segunda-feira, abril 16, 2012

Sobre trabalhar com que se ama

Eu acabei de ler esse artigo sobre um tema que tem me pertubado muito ultimamente: isso de trabalhar com que ama. O resumo do texto é o seguinte: Se você espera ser pago pra fazer algo que gosta, você tende a substituir a motivação "gosto de fazer" pela motivação "dinheiro", ao invés de acrescentar. Então você passa a pensar que toda vez que faz deveria ser pago e aí você passa a não conseguir fazer só por amor e ainda por cima faz de má vontade quando é pago, pois agora é só um trampo. A saída seria ser pago "por acidente". Você faz o lance sem esperar recompensa e *PUF* ela simplesmente aparece.

O artigo não é ruim, mas como quase tudo que eu leio em psicologia na internet, parece só um modo longo e behaviorista de dizer um senso comum - nesse caso, como em tantos outros, oculto sob a máscara de "verdade que ninguém quer ouvir" por contrariar outro senso comum (somos uma época confusa e perdida, temos sensos comuns contraditórios); no caso o senso comum é a velha história do cara que vai fazer X trabalho artístico, entra no ramo e tem que fazer algo similar ao que gosta de fazer pra ganhar dinheiro; por exemplo, o desenhista que vai desenhar histórias que não gosta. Mas isso não é fazer o que gosta; eu não acho que um desenhista gosta de desenhar porque sentir a lapiseira entre os dedos estimula uma zona erógena. Ele desenha precisamente por ser um meio de contar a própria história, então se ele não está fazendo isso, então ele não está sendo pago pra fazer o que gosta. No caso, o mercado muito raramente te dá o estímulo pra fazer o que você gosta, na maior parte das vezes, ele deixa você fazer algo semelhante.

O artigo não aborda isso, ele realmente aborda "fazer o que gosta", mas os experimentos behavioristas erram o alvo, acredito: por exemplo, existe um jogo divertido, aí você é pago pra isso, então o jogo deixa de ser divertido, se torna sério. Sim, isso acontece, mas um jogo de tabuleiro não é o que você ama fazer, não é como você acredita que vai deixar sua marca no mundo. É só algo divertido. Então ele prova mais algo sobre diversão e entretenimento do que sobre o efeito do dinheiro no caminho que você escolhe pra vida num geral. Um outro ponto, esse o artigo faz melhor, mas acho que ainda não acerta a marca, é que quando tem algo que você faria de graça e alguém te dá uma quantia de dinheiro, a coisa se torna mais complexa e às vezes menos prazerosa. O exemplo é quando você vai ajudar um amigo a fazer mudança e ele te paga 50 reais; isso confunde a recompensa que você espera, pois você realmente espera um "muito obrigado, você é um cara legal e eu te amo" etc e tal; aí você recebe 50 reais e de repente a coisa fica besta: de amigo eu passo a trabalhador mal pago.

O problema aqui é que uma coisa que o artigo parece confuso é que dinheiro também é uma forma de validação social e não só uma recompensa material. Lembro de uma jovem escritora batendo no peito que agora sim é escritora, agora sim ganha pra isso. No caso ela não está feliz porque pode comprar uma tranqueira, mas porque dinheiro é como ter pessoas dizendo pra você: "gosto tanto do que você faz que até sacrifico as tranqueiras que eu compraria com isso para comprar o seu livro". Recentemente minha namorada ficou chateada comigo porque eu dei continuidade a um projeto só porque vi uma pequena esperança de ganhar dinheiro com ele, mas, e é o que eu disse pra ela, não é que eu esteja atrás do dinheiro, mas é que ganhar dinheiro com alguma com isso significa que o que eu faço tem valor pra alguém. Foi um motivo pelo qual vendíamos os fanzines a 1 real ao invés de dar de graça; por 1 real a pessoa lê, ela investiu, ela dá atenção, ela fez uma aposta no nosso trabalho. De graça, ela joga no chão.

Fazer o que ama é um negócio muito mais complicado do que fazer o que ama; é também complicada a noção de recompensa: é uma área tão nebulosa essa de se sentir recompensado pelo que faz. O problema deve ser eu, mas eu nunca me senti recompensado pelas coisas que faço e eu não vejo escolha senão continuar a fazê-las. Existe uma noção aí que não entra nos estudos de psicologia, que é um senso de dever com algo. Esse esquema de explicar comportamentos humanos por escalas de recompensa e punição (materiais ou não) nunca fizeram sentido pra mim por causa de um pequeno detalhe da historia humana: as guerras.

Em qual esquema de mundo que vê o ser humano essencialmente egoísta faz sentido ir pra linha de frente em um campo de batalha. Faz sentido entender porque os líderes fazem guerra, não são eles que lutam, mas que egoísmo leva o soldado à lidar com a morte? Todos os motivos que aparecem fazem sentido apenas pro líder: Status, por exemplo, que soldado com uma arma na mão vendo os amigos morrerem ao redor acha que há uma boa relação risco x recompensa entre ficar famoso e morrer? Que vençam a guerra, ele não vai ser o único sobrevivente, a glória e o status que ele recebe são tão dispersados.

Se a explicação vai pro lado de sobrevivência da espécie, de um estilo de vida, etc e tal; aí fica mais justificável. Ter um filho vai pro mesmo caminho, não há bem um motivo egoísta pra ter um filho (nem no sentido burguês da questão de ter um herdeiro, que pamonhas um herdeiro faz por mim que o dinheiro que eu gasto criando ele não pode fazer?). Na geração da vida e na execução da morte, os motivos parecem quebrar e os instintos tornam-se melhores explicações. Mas se esse é o caso, são esses os únicos casos?

