sábado, março 12, 2011

A felicidade como argumento

A felicidade é a pedra de toque de toda argumentação ética egoísta. A menção da felicidade pode até servir para identificar uma doutrina como essencialmente egoísta.
A felicidade é um tipo de bem especialmente individual, o conceito geral de felicidade é completamente vazio, ela aplica-se tão somente ao indivíduo. Fala-se em bem geral, até personifica-se o "Bem", mas é mais difícil compreender a noção de uma felicidade geral ou do que seria a "Felicidade".
Discorda-se do que, exatamente, seria o bem geral, mas o conceito é discutido. Quanto a felicidade, não há a discussão, a felicidade é um sentimento particular.
O cristianismo fala em altruísmo e fala em compaixão, pois se não falar e falar, resta apenas a promessa da felicidade eterna, tão-somente a recompensa individual oferecida no pós-vida. Dos sermões da igreja que ouvi, o que mais me chamou atenção é o que diz que não se pratica o bem para ir até Jesus, mas se está com Jesus, logo pratica o bem, pois é um momento raro de inversão de sua base egoísta. É um momento que abraça a falta de lógica da ética e esquece um pouco o racionalismo sem razão tão caro aos católicos.
Pratica-se o bem não como condição para a felicidade futura, mas simplesmente por estar em contato com este, ou seja, por si só, ou seja, sem causa. Mas mesmo esse lapso segue-se da habitual pregação sobre felicidades futuras e o cristianismo é recoberto em egoísmo mais uma vez.
A felicidade, sendo um conceito vazio, adapta-se como recompensa universal e, portanto, estímulo universal para se praticar qualquer coisa que uma ética indique. Que Deus a ofereça em infinita quantidade não deve ser surpresa, pois tal conceito tem o costume de ser o gerador de infinitos vazios.
Quanto às outras éticas que fazem uso da felicidade, como a utilitarista que até busca um pouco medi-la, elas não prometem altruísmo e compaixão em primeiro lugar. As doutrinas socialistas colocam a teoria à prova, pois quando um grupo de indivíduos promete um tipo de felicidade geral, acaba-se com um país na mais profunda miséria, com toda a felicidade concentrada apenas neste pequeno grupo de indivíduos.
Das promessas que nossa civilização faz e quebra, a felicidade está entre as principais. E afinal, como é difícil fazer valer essa promessa, o que se pode esperar de um conceito vazio que propõe algo antinatural e absurdo como um pleno bem-estar?
Há sempre algum sofrimento, alguma dor, alguma tristeza, mesmo na euforia, mesmo na realização dos sonhos, mesmo no saciar constante de todas as necessidades, o tédio se impõe eventualmente.
Imaginemos um paraíso: todas as necessidades físicas se foram, você ainda não se preocuparia com os outros que sofrem? Com os que ainda não estão salvos?
Eliminemos a compaixão de nosso paraíso - o exercício mental mais fácil do planeta - você não sofreria com suas memórias? Com seus arrependimentos? Desejos de vingança?
Eliminemos as memórias ruins. Uma parte de você foi destruída, ainda assim. Você não sofreria com a saudades dos tempos bons? Com a nostalgia?
Eliminaremos as memórias boas? Destruí-lo totalmente e fazer de você uma massa amorfa de sensações boas é a felicidade? Eliminaremos o tempo e chegaremos ao mesmo resultado: um tipo de nada que misteriosamente retém a capacidade de ser feliz; uma felicidade indefinida - e impossível de ser pensada - por ocorrer fora do tempo.
Cada vez que nos aproximamos mais de um tipo de felicidade eterna, entramos no reino das não-coisas, do inexistente. Então não é de se espantar que as doutrinas recorram ao Inexistente para garantir tal felicidade.
Por fim, pra quem ainda marca pontos em algum placar entre o bem e o mal, pode-se pensar o seguinte: se a felicidade é o supremo desejo dos egoístas, na falta de algum outro tipo de justiça, pode-se garantir ao menos que o excessivamente egoísta jamais cumprirá seu desejo.

segunda-feira, março 07, 2011

A internet não é tão legal.

Eu uso a internet desde maomenos os 12 anos. Isso foi há OMG 13 anos atrás. A internet era bem novinha, então. As páginas pessoais tinham aqueles endereços enormes do geocities, a gente passava uma noite inteira baixando uma única música, filme nem pensar, quando muito, passar a semana baixando um filminho pornô de 10 minutos.
A minha conexão era por meio de uma BBS do ABC paulista e essa BBC tinha um sistema de chat interno e as pessoas meio que se conheciam lá. Tinha um fórum que eu frequentava onde pessoal dizia como ia salvar o mundo e porque todo mundo estava errado.
De lá pra cá a internet mudou tão-somente em quantidade. Mais gente, mais páginas pessoais (que acabaram por metamorfosear em blogs e páginas de redes sociais, mas a mesma coisa: "quem sou eu, o que eu gosto, porque eu estou certo e você errado"), mais música, mais pornografia, maior área de alcance, mais de tudo, mesma coisa.
Eu conheci minha namorada pela internet, ela lá do Sul; hoje moramos juntos. Não daria sem a internet.
Não estou fazendo o post pra dizer que odeio a internet e que ela não é bem bacana, é só pra dizer que ela não é o catalisador que trará a era de aquário (nada é).
As coisas mais bacanas que aprendi no mundo foram de modo habitual: universidade, livros da biblioteca, livros comprados no sebo ou na livraria, mais ou menos caros; lembrando que nessa época eu já tinha internet há um tempo.
O que eu quero dizer é que é praticamente irrelevante ter todo o conhecimento da humanidade na ponta dos dedos sem que algo guie seus dedos até ele e esse "algo" é bem difícil e complexo; se você acha que fóruns que discutem assunto X são uma boa idéia, há uma chance enorme de gente meramente leiga e arrogante te direcionar a algum tipo de pseudo-conhecimento panfletário; seja panfletario do anarcocapitalismo, psicologia evolutiva ou o que for.
Uma teoria particular que eu tenho da internet é que a maior quantidade de informação leva a pessoa a se aprofundar mais - e refinar mais - seus próprios preconceitos; entenda, a tendência é a pessoa buscar informação horizontalmente - ela é liberal, então ele vai atrás dos liberais, aí dos liberais mais obscuros, aí dos liberais radicais, aí dos argumentos liberