo firme ou o fundamento perfeito. Seria bom encontrar essas coisas, mas até lá estamos nos virando muito bem, obrigado.

Depois que a primeira grande catedral caiu, nós fomos nos aperfeiçoando na arte de tentar e falhar e nisso nós não conseguimos construir nenhuma outra catedral que se estendesse aos céus e tocasse a Deus, mas como são lindos nossos prédios.

It's gonna take some time to fix this love of mine...

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Eu não passei.


Happy de Craig Pop Artist

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Amanhã

Desde que eu voltei do FIQ, eu entrei em um pequeno processo de me alienar do mundo. Eu faço isso vez ou outra, quando eu tenho que lidar com algo.
Eu me interesso por esse assunto de niilismo e de um mundo sem deus e sem verdade porque, basicamente, é o mundo em que eu vivo.
Eu quero entender como esse mundo funciona, porque eu acho que quero ajudar um pouco as pessoas que vivem nele. Não é fácil viver em um mundo sem regras sobrenaturais, mas é necessário porque esse é um mundo sem regras sobrenaturais; dada essa necessidade, o que eu vejo de mais comum é simplesmente pessoas vivendo por tentativa e erro.
E quanto mais eu envelheço, mais complicado vai ficando, não só, para parafrasear um dos meus personagens favoritos de sandman, apesar de ter tido tempo de ter corrigido alguns erros, eu também tenho tempo de cometer mais erros; mas ultimamente eu tenho me pego em todos os hábitos que eu vou adquirindo.
Um hábito é um tipo estranho de vício (ou vícios são um tipo estranho de hábito). É um vício que a gente adquire por meio de coisas que dão certos; o problema é que nós não temos como saber se as coisas que fazemos realmente funcionam, se outra coisa que não tentamos seria melhor, se isso só funciona no curto prazo, mas causa danos no longo prazo, etc.
A grande vantagem de seguir uma religião já estabelecida é que, estando aí há muito tempo, a religião desenvolve hábitos que são testados há mais tempo e que são, portanto, mais sólidos do que um moleque de 16 anos ouvindo Pink Floyd e sendo bombardeado pela vida sem nem saber que está sendo bombardeado pela vida.
A grande desvantagem é que, estando aí há muito tempo, a religião também desenvolveu seus hábitos que se tornaram vícios nocivos e que são difíceis de largar simplesmente porque nossa natureza é a de repetir aquilo que aparentemente deu certo.
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Esse pequeno percurso para dizer que eu tenho o hábito de lidar com meus problemas pensando sobre eles. Agindo muito pouco, mas pensando muito. Então agindo tudo de uma vez. Eu nunca adquiri (pois nunca precisei) um hábito de viver os dias mesmo tendo algo me pertubando.
Quando algo me pertuba, eu saio do mundo, deixo ele rodando sem mim e penso a respeito.
Nesse percurso, eu inevitavelmente decepciono pessoas e inevitavelmente acabo sendo alguém pouco confiável.
Dá pra perceber nesse blog, caso alguém acompanhe, que de vez em quando se passam um mês ou outro sem nenhum post e de repente eu escrevo umas coisas legais tudo em um curto período de tempo.
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Como eu disse, hábitos surgem porque eles dão certo e esse meu hábito deu muito certo fazendo meu TCC.
Eu decidi meu tema no final de 2007 e até algum período do segundo semestre de 2008, eu escrevi entre muito pouco e quase nada; tentei começar algumas vezes, mas não estava funcionando. Eu precisava pensar mais.
Até que um dia eu decidi que pensei o suficiente e no período de um mês mais ou menos, eu escrevi as 40 páginas do meu trabalho que acabou recebendo um 10. De longe, eu nunca fiz nada na minha vida que eu me orgulhe mais do que esse TCC sobre conhecimento metafísico em Schopenhauer. Eu tenho bastante orgulho também do Chuva Contra o Vento; feito em outro momento em que eu simplesmente precisava escrever.
O hábito que eu desenvolvi foi o de respeitar o de me acomodar ao meu ciclo mental, ao invés de tentar melhorá-lo em algo mais prático e mais eficiente; mas a verdade é que todas as vezes que eu tentei fazer isso, eu acabei com resultados medíocres e insatisfatórios.