E se a busca pela arte e a busca pela verdade também entrarem no esquema do instinto de preservação da espécie? E se parte daquilo que dizem "você faz porque gosta" não é um gostar como se gosta de uma diversão, mas sim um "você faz porque ama" como se ama um filho ou uma nação? O que acontece quando você é megalomaníaco e sua neurose não passa por procurar dinheiro e fama, mas sim por procurar fazer algo de importante para a espécie, mesmo que a espécie não agradeça de volta. Mas aí a megalomania pressupõe um distúrbio da razão, uma falta de perspectiva; mas se é um jogo de instintos, a razão já não é secundária em primeiro lugar? A arrogância, no caso, não seria a pretensão de autocontrole perante o grito do sangue?

Rilke diz: "Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: 'Sou mesmo forçado a escrever?'"

Perante uma força que equivale à vida, como entram os termos de recompensa e arrogância? Acho que não é questão de falar que não entram, você não se torna um super-homem ou uma máquina de escrever só porque sente algo assim, ou talvez seja só eu que sou fraco nesse meio, mas é verdade que ser vedada a possibilidade significaria a morte, acontece também de ser nesses pensamentos, de ser com as crises referentes a esse tema que o pensamento de suicídio realmente aparece. Acontece às vezes de tanto dizerem ou darem a entender que os serviços à vida são desnecessários, que então eu peça demissão da vida.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Nostalgia do contemporâneo


Nostalgia musical com rock é sempre estúpido. Anos 60 ou anos 90 ou anos 00 é uma diferença irrelevante, tudo é contemporâneo, quer você tenha ido pessoalmente na baladinha x de tal década ou não.
Estava ouvindo Smashing Pumpkins agora e sempre rola no youtube algo do tipo "ah, essa época sim tinha música. Não essa droga de hoje"
Meu rock favorito é algo que eu nunca participei, nem como nostalgia, twee é alien pra um bocado de gente que viu as bandas pessoalmente, mas de novo, não importa, os anos 80 são tão contemporâneos quanto o que aconteceu ontem. É tudo parte de um processo que é tão o mesmo processo e é tão sem rupturas relevantes... enfim.
Musicalmente, a época que mais marcou enquanto aconteceu - e assim será por toda a vida, pois ter 21 anos não acontece duas vezes - foi aquele momento entre 2003 - 2005 que tinham as coisas do tipo Strokes, Yeah Yeah Yeahs, Franz Ferdinand, Killers, etc e tal.
Crianças burras que eramos na época, sentamos a inveja do nosso clubinho e ó que medo de Strokes ficar mainstream.
O que aconteceu com o pós-guerra foi uma constante necessidade por algo novo que leva as pessoas a cometerem o erro de pensar que coisas novas de fato estão acontecendo. Não há ruptura relevante entre Beatles, Velvet Underground, Sonic Youth, Yeah Yeah Yeahs e seja lá o que acontece hoje; se o Rock quer se compreender como arte, ele tem que pensar um pouco mais em eternidade e um pouco menos em ciclos de 10 anos e cortes de cabelo. A "nossa" geração ainda é a geração dos nossos pais e até dos nossos avós; a última ruptura foi a segunda guerra mundial (e olhe lá); desde então, a juventude dos Beatles é a mesma juventude do Restart e pensar as coisas do ponto de vista dos corpos que envelhecem nunca foi uma boa estratégia de análise histórica ou cultural. Que importa você e seu corpo mortal no esquema das coisas? Pensar a diferença entre hoje e os anos 60 vai ser uma curiosidade acadêmica (e arbitrária e cheia de problemas e útil só como ponto de partida) como pensar a diferença entre a Grécia de Sócrates e a de Aristóteles e estamos falando aqui da diferença entre uma geração sem escrita e uma geração com escrita. A diferença entre nós e os anos 60 é muitíssimo menor.
A internet é basicamente um telefone muito eficiente, mesmo tentando construir essa frase, eu não consigo ver a enorme diferença.... ou qualquer diferença. Não é como se esse blog não fosse existir como um fanzine e ser tão pouco lido e irrelevante
O que muitas pessoas experimentam como nostalgia de uma época que nunca viveram é uma experiência da própria época; confusa por esse conceito estranho de um ciclo cultural que dura risíveis 10 anos.
Talvez a grande prova que somos exatamente a mesma geração que nossos avós é que continuamos a cometer exatamente os mesmos erros. Algumas coisas dependem de avanço tecnologico - essa ou aquela doença foram curadas - as que dependem de qualquer mudança de espírito (o tal do Zeitgeist) continua na mesma. Nós ainda estamos parados no exato mesmo ponto da família dos anos 60 que de repente tinha todas essas tranqueiras novas para o lar sem saber o que fazer com elas a não ser afundar-se em mais depressão.
Se o sujeito do clube da luta se acha niilista, ele deveria ver quanto antidepressivo uma dona de casa norte-americana engole furiosamente, aí você me fala de não acreditar em nada, não ter esperança no futuro, ter tranqueiras e perceber que elas são inúteis, etc e tal.
Os problemas são os mesmos, a falta de solução também, a ansiedade da juventude idem, logo, o mesmo rock n roll. Desde os anos 80 nos chamam de década perdida, eu incluiria aí os anos 60 também já que estamos falando de contribuições culturais geneeralizadas e significativas ao invés de um bom momento aqui e lá (ah é, os hippies foram muito importantes, olha todo mundo vivendo como eles e rejeitando o cristianismo conservador).
A ruptura da segunda guerra mundial foi basicamente nos forçar a olhar as minorias. O problema judeu é também o problema negro, homossexual, etc e tal. As conquistas que esses grupos estão tendo é o exato mesmo processo que se originou (e nem assim originou originou no sentindo forte da palavra) desse trauma causado pelo holocausto.
A característica da atualidade envolve esse trauma; o niilismo, o fanatismo religioso, a democracia confusa, o hedonismo, isso tudo vem de antes, são problemas do século XIX que meio que entraram em pausa pelas guerras mundiais. Lidar com a tecnologia eu diria que é um problema do começo do século XX (a questão da técnica está pelo menos em Heidegger). Se eu posso profetizar a próxima geração, vai ser aquela que vai sinceramente olhar o fim do mundo nos olhos por conta dos problemas ambientais; hoje nós brincamos de nos preocupar com problemas ambientais, vai chegar a época que um ataque terrorista intencional vai ser irrelevante, pois você está com medo que a chuva mate todos aqueles que você conhece; essa é a próxima etapa, acredito (mas sei lá, especular demais o futuro é pamonha); até lá, os Beatles são tão jovens quanto você.

sábado, novembro 12, 2011

Diagnóstico de época

Começou com aquele tipo de equívoco que até é de se esperar quando há uma mistura de juventude, entusiasmo, teorias políticas, indignações mais ou menos legítimas. Em um surto, os alunos da USP fizeram o que fizeram e como uniu uma sequência de circunstâncias favoráveis para pintá-los na mais desfavorável das luzes (começou quando a polícia realizada uma abordagem legítima, tornou-se um furioso protesto com ares de violência e autoritarismo por algo que é longe de ser consenso na universidade, houve a invasão, algum abuso). A mídia aproveitou, inflamou os ânimos. A internet contribuiu. Eu contribui.
Acontece, entretanto, das coisas prosseguirem de tal modo que o que há por trás, o que há de inconsciente, o que é reprimido pelos motivos civilizatórios, começam a sentir seu próprio entusiasmo em sair. Na medida em que a mídia prepara os tambores de guerra, as pessoas se tornam um pouco receptivas demais a eles. Logo fica impossível de esconder que as indignações iniciais ("eles acham que estão acima da lei?" "como eles podem fazer isso com patrimônio público?" "Não se preocupam com a opinião dos outros sobre a segurança?") são só máscaras ou desculpas para um ressentimento.
E assim a pequeneza dos sentimentos e das piadinhas se tornam aquém do que quer que aconteça de fato na USP. Eu disse que os argumentos contra o reitor e contra o policiamento não importam, pois o protesto começou de maneira ilegítima, confusa e um tanto emocional demais; agora os argumentos em favor do policiamento também param de se importar, pois o ódio contra os "maconheiros" e os "vagabundos" começam a tornar ilegítimos também esses discursos.
Neste bate-boca de surdos, analisar argumentos e motivos torna-se vão; mero partidarismo, seja de algum partido específico ou de um inconsciente estilo de vida. Resta então uma análise da época.

Metafísica popular e niilismo popular


A cisão fundamental da modernidade ocidental - fé e razão - desenvolveu-se no decorrer dos séculos. Por um lado a fé gira em falso, ora aquém da razão, ora em um sentimento que a ultrapassa, ora em um âmbito particular incomunicável, ora em um âmbito público indiscutível (passível apenas de um respeito politicamente correto). A razão, por outro lado, começa por um mecanicismo que torna-se um determinismo e converte-se em um positivismo que expulsa de si - e da possibilidade de ser racional - todo discurso fora do tecnicismo dos laboratórios e dos paradigmas apresentados nos livros didáticos.
Não se trata de uma questão de Deus e Materialismo, mas de toda uma gama de assuntos que são generalizados em um campo ou em outro. As chamadas "humanidades" no seu nome já incerto e vacilante de "ciências humanas" configuram-se quase como o embaraço dessa tensão. Entre o paradigma estabelecido e a crença aceita - o técnico e o espiritual - o estudo sistemático de temas que recusam-se a conformar-se à técnica e à espiritualidade aparecem quase como um confronto; quase como uma guerra entre céu e inferno que resolveria-se muito bem em um tipo de equilíbrio pré-estabelecido não fossem esses humanos ora divinos, ora diabólicos.
Que estejamos na universidade discutindo a morte; o sofrimento; a justiça; a virtude e a compaixão de pontos de vista francamente laicos é um ofensa por si só à uma noção de que se a religião não pode ter a razão, que ao menos não lhe tirem a ética.
Que estejamos na universidade fazendo ciência da morte; do sofrimento; da justiça; da virtude e da compaixão utilizando métodos hermenêuticos, analíticos ou construtivistas é uma ofensa por si só à uma noção de que o preço pela razão é o paradigma técnico.
O povo; violentamente arremessado nesse conflito, pois afinal, há de se lembrar, eles bem que fazem parte dessa tal "humanidade" que temos como objeto principal de estudo, ergue seus escudos. Acreditam possuir um tal senso comum ou uma tal sabedoria mundana cujo cinismo protege de todas as questões. Para os que se interessam pelo espírito, escolhem uma religião e prosseguem. Para os que não se interessam, resta apenas saber qual combinação de tempo trabalhando vs satisfação carnal fecha as contas no fim da vida. Se para Locke, qualquer um se ofenderia ao ser questionado o que entende-se por "vida"; para nós, há ofensa em dar valor para a questão (vida é a vida do médico, que me cura para eu poder voltar a rezar, trabalhar, beber); se para Pascal, era um tipo de frieza não lidar com a questão do espírito, hoje é uma frieza dedicar-se demais a ela (ou se abre a sensibilidade para a religião ou para a filantropia).
Para uns, estudar uma ciência humana é um sacrilégio. Retira-se da religião o seu direito sobre os assuntos que o positivismo autorizou a ela manter; trata-se de um desrespeito laico, uma brecha da própria liberdade de religião.
Para outros, estudar uma ciência humana é uma ociosidade. Desvia-se fundos da técnica séria para esses temas que no fundo são o que? Análise textual de ciências superadas? Cronologia de eventos passados? Jogos de palavras com termos abstratos?
E tantas outras críticas que os lados até compartilham, mas seja como for, a humanidades, sua mera existência é ilegítima. Depósito de jovens rebeldes que podem permitir-se a ociosidade às custas dos pais ou da sociedade em pesquisas que oscilam entre o desrespeito e o ilegítimo.
Aí a indignação se acumula: além de tudo querem quebrar a lei. Além de tudo arriscam a segurança dos outros. Além de tudo depredam o patrimônio público. Como podem fazer tudo isso, se sua própria existência já um favor que a sociedade concede; um que, a qualquer momento, poderia muito bem ser eliminado sem prejuízo?