Eu escrevo, sejam quadrinhos ou filosofia, quando meu corpo demanda que eu escreva. Até lá não tem nada que eu possa fazer; eu tentei mudar esse hábito, mas é difícil sair de um hábito que funciona para um que funciona menos, apenas porque o que funciona menos faria de mim uma pessoa mais confiável para os outros e para o mundo em geral.
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Em 2007 me aconteceu um caso clássico de mal que vem pro bem. Uma coisa bem clichê mesmo.
Eu peguei uma DP; em filosofia política, um assunto que eu costumava discutir o tempo todo; em autores que eu considerava fáceis demais para me incomodar, Maquiavel e Hobbes; por meio ponto.

Eu passei pelos habituais estágios do luto, inclusive mentir pro professor no estágio da barganha, implorando pra que ele me desse o meio ponto. Não deu certo, ele acreditou na minha mentira, mas ele não podia mudar a nota sem passar por uma burocracia que poderia prejudicar a carreira dele e bom, eu decidi engolir logo que perdi um ano do que prejudicar um professor muito bom e honesto. Eu mereci aquela DP.

Esse episódio acabou me acordando pro fato que eu precisava estudar.
Não foi só isso, eu sei lá explicar o que aconteceu nessa passagem entre 2007 e 2008, mas o único ano em que eu me senti fazendo uma faculdade de filosofia foi realmente no último ano. Antes disso eu estava tentando ser outra coisa.
Eu até hoje não sei dizer porque eu decidi fazer filosofia, foi meio que parte do hábito de obedecer meu corpo sem questioná-lo demais. Ele queria filosofia e eu deixei ele me levar. Mas nos dois primeiros anos (o curso tem 3 anos de duração; eu estou no quarto por causa da DP) eu não estava estudando filosofia, eu só estava lá.
É claro que eu estava aprendendo coisas, eu sou inteligente afinal de contas, eu não preciso levar a sério ou estar interessado para aprender; é verdade que foi isso que me levou à DP, mas de novo, hábitos são hábitos por funcionam. Eu tive a imensa sorte de que o curso de filosofia é civilizado o bastante pra que você tenha um bom ambiente de aprendizado quando está disposto. Mas até então, eu estava aprendendo coisas muito legais, mas ainda meio que de visita.

Em algum momento, por algum motivo estranho por causa daquela DP, aquilo virou minha vida. Acho que foi a questão de ter sido superado e derrotado. Eu geralmente sou muito bom naquilo que faço, quando algo me derrota, aquilo ganha meu respeito.
E quanto mais eu fui estudando filosofia, mais ela foi me desafiando e mais eu fui aceitando o desafio.
Eu passei 2008 estudando. Pra valer. Em uma faculdade de filosofia. Não só tirando nota e não só aprendendo o que escrever na prova. Mas aprendendo de verdade. De repente aquilo não era mais minha faculdade, era minha vida. Eu me sinto de tal modo incorporado por isso que se eu não fizer eu isso, eu não me sinto no direito de fazer outra coisa.
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Em 2009 eu passei mais um ano estudando e o resultado foi um projeto de mestrado que enviei pra Federal de São Carlos.
Até enquanto eu escevo aqui, eu me pergunto sobre a sabedoria desse post. E se eles lerem? Se algo aqui me faz parecer um péssimo aluno?
Mas eu preciso escrever, eu preciso compartilhar, não com vocês, mas com o blog.
Vocês lerem é o lado péssimo disso na verdade; porque amanhã eu vou saber se eu passei para a segunda fase.
O que significa que eu vou estar em controle de novo.
Até então eu estou esperando para saber se meu projeto foi aprovado ou não. Se sim, eu vou fazer duas provas; uma de inglês e uma de filosofia. De qualquer forma, vai depender de mim ir bem nelas. Se eu passar isso tem uma entrevista, que eu não faço idéia de como funciona, eu espero apenas ter oportunidade de explicar porque meu projeto é importante, porque eu mereço a confiança da instituição e, de forma menos romântica e mais profissional, explicar que conseguir essa vaga marcaria a primeira vez na minha vida em que eu sinto que não estou só sobrevivendo via hábitos porcamente adquiridos, mas vivenciando aquilo que meu ser exige de mim.
E o medo é que se eu não passar, eu vou ter que vir aqui e dizer que não passei e é a internet, alguém vai rir de mim e toda vez que eu entrar nesse blog, eu vou sentir algo terrível; eu vou ler isso e pensar que hoje foi meu último dia de esperança.
Esse é o tipo de aposta que não se faz em público, amanhã já é o dia mais importante e aterrorizante que eu já vivi e eu estou só piorando com esse post. Mas é assim que funciona quando temos o hábito de nos obedecer.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Uma grande mentira de amor


True Identity por PaperMonster

Se ao menos tivessemos controle das mentiras que contamos.
E se ao menos tudo que soubessemos é que somos uma coisa que pensa.
Se ao menos não existissem tantas máscaras.
E máscaras atrás de máscaras.
Acredito que seriamos anjos.
E como tais não existiriamos.
E assim também não haveria sofrimento.

Nossa existência é de tal modo inexplicável e injusta que as mais mentirosas histórias de amor foram contadas para justificá-la.
A mentira é dita com precisão doentia para satisfazer nossas dúvidas e o inevitável senso de injustiça no que percebemos que viver é isso mesmo.
E é uma mentira tão poderosa que mesmo com suas curtissimas pernas, ela é carregada nos ombros dos desesperados e infelizes, deixando em seu rastro promessas vazias e carnificina. O que mais poderia se esperar de uma grande mentira, que é também uma grande história de amor?

Mas no que a mentira foi sendo contada, as pessoas foram acreditando que ela é verdade e logo, como um assassino que acredita ter feito um trabalho perfeito, ela convidou as pessoas para examiná-la.

Assim nossa civilização entrou em uma espiral de sangue e caos enquanto a mentira pedia para ser examinada, mas assassinava quem ousava descobrir que era, afinal, uma mentira.

E outras mentiras foram contadas, outras histórias de amor, com protagonistas diferentes apenas o suficiente para que aqueles que contam as mentiras pudessem chegar à conclusão sempre desejada: o mundo é de acordo com minha vontade.

Ah, se ao menos pudessemos controlar nossa vontade.
Se ao menos pudessemos escolher que realidade vemos.
E isso significa:
Se ao menos tivessemos controle das mentiras que contamos.
Se ao menos a razão utilizada para contar essas mentiras fosse nossa razão.
Fruto de nossa vontade.
Mas quanto dessa vontade é nossa?
E quanto nós somos dessa vontade?

Quase nada.
Quase nada.
Somos sempre quase nada.

Somos muito pouco organizados em uma bela arquitetura.
Somos quase nada capaz da extraordinária habilidade de construir universos.
Se esse tudo que existe em minha alma é tão pouco, o que diremos do nada que existe fora dela?
E se visto máscaras e conto mentiras de amor para que o peso da injustiça não me destrua, quem pode me culpar?
A nossa espécie é apenas triste.
Homens tristes não cometem pecados que eles já não paguem.

E se a verdade é impossível, que escolha temos senão as mentiras?
Então podem respirar aliviados, meus mentirosos.
Vocês estão absolvidos de suas mentiras.
E eu sou o único juíz que lhes importa nesse mundo.

Essa é a mentira que eu conto para que vocês não morram.
E eu não quero que vocês morram.
Eu quero que vocês sofram.
Essa é a pena que eu os setencio por toda a carnificina e por todo o ódio de sua mentirosa história de amor.
E eu sou o único juíz que lhes importa nesse mundo.

Essa é a minha mentira de amor.
É esse amor pela humanidade.
Essa espécie triste e mentirosa.
Como eu os desprezo...
Meus amores.

E que tipo de pessoa você esperava que ele fosse?

Do Daily Dish citando uma entrevista com Richard Dawkins.