As crises existenciais


Mas quais problemas estão resolvidos? Quais deles são discutidos?
Os cientistas e os religiões replicam um debate do século XVIII acerca da teologia natural que nem nos faz sentido, mas que faz parte de um teatro onde imagina-se discutir questões importantes que não resolvem nada. Os religiosos não dizem nada de relevante à ciência, querem apenas interferir; os ateus não dizem nada de relevante ao estilo de vida religioso, querem apenas interferir. O que esperar de niilistas diversos senão o ímpeto de expansão do vazio?
Todos os debates éticos caminham a relativismos irracionais. Não um relativismo consequente (relativo a X ou Y, dado que X e Y), mas o absoluto relativo da religião opcional (e nenhuma religião hoje pode-se dizer universal, o que faz dos seus absolutos absolutamente relativos) ou o absoluto relativismo do estilo de vida.
A questão da vida é uma matemática de quantos anos viver sabe-se lá por qual motivo além do básico imperativo biológico e animalesco: "deve-se viver".
A questão do sofrimento é um experimento social bizarro acerca de quantas combinações esquisitas de químicas no cérebro, de místicas importadas, de tradições e variações de cristianismo, prazeres sensuais diversos, vícios ou ausência de. Cada um virou uma bateria de testes onde todos julgam-se mutuamente no que parece ser um enorme campo de experimentações: "Eu vou tentar usar drogas na adolescência, aí ouvir Enia, então me converter ao cristianismo, no final ter uma crise de meia-idade e bola pra frente". Na medida em que avançamos (felizmente) ao tratamento de questões neuroquímicas específicas, há um completo descontrole no que diz respeito ao cotidiano. A bipolaridade e a esquizofrenia contam com seus remédios, enquanto isso, aumentam a lista de neuroses quimicamente tratáveis na esperança de um dia acharem o remédio para a pessoa normal. (e berram contra os "maconheiros")
Se o problema de épocas passadas eram insustentáveis disciplinas de vida que decaíam em hipocrisias diversas, o problema da nossa é esse insano cair de paraquedas na existência no meio de uma selva guiado apenas por um instinto de sobrevivência que diz que, afinal de contas, se eu andar sempre pra esquerda, uma hora eu saio desse lugar (e se me desviar pra direita, eu tenho que andar sempre pra direita; só não pode andar em círculos).
Além de questões realmente fisicamente existenciais.
E sobre a possibilidade do mundo literalmente acabar via questões ambientais? Isso também tornou-se um conflito partidário, vazio, absolutamente relativo ao estilo de vida.
E sobre a possibilidade de daqui há 10 ou 20 anos, o popularismo norte-americano, soviético ou de qualquer país possuidor de armas atômicas eleger um governante insano o bastante para ameaçar novamente o planeta? Idem.
Nós, como espécie, não temos ferramentas prontas para o tal "fim do mundo causado por nós mesmos", o que exige uma capacidade maior de reflexão e um debate mais sério e que, entretanto, é impossível de ser encontrado em um clima que as questões não podem ser postas sem o aval do cientista, do padre ou do modo como eu já vivo, cuja solução, portanto, tem que passar pela manutenção de um status quo individual.