RD: Okay, do you believe Jesus turned water into wine?

HH: Yes.

RD: You seriously do?

HH: Yes.

RD: You actually think that Jesus got water, and made all those molecules turn into wine?

HH: Yes.

RD: My God.

HH: Yes. My God, actually, not yours. But let me…

RD: I’ve realized the kind of person I’m dealing with now.
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Ok, pessoal que me conhece provavelmente sabe que eu não gosto do Dawkins, mas, embora o sujeito que o entrevista seja mal educado e passe boa parte do tempo falando de coisas que ele não entende tentando desmoralizar o caráter do Dawkins, esse trecho, em particular, não fez sentido pra mim.

É como o Pascal diz, se você acredita que existe um deus todo poderoso, que ele criou o universo inteiro, que ele enviou seu filho para morrer por nós, etc; acreditar que tal filho fez um milagre ou dois é o de menos.

O sujeito acredita que existe um tal ser onipotente, onisciente e infinitamente boa que criou, do nada, o universo; daí pra "transformou moléculas de água em vinho" é o de menos.
Particularmente, se eu acreditasse em deus eu acreditaria até que Jesus aparece em torradas, porque não? Se eu fosse onipotente, eu total mandaria mensagens aos meus fiéis via torradas.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Conversando com teístas

Do site "Friendly Atheist"

"What has kept me relatively sane in the matter is that I try to focus the conversation on things we can agree on.

I talk about the need for separation of church and state, the importance of teaching kids to question their beliefs and seek out their own answers (Christians, of course, think this will lead them toward faith), the lack of politicians who represent our constituency, why we need to keep forced religion out of public schools, the myriad cases of discrimination against atheists, etc.

I talk about the need for them to take those ideas back to their churches and pastors. They have a hard time saying no to those ideas above. So that’s where I keep my focus.

It’s more important to me that Christians get on board with those ideas than whether they believe in a god or not."

Particularmente, eu não tenho o mínimo interesse em que alguém deixe de acreditar em deus; na verdade, eu vejo lados bons em ter uma religião. A pessoa está em uma comunidade, ela pode exercitar compaixão e caridade, ela tem motivos (legítimos ou não) para agir de forma decente e honesta, etc.

É claro que, sendo ateu, eu vou defender meu lado da questão; religiosos são o tipo de maioria que espera algum tipo de respeito especial sem oferecer nenhum em troca; é difícil dialogar sobre religião porque todo mundo se ofende tão fácil.
Esses dias numa comunidade do orkut, eu argumentava que deus, como entendido tradicionalmente pela filosofia, não podia ser panteísta ou "uma energia"; que deus tinha atributos bem específicos, ele era o criador onipotente, onisciente, racional, infinitamente bom, etc; é claro, disseram que eu queria censurar alguém, que eu era um inimigo da liberdade de crença e tal.

Mas é o orkut. Quem se importa com o orkut?

Mas é um assunto onde as pessoas não sabem como se comportar, em termos de etiqueta, e aqui há um problema que atrapalha mais a questão do que a lógica da coisa.

Eu me ofendo fácil demais porque, bom, nesses dias, no Washington Post, um dos jornais mais lidos e mais respeitados nos Estados Unidos, rolou um artigo do presidente da liga católica dos Estados Unidos em que ele dizia (e agora já não é mais "orkut, quem se importa com orkut?")... bom, eu vou citar, é tão assustador que parafraseando parece mentira:

Nota que quando ele fala em "radicais", ele não quer dizer "radicais", ele quer dizer secularistas, gays, pessoal pró-aborto, artistas ateus; ele não está falando de ninguém jogando bombas ou assassinando pessoas, ele está falando de gente normal com opiniões diferentes das dele.

"Yesterday's radicals wanted to tear down the economic structure of capitalism and replace it with socialism, and eventually communism. Today's radicals are intellectually spent: they want to annihilate American culture, having absolutely nothing to put in its place. In that regard, these moral anarchists are an even bigger menace than the Marxists who came before them.