O Ressentimento


Dados que os problemas estão aqui, seria de se esperar que o maior valor seria dado a quem dedica a vida a estudar esses problemas. O motivo que isso não acontece pode passar por alguma vias. Por um lado, nós da humanidades podemos também ser tão incompetentes quanto o resto em produzir respostas, mas esse é um motivo que, mesmo que seja verdade, não é o ponto em questão, pois as teses não recebem valor em primeiro lugar.
Não são teses descartadas após consideração, são teses descartadas por provirem das pessoas "que-estudam-isso-a-vida-inteira".
Irracionalidade? Mas é irracional dar-nos atenção, pois não somos a técnica do laboratório.
Frieza? Mas é frio dar-nos atenção, pois não somos os sensibilizados pela espiritualidade popular.
O que me parece acontecer é o abandono de um tipo de responsabilidade humana básica para com as questões importantes. A existência do estudante de humanas personifica essa responsabilidade abandonada por quem "já faz sua parte" repetindo os argumentos do padre ou do cientista ou do político ou do colunista de jornal ou etc.
A faculdade de filosofia não liberta ninguém das amarras da alienação (não gosto dessa impressão pela implicação que a acompanha de que eu posso diagnosticar que você está fora da realidade, pois eu sei como ela é. Isso é um caminho para um tipo de fanatismo filosófico; uma espécie de absolutismo esclarecido), o que ela oferece é familiarização com o debate humano por excelência e indissociável da civilização, em outras palavras, a faculdade de filosofia nos familiariza com o com a própria civilização por meio de suas ideias, do modo que a história o faz por meio do tempo, que a geografia o faz por meio do espaço, que a sociologia o faz por meio da intersubjetividade, que as letras o fazem por meio da uso estético e técnico da linguagem, etc.
Nós, das humanidades, não estamos mais dentro da realidade ou com consciência maior da realidade, estamos sim mais contextualizados conosco. E assim enfrentamos os problemas e as crises e dedicamos nossa vida a questões tão sérias cujas respostas fazem tantas faltas, ou seja, saciamos uma necessidade tão urgente que é como se fizéssemos nada além de ter o prazer que é a saciação da necessidade. Buscar respostas é sim um prazer, pois é sim a saciação de uma necessidade gravíssima; mas ela não precisa ser particular, não precisa ser um clube nosso, assim não precisa gerar essa inveja, esse ressentimento.
Sujeito corre pelas selvas olhando para o chão e para as árvores. Quer ter certeza de que não se desviou. Vê alguém caminhando e olhando para cima. Enfurece-se com a ociosidade de ter a cabeça nas nuvens, mas não se trata da obscuridade das nuvens; pare e veja o que estamos fazendo. Buscamos nos guiar pelas estrelas, é realmente um ato de localização, de familiarização.
Olhamos para cima, mas estudamos este mundo.

sábado, setembro 10, 2011

Alho

O relato a seguir trata-se daquilo que, em épocas passadas, consideraria-se um dos mais importantes e vitais, mas que aos olhos de hoje será seguramente tratado como uma curiosa anedota de um tempo mais inconsequente.
Como se sabe, o atual estado de imortalidade se dá pela alho. De todos os alimentos, o alho é o único que reage ao complexo químico que impede a divisão celular; este é, obviamente, o motivo pelo qual existe a Lei De Absoluta Defesa à Vida demandando que todos os alimentos ingeridos após os 30 anos contenha alguma quantia de alho, o que é irrelevante para todos os habitantes senão pelo inconveniente menor de comprar produtos diferentes no mercado, um pequeno preço pela imortalidade. Sabe-se também que esta mesma lei inclui a pena de morte à qualquer assassinato. Tal medida anteriormente não surtiria efeito, mas após o advento da imortalidade, a vida se tornou extremamente preciosa de modo que nenhum problema é grande demais que não pode ser resolvido com o tempo.
Não há amor ou rancor grande demais que não possa ser esquecido em 500 anos, o que levou ao fim dos crimes passionais, assim como os suicídios por esse mesmo motivo; não há pressa em conseguir dinheiro, portanto, não há porque cometer crimes em geral. A paciência se tornou a virtude última; o tempo, em sua infinitude, resolve todos os problemas e se a vida tornar-se insuportável há inúmeras maneiras de ir para outro planeta, comprar uma nova identidade e em cerca de 1000 anos sequer restará a lembrança da miséria anteriormente vivida.
O espaço tornado infinito pela viagem espacial e o tempo tornado infinito pela imortalidade. Esta é a história daquela que abdicou a utopia pelo paladar.
Os jornais da época deram ampla atenção ao caso, em via de regra com escárnio: Uma jovem brasileira de 18 anos tinha absoluta repulsa do alho. Não só não podia sentir seu gosto, como não poderia saber que ele estava na comida e, uma vez que a lei foi passada, tornou-se impossível não saber que em todos os alimentos o alho estaria presente, mesmo que o gosto fosse indetectável.
O primeiro passo da jovem foi buscar a justiça. Certamente poderiam abrir uma exceção à ela; entretanto, não poderiam por um motivo de antecedência: se uma exceção fosse aberta para ela, por mais grave que fosse seu estado psicológico, então outras exceções seriam abertas para outros e logo a solução perfeita de alimentar a todos com a química da imortalidade seria perdida, tornando uma questão de tratamento contínuo para uns poucos, criando uma desigualdade inaceitável logo nos primeiros dias da nova ordem.
Assim foi decretado que a jovem deveria superar seu problema alimentício ou envelhecer. No momento da decisão um certo debate surgiu em alguns círculos acadêmicos: teria esta sido a primeira pena de morte pós-imortalidade? Hoje podemos perguntar se teria sido a única.
Quando seu aniversário de 30 anos chegou, ela já era notícia antiga. Ninguém prestou atenção senão os oficiais presentes. Ela se recusou o alimento, nesse meio tempo havia na fazenda de seu avô uma plantação que a permitiria viver sem os produtos comerciais. Seu namorado, anteriormente 7 anos mais velho, agora era de sua idade, no dia posterior, ela era um dia mais velha. De todos os seus amigos do colégio, seus conhecidos nas baladas, seus amantes e colegas, ela era a única a possuir 30 anos e um dia de idade. Em breve seria mais velha que seus pais. Então mais velha que seus avós.
Esta é a história da última entre nós que morreu. As lágrimas daqueles que a amaram foram as últimas a cair pelo que antes entendeu-se como a única inevitabilidade. De certa maneira, a única entre nós a quem se perguntou o valor da vida e aprendamos algo quando descobrirmos o motivo pela resposta negativa.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Romantismo