If societal destruction is the goal, then it makes no sense to waste time by attacking the political or economic structure: the key to any society is its culture, and the heart of any culture is religion. In this society, that means Christianity, the big prize being Catholicism. Which explains why secular saboteurs are waging war against it.

When Jesse Jackson led students at Stanford University in the late 1980s screaming, "Hey, Hey, Ho, Ho, Western Culture's Got to Go," it was a way of undermining this nation's Judeo-Christian heritage. When Yale University returned $20 million to Lee Bass in the 1990s because the faculty objected to its being used to expand its Western civilization curriculum--they wanted multiculturalism--it showed the power of radical secularists.

Sexual libertines, from the Marquis de Sade to radical gay activists, have sought to pervert society by acting out on their own perversions. What motivates them most of all is a pathological hatred of Christianity. They know, deep down, that what they are doing is wrong, and they shudder at the dreaded words, "Thou Shalt Not." But they continue with their death-style anyway. "

continua por um pouco e, fecha com o brilhante parágrafo final:

"The culture war is up for grabs. The good news is that religious conservatives continue to breed like rabbits, while secular saboteurs have shut down: they're too busy walking their dogs, going to bathhouses and aborting their kids. Time, it seems, is on the side of the angels."

Reinaldo Azevedo também chama quem é a favor do aborto de pessoas "pró-morte"; sujeito aqui nos meus comentários (ele vai jurar que não, mas ah, ele sabe que ele fez) deu a entender que eu era a favor de infanticídio por causa do meu vegetarianismo baseado em compaixão, minha mãe acha impossível eu ser ateu porque não é possível um filho tão adorável não acreditar em deus, (não fuma, bebe pouco, não usa drogas, passa o dia todo estudando, é bom com os animais, é bem educado, mesmo se um pouco antissocial e não acredita em deus? Ah, isso é uma fase que ele vive faz uns 5 anos, daqui a pouco passa).

A maior parte do meu tempo como ateu, eu passei debatendo a questão com outros ateus; eu não acho, por exemplo, que acreditar em deus é um tipo de burrice automática, eu acho uma crença bem legítima (que eu não tenho) e que religiosos que fazem coisas ruins por causa de religião, são ou charlatães ou, sim, uma minoria de radicais. A maioria das pessoas que você conhece são religiosas e elas são tão falhas quanto você; siginifica, elas podem ser bem chatas e mesquinhas, de nenhuma forma são santas, mas de nenhuma forma são pessoas cuja ruindade vai além de "ela é realmente invejosa" ou "olha quanta fofoca ela faz".

Nos últimos tempo, eu tenho debatido com teístas; querelas filosóficas a parte, enquanto Bush era presidente, o ateu era só uma figura engraçadinha a se passar o tempo, agora, com a eleição do Obama, que passou por umas 3 igrejas no dia da posse, de repente nos tornamos essa ameaça vista acima.
Somos uma raça de pervertidos sexuais e anarquistas morais querendo aniquilar a sociedade e censurar os religiosos porque odiamos deus e temos medo do "você não deverás", etc.

Eu ainda não me considero nenhum tipo de minoria oprimida, mas vou dizer, estou começando a ficar preocupado, não em ser perseguido, mas em ter que tomar um lado. O que eu sempre briguei com todo ateu é essa mania que alguns têm de tratar religiosos como o inimigo, mas cada vez mais eu me vejo tratado como sendo o inimigo e, tipo, olha pra mim, eu não sou inimigo de ninguém, eu sou só o cara que passa o dia lendo Kant, Schopenhauer e jogando videogame.

O grande triunfo dos cristãos extremistas norte-americanos está sendo esse:

Transformar questões bobinhas em grandes questões (ele não é só um vegetariano que gosta de reciclar e acha que duas pessoas do mesmo sexo merecem todas as garantias legais ao casarem que heterossexuais geralmente tem - eles são O INIMIGO DA CIIVILIZAÇÃO OCIDENTA!) e eles estão cada vez mais criando uma equivalência entre um tipo muito específico e muito norte-americano de conservadorismo econômico (que, num geral, eu concordo) e social (que, num geral, eu discordo) e "Civilização Ocidental", basicamente jogando toda a cultura que começa na Grécia no lixo e substituindo por coisas que Nixon e Reagan defendiam enquanto discursando antes de uma corrida de NASCAR no Texas.