Romantismo é um estado de época que exige um certo conjunto de forças em que a vida é avaliada de acordo com a sua própria condição de vida.
À primeira vista, isso pode soar como aqueles argumentos acerca da ociosidade onde se fala sobre o passo além da necessidade de sobrevivência, mas o amor jamais pode estar no estado de coisas dissociadas de uma necessidade de sobrevivência; ele vem, afinal, com toda a bagagem da reprodução da espécie e por aí que entendemos o seu valor como "vida".
O romantismo é um estado de época em que a vida é apreciada na sua condição de miséria, luta e ímpeto ao contrário de uma época tão desesperadamente afogada em miséria, luta e ímpeto que necessita sonhar com prosperidade, paz e autonomia.
O sentimento romântico, ultra-sensual, profundamente ligado ao corpo e à natureza, é acompanhado de um sentimento pagão incapaz de compactuar com a racionalidade pagã. O romântico não busca, como o epicurista, o prazer como via para a tranquilidade e definitivamente não busca, como o estóico, inserir-se na ordem do cosmo; o romântico, de certa forma, não busca nada, ele está, afinal, alheio ao conceito de autonomia. O romântico não é dono de si próprio e vê como pobreza de espírito ser dono de si próprio, não se trata de uma rendição ao desejo, mas do reconhecimento da condição de ser que deseja. Trata-se de não se enganar, mas, ao mesmo tempo, é uma sabedoria sem virtude.
O romântico, que reflita uma verdade, não tem na verdade uma virtude, pois a verdade não é buscada, ela, bem literalmente, encarna-se no romântico. A verdade também não leva à felicidade ou à lugar algum na verdade. É uma verdade destituída de noções de progresso ou retrocesso; como verdade encarnada, ela simplesmente é, ela simplesmente um caminhar no ciclo cego do desejo e da beleza
É como se a luz do sol não apenas cegasse, mas também queimasse a pele. O romântico, em sua união entre corpo, natureza e consciência, não tem escolha senão seguir os comandos no corpo na medida em que este segue os comandos da natureza ao passo em que são apenas presenciados pela consciência.
Sim, o sujeito transcendental põe o mundo, mas ele põe um mundo apesar de si. Como a monarquia contemporânea, ele senta em um trono meramente simbólico. O sujeito é a fundação e centro de uma nação que não comanda. É um mundo bem estruturado que é posto pelo sujeito: ele no mínimo é lógico, pois essa é a condição inicial desse ato de criar mundos com a mente e ele é ao menos passível de sobrevivência, pois essa é a condição inicial de se ter um corpo, então a vida não é de modo algum aleatória e intransitável, mas a consciência é ainda mais um peão ao invés de um rei ou mesmo de quem observa a partida, sim, a vida é um jogo de xadrez onde todas as peças são o peão (e ninguém, os coitados só ficam andando pra lá e pra cá esperando uma chance de ir pra diagonal).
O romântico não é um animal mais escravo do que o resto, mas ele é genuinamente o animal com uma alma. Uma alma que não se confunde com a razão, que é incapaz de abdicar da razão, que não se destaca da vida e que, em sua plena força de vida é, ao mesmo tempo, plena força de espírito.