Não é que eu reduza tudo a política, eu reduzo boa parte da religiosidade atual (teísta ou atéia) à política, porque tudo que cristãos fazem hoje em dia é politizar questões; o seu cristão médio vai passar 10% do tempo falando sobre compaixão, caridade, salvação da alma e os mistérios da bíblia e 90% do tempo discutindo como os gays e os negros estão tentando destruir a cultura ocidental.

Não que eles não possam, obviamente, falar sobre esses assuntos, o que me preocupa é que se você me diz que você frequenta a igreja, eu vou deduzir que você é contra as cotas raciais na universidade, que você acha que o BNDES deveria ser limitado (ou até extinto) e que os hospitais públicos não deveriam tratar obesidade. Eu não sei se essa é uma associação que eu deveria ser feita, eu até entendo que junto com uma crença metafísica venha uma política, eu só acho impressionante que seja uma política tão específica, onde eu posso deduzir se você é contra ou a favor dessa lei aqui de 2009 baseado na sua crença.

Numa nota mais particular, acho interessante notar que sempre que eu faço um post sobre esse assunto, nunca é pra dizer que deus não existe, é só pra reclamar que os religiosos estão próximos demais de um grupo político a ponto de que não dá mais para diferenciar crença em deus e crença em Nixon. E sim, Nixon! Não estou nem falando de Hume, Locke, Montesquieu, Adam Smith, Rousseau (a interpretação liberal), mas sim Nixon.

É só, de novo, ler o texto do *presidente* da liga católica: ele não está defendendo grandes ideais, ele está defendendo a proibição de casamento gay e escolas levemente menos seculares, mas ele está defendendo essas coisas como se fosse a grande salvação da civilização ocidental. Ele não está casualmente dando a opinião dele sobre duas questões, ele está transformado aquilo que será votado no meio do ano que vem nas eleições para o senado norte-americano na grande luta dos católicos que seguem a grande civilização que teve origem quando Tales de Mileto disse: "É água!" e é assim que Nixon se tornou o mais importante comentador contemporâneo de Santo Agostinho.

Isso me preocupa.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

He knows not what it means



I used to know what it means.
Now I really don't.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

House

Assistindo essa temporada de House - e quase gostando, o episódio mais recente, com o time clássico resolvendo um problema interessante, foi quase bom - eu estou começando a desenvolver uma teoria sobre qual é a direção da série e, sendo esse meu blog, qual é a relação disso comigo.
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House é uma série interessante porque um monte de gente que assiste gosta de se comparar com o personagem principal. É verdade que alguns levam isso a sério demais, mas, num geral, esse é um efeito comum e a justificativa pra isso é bem razoável.

House é mal humorado, faz o que quer e todo mundo tem que engolir as esquisitices dele porque ele é o melhor. Quem não quer ser assim?

A questão é que, por desinteressante que os episódios particulares sejam, eu estou muito satisfeito com a história que a série, como um todo, está contando e eu gosto de me perguntar como que os fãs que se indentificam com o House estão reagindo ao tema que basicamente começou na quarta temporada, se eu não me engano, que é quando ele começa a procurar um novo time.

As 3 primeiras temporadas de House montam um misto de Super-homem da DC Comics e Super-homem do Nietzsche.

House é o cara que cria as próprias regras, que tem os próprios valores, que vive sozinho, que tem que lutar contra a maioria, mas que consegue porque ele é oh, tão forte (<- super-homem do Nietzsche), ele consegue fazer isso não pela força de seus valores, não porque ele é ateu, racionalista e misantropo, mas porque ele tem um super-cérebro, ele vê conexões que ninguém vê, ele é uma enciclopédia médica ambulante e ele salva vidas (<- super-homem da DC comics).