sábado, agosto 13, 2011

A falta

O que a nossa geração ou nosso país tem a oferecer? Ou ainda, o que já oferece, o que já faz? Em algum momento crítica virou só falar mal: olha essa gente profunda e sábia dizendo que essa molecada não presta, olha esses críticos sociais guardiões da realidade de verdade dizendo que o país não presta.
Se existe um argumento pró-pessimismo é o quanto o equivalem à verdade.
Tenho pensado muito no Brasil, nas coisas que temos de bom, em como eu não tenho mais vontade de sair daqui. E eu gosto da minha geração, eu costumo é ter uma raivinha de algo irracional com as gerações passadas, acho que comparado ao quanto todo mundo errou até aqui, nós estamos segurando as pontas até que bem, fazendo nossa parte, tentando fazer o mundo mais habitável com pequenos atos aqui e lá enquanto os conservadores, esses eternos velhos, nos odeiam porque agora aparentemente é algo cristão odiar quem é bom ou sei lá. Acho que pra uma época que troca promessas de revolução sangrenta por promessas de reciclar todo o plástico, os conservadores deveriam beijar nossos pés pela nossa imensa sabedoria.
Mas os ingratos fazem parte do mundo, fazer o que?
Eu já falei disso algumas vezes no blog, mas é que com todo esse meu lance de pessimismo cosmológico (o mundo existe de tal modo que tende ao sofrimento), esse pessimismo meramente cínico é só rabugentice e eu manjo de rabugentice, pode perguntar o quanto eu fico grunf grunf por aí.
Por um lado é meio que falta de um inimigo de verdade, da mesma forma que a esquerda pamonha sente falta de lutar contra a ditadura, a direita pamonha sente falta de lutar contra o comunismo. É um mundo chato, deal with it.
Por enquanto, críticas interessantes deixam de ser feitas por todos os lados e coisas como o que aconteceu em Londres pega de surpresa os nossos gloriosos pensadores. Você dedica sua vida a falar mal de uma juventude tentando substituir Deus por shenanigans e enquanto está puto da vida com essa gente que gosta de reciclar e evitar piadas racistas, perde o ponto mais óbvio diante dos seus olhos: a massa de jovens que são efetivamente niilistas adquirindo cada vez mais poder. Sim, perde de vista o seu sobrinho ou seu filho e ao invés disso se concentra na classe média-alta paulistana.
Existe algo que falta no mundo, é verdade; Deus é, pra não perder o hábito, a resposta mais preguiçosa (algum tipo de marxismo mal formulado é a segunda mais preguiçosa, geralmente vem logo atrás, toda feliz), mas existe uma falta de normatividade, pro bem ou pro mal (pro bem: menos pessoas honestas e "de bem" são vistas como anormais; pro mal: qualquer pirralho burro de 12 anos acha que consegue desenvolver a própria moral e ainda pode ter o azar de ele conseguir algum poder sobre outras pessoas), essa não é nenhuma crítica nova, a sociedade entrou em um tipo de piloto automático em que as instituições funcionam à parte delas. É irônico porque é um projeto bem sucedido da democracia: instituições mais fortes do que a mesquinharia de um indivíduo de tal modo que a humanidade deu um jeito de produzir mesquinharia tão sistematicamente que sequer precisa do rei mais.
Perdemos a translação porque o sol não é mais o centro, mas a rotação existe firme e forte porque onde quer que você vá, seu umbigo está sempre no meio. Se fanatismos e extremismos são sinais de niilismo, pois no vazio, coisinhas tornam-se imensamente importantes, então estabilidade é também, pois uma época niilista funciona sem problema desde que os mecanismos estejam postos. E os nossos estão bem fixadinhos no chão.
Ao mesmo tempo, é esse ambiente mole e morno que permite que coisas boas aconteçam aos poucos, sem afobação e derramamento de sangue. É uma época boa pra filosofia, sim, a filosofia se dá bem na conformidade. Muita crise e logo os filósofos são convocados para auxiliar o poder, aí danou-se. Pouca crise e podemos estudar o mundo desse modo que as pessoas gostam de dizer que é inútil (quando você precisa que os filósofos sejam úteis é porque todo o resto falhou).
E os jovens niilistas e a revolta em Londres e os terroristas religiosos e a crise econômica? Pois é, com tudo isso e ninguém sente seu estilo de vida seriamente ameaçado, um mundo estável, eu diria.
Dá até pra fazer metafísica.

Adendo já que eu estou revisando esse post, pois minha namorada se re-cu-sa a colocar um texto cheio de erro de concordância no facebook sagrado dela:
A questão de uma juventude com poder é interessante. Durante sei lá qual momento ganhou força a noção de ter jovens "no poder".
Em primeiro lugar, nós nem sabemos o que é um jovem: alguém com 15 anos? Com 20? Com 25? Com 35? Quando alguém deixa de ser jovem e vira um conservador ranzinza? É daquelas bobices em que "jovem" é ainda mais uma palavra para "pessoas com nosso direcionamento político". Não, ninguém quer um jovem no poder. Se você é de esquerda, quer o poder na esquerda; se é de direita, quer o poder na direita; jovem, velho, burguês, proletário, analfabeto, acadêmico, humilde, arrogante, violento, pacifista, etc e etc só são qualidades na medida em que respeita a primeira condição da concordância com suas opiniões em assuntos de legislação. O que importa é como a máquina do Estado é comandada, o resto é a sempre bem sucedida retórica vazia.
Jovens no poder pra mim é simplesmente isso: gente sem informação o suficiente inventando a própria moral em uma cultura de arrogância sem motivo, i.e., seu papai ou seu professor disse que você é todo especial e pode fazer o que quiser, então você se junta com seus amiguinhos e começa a queimar uns carros ou você aprende a mexer em um computador e começa a com hacker-bullying, seja em empresas que você considera malvadas, seja em meninas que você acha que realmente deveria se mostrar na webcam sem roupa pra você ou você faz coisas mais inofensivas e com menor relevância como se juntar a um partido político que vai te ignorar ou montar uma banda pra passar uma mensagem que tudo bem que será ignorada pelos adolescentes que só estão atrás de romancezinho na balada, pois a mensagem é inócua e boboca pra começo de conversa.
A questão é que vivemos em uma época em que os jovens não estão entrando "no poder", mas eles estão adquirindo poder, seja por falta de medo de coerção paterna ou por estarem entediados em grande número ou pelo anonimato da internet, mas juventude com poder é o que há de maior selvageria e irracionalidade fora de uma guerra de verdade. E não é muito poder, não é nada que abale "o sistema", só é o suficiente pra destruir umas vidas aqui e ali. Não é o poder de mudar nada, mas é o poder de ser escroto impunemente; o que casa direitinho, pois essa tal da juventude, num geral, não deseja muito mais além de ser escrota.

quinta-feira, julho 21, 2011

Infantilização

Nos círculos conservadores, vez ou outra surge o tema da "feminilização" da sociedade, o que nunca ficou claro pra mim exatamente o que é, só dá a impressão que o objetivo do autor é transformar a sociedade em um viril ambiente de narcotráfico onde tudo se resume em acumular dinheiro e mulher por meio de um exército armado, violento, amoral e fora da lei. Sim, tenho certeza que é isso que os conservadores querem.

Mas se existe uma consequência de certas práticas que os conservadores não gostam - a escamoteação da cultura de responsabilidade individual por exemplo - não é bem uma feminilização, mas uma infantilização. Acho que os conservadores tem um certo ponto de que a sociedade está perdendo sua virilidade, mas, senso conservadores, o objetivo principal de qualquer verdade que por acidente caia em seus colos é o de ataque à alguma minoria e o da preservação de um tipo de status quo bizarro que existe tão somente na cabeça deles, então vão atrás das feministas e dos gays, enquanto eu acredito que o problema é exatamente este: a falta de responsabilidade individual é igual à falta de responsabilidade individual. Eu sei, insano!

Muitas das coisas vistas como causas dessa falta de responsabilidade individual - excesso de discurso politicamente correto, redes de segurança social - são, na verdade, sintomas. Por faltar a maturidade de não fazer piadas com pessoas que já sofrem demais que o legislativo entra em cena, por faltar a maturidade (e profissionalismo) de tratar as pessoas com dignidade no ambiente de trabalho que leis trabalhistas são criadas; na falta de profissionalismo da policia que os direitos humanos ganham força, etc.

Um estado paternalista não é causa de uma sociedade que precisa de uma figura paterna, mas antes, um sintoma disso e se é possível, a partir disso, inferir uma feminilização, é porque de fato falta na sociedade uma força viril, mas essa força viril não é do homem que se torna mulher, mas das crianças que jamais se tornam homens. Se há quem olha pros nerds e seus jogos de videogame (pff, esses nerds) ou pros moderninhos e sua vida cínica e diz "ah, olha esses homens que nunca crescem", eu diria que esses são simplesmente pessoas honestas e vivendo o seu tempo: os engravatados são como meninos vestindo sapatos grandes demais.

Acho que em certo sentido - pois eu tenho mesmo uma visão de certa forma uniforme da humanidade - nunca houve essa tal de "maturidade". Que infantil, por exemplo, essa brincadeira de padres, reis, rainhas, ditadores, etc que causaram tantas guerras no curso da humanidade. Essa guerra tão associada à virilidade é uma mera brincadeira de menininhos, maturidade envolve paciência, racionalidade, diplomacia, etc. As crianças irritam os adultos, podem lhes tomar toda a atenção, podem lhes distrair dos assuntos sérios: assim é quando as boas e saudáveis mentes de um tempo são forçadas a dedicar sua atenção à pequenezas políticas da época. As crianças recusam-se a brincar juntas; o adulto deve intervir. As crianças não decidem-se quem é o dono do carrinho; o adulto deve intervir. As crianças são malvadas pelo prazer da maldade; o adulto deve intervir. A diferença do cenário social pro cenário doméstico é que no cenário doméstico, em última instância, o adulto tem a força - claro, a criança não tem uma capacidade plena de raciocinar, às vezes deve-se descer ao nível dela - em termos de sociedade, são as crianças as possuidoras das armas e do dinheiro: segue-se o triste caminho de tentar dialogar com quem não sabe falar, pois sabe apertar um gatilho ou realizar um trabalho bem-pagante qualquer.

Assim que desenvolvemos toda uma cultura de falar com adultos em linguagem de bebês: livros de auto-ajuda dizendo que tudo vai ficar bem, pode parar de chorar. Livros dos mais diversos assuntos dizendo que você é o fofuchinho mais bonito de todos os tempos e que os outros meninos são maus, grr, muito maus e feios também. Muito dos livros "técnicos" de uma livraria não passam de "alugue-um-argumento" para fazer bonito quando você entrar na internet.

Lendo os aforismos sobre a sabedoria de vida de Schopenhauer e tantos outros livros sobre sabedoria de vida que são lançados por aí percebemos claramente a diferença entre maturidade e infantilização: no primeiro recomenda-se autocontrole, conformidade com o sofrimento inevitável, que se dê valor à saúde e ao temperamento, que não se valorize tanto honrarias e posses; os outros são guias práticos de como adquirir aquilo que você nem sabe se quer, regras para ser feliz a todo custo, que se valorize qualquer coisa que sua vontade aleatoriamente deseje. É a diferença entre um adulto caminhando no mundo e uma criança chorona que acha que o próprio umbigo é o centro do mundo.

É bom que filósofos não tenham armas - isso aparentemente só acontece quando a humanidade deseja novas formas de genocídio - assim como é desejável que jamais se aplique violência contra as crianças (e quando o faça, que seja com bom senso - é pela falta de bom senso e maturidade na aplicação de força contra as crianças que o estado acaba por legislar o assunto) e na medida que a humanidade não se extinga, o que é uma preocupação real dado que as crianças detém as bombas atômicas, serão poucos os adultos e frequentemente serão ridicularizados por não estarem usando calças longas (das estupidezas de épocas que não a nossa: definir maturidade pela calça).

Há quem ache que um mundo infantil seria colorido e cheio de algodão doce, mas não, um mundo infantil é esse mesmo, onde tudo o que é pequeno impera. Que as crianças brinquem e se matem então, o que eu posso fazer? Só gostaria que saíssem do meu gramado.