Nós, o público, queremos ser o primeiro super-homem, mas por nos faltar as habilidades do segundo super-homem, geralmente fracassamos. Mas como vemos o mundo como refletido pelos nossos desejos, nós temos a tendência de pensar que House é especial não pelo motivo que seria óbvio - o sujeito é mais inteligente do que qualquer ser humano pode ser - mas pelo motivo que nós nos indentificamos - ele cria as próprias regras.

Mas, como já dito, para House ter a liberdade de criar as próprias regras, ele precisa de seus super-poderes. House não tem toda sua liberdade porque ele acha a resposta 70% das vezes, mas porque ele acha 90% das vezes. E não porque ele realmente estudou ou realmente trabalhou, mas porque ele olha pra camera, mexe os olhos como a feiticeira mexe o narizinho e *plim*, eis a resposta. Isso é algo que ninguém mais no universo consegue fazer e, com essa qualidade, ele consegue se tornar "idemitível" e, assim, ele consegue subverter as regras da sociedade.

Você, leitor, não consegue balançar os olhinhos com uma trilha sonora legal de fundo, então você, leitor, não tem o principal do House.
Nós somos pós-modernos, até os conservadores entre nós; nós vivemos em uma sociedade razoavelmente sem regras, então quando você monta o seu conjunto de valores, é quase certo que você estará contra alguma maioria.

Eu costumo brincar que nunca conheci alguém que não fosse um revolucionário; o fato é que eu nunca conheci ninguém que se dispõe a falar de "coisas sérias" que não acha que a "grande mídia" está contra ele.
É claro que todo mundo está torcendo pela falência dos jornais, nós temos um mundo com tantas e tantas opiniões e um determinado conjunto de opiniões é uma colcha de retalhos tão fragmentada que é difícil pensar que o sujeito que lê as mesmas coisas que você e vota nos mesmos políticos e frequenta a mesma igreja e os mesmos bares vai concordar com tudo que você diga; quanto mais o colunista. E como todo mundo discorda dos colunistas pelos mais variados motivos, todo mundo se sente perseguido e injustiçado pela "grande mídia".

Entra o House.
House, nessas primeiras 3 temporadas (eu estou assumindo que o arco do reality show começa na quarta, não quero perder o trem de pensamento pra ir pesquisar) é o sujeito cuja opinião conta. Dada a variedade de opiniões, muitas de nossas opiniões enfurecem alguém, mas no dia a dia temos que lidar com isso. House não precisa. Ele diz o que ele acha e, pelo seu super-cérebro e olhinhos mágicos, ele tem o poder de se fazer ouvido sem precisar ouvir.

Essa não é a série que vemos na televisão, nem nessas 3 primeiras temporadas, muito menos nas mais recentes, mas essa é a série que nós, carentes de poder, lembramos de ter assistido.

Se eu for perguntar na palavra mais repetida na série, alguém pode responder "idiot", de todas as vezes que nosso super-homem fez algo que gostaríamos de fazer e se saiu bem (chamar alguém de idiota); mas eu lembro da palavra "miserable".

É verdade que House é um gênio, que é bem pago, que a Cameron ama ele e quando ela casou, a Cuddy passou a amar ele; é verdade que ele faz o que quer, que ele não lida com as consequências dos seus atos, etc.
Mas é também verdade - e isso a série precisa o tempo todo reforçar porque se não o faz por um segundo nós nos perdemos na nossa fantasia particular do super-herói - que ele é infeliz.

Eu tenho essa relação engraçada com felicidade - e enquanto as pessoas se relacionam com House por ele ser um gênio, eu me relaciono com ele por ele ser infeliz - e essa "relação engraçada" é que não importa o quanto eu seja bem sucedido e o que eu faça de certo, eu acho que minha vida é um fracasso porque eu sou infeliz - e aí eu acabo achando que todas as pessoas que me antagonizam - as que sabem menos, as que são menos inteligentes, menos talentosas, tem um futuro mais sem graça, um presente mais medíocre, etc; eu tenho a tendência de achar que todas essas pessoas são vitoriosas, porque ao menos elas são felizes e se elas estão contentes e eu não estou, elas fazem algo de certo que eu não faço.

E exceções à parte, essas pessoas, num geral, são, de fato, menos inteligentes e talentosas e suas vidas são mais sem graça e eu não trocaria minha vida, conquistada com o sacrifício da felicidade, pelas vidinhas medíocres e bestas dessas pessoas; ainda assim, as coisas caem sempre numa questão de escolha:
É uma espécie de barganha com o diabo.
Eu troquei minha felicidade pelos prêmios todos que tenho; fica a pergunta se eu fiz um acordo correto.

É claro, que tais coisas que eu tenho não chegam perto de serem o super-cérebro do House, então não é nem como se eu estivesse conseguindo com muito sucesso impôr meus valores sem desafios como ele faz.

O que começa a acontecer a partir do momento em que o Cameron, Chase e Foreman desencanam do House é que a infelicidade dele começa a ganhar mais espaço que seus super-poderes.

Ele está procurando outro time em um reality show porque ele *realmente* precisa de 3 assistentes ou porque ele precisa se cercar de pessoas, apesar da misantropia? Lembram como toda uma temporada o tema era como ele se esforçava pra espalhar a miséria dele por aí? Tentando sabotar o relacionamento do Wilson, o filho da Cuddy, o casamento do Taub, etc; tudo com alguma justificativa e tal, mas no fim, House cada vez mais se torna só um velho triste aporrinhando os outros e todo o grande problema karmico da śerie (pra ficar no tema do episódio mais recente) é que ele tem um super-poder que impede que ele seja punido. Se ele não está sendo punido, ele não está aprendendo e os poucos que tentam se levantar contra ele acabam sendo dizimados pelo quão incrivelmente indispensável ele é para o hospital.

O que acontece é que House, o super-herói, continua salvando vidas de estranhos que ele não se importa, mas o preço que ele paga por isso é a destruição da vida dos poucos que ele se importa, inclusive da própria.

O resultado disso é a morte da Amber e, depois, a loucura.

Como eu disse, os episódios particulares dessas últimas temporadas poderiam ser muito, muito, melhores; mas a história é linda.
Basicamente o que está sendo contada é uma história de redenção e eu não sei bem como os fãs vão reagir porque pra eles o legal do House não é ele ser uma figura trágica, alguém cujo super-poder traz um tipo de super-sofrimento, mas sim alguém simplesmente com um super-poder.

Então quando essa temporada começou, ao final do primeiro episódio, eu me peguei torcendo para que House seja feliz, mesmo que isso signifique que ele perca seu super-poder. Como os deuses da televisão ditam que essa é uma série sobre dramas médicos e não culinários, a resposta psicológica para ele é continuar sendo o super-médico, mas como esse episódio indicou, em uma cena muito rápida, mas muito importante; isso é muito, muito complicado.

Enquanto o House está só mantendo seu super-poder ocupado sob a ilusão de que ele não tem nenhuma responsabilidade, a vida é linda, ele é quase o House que nós fantasiamos que ele seja, mas aí vem o Chase - que é um personagem incrivelmente interessante porque a falta de personalidade dele permite que ele pegue até o House de surpresa - vem e diz que se ele pretende fazer parte dessa equipe, ele não tem escolha senão liderar, seja oficialmente ou não. E aí vem o lance: se ele volta à vida de antes, volta também o sofrimento e o House da temporada atual, que é o House pelo qual eu estou torcendo, quer cada vez menos ser um super-herói e cada vez mais ser feliz.

Alguém dirá que esse é um gesto de fraqueza, mas a pessoa que diz isso provavelmente já é feliz, com a dose de sofrimento que vem necessariamente no ato de viver e, não tendo que suportar a infelicidade do protagonista, não entende porque alguém largaria o poder, a genialidade, o status, etc; como o meu desejo não é ver o protagonista ter talento, mas sim felicidade, eu estou curioso pra saber o que a série vai mostrar.

A verdade é que House está perto de ter alguma paz de vida, ele quase conseguiu por meio da culinária, mas essa ainda é uma história trágica; para ele ser feliz ele terá que fazer inevitavelmente muito parecido com aquilo que ele faz que traz infelicidade.

E aqui estou eu torcendo para que ele consiga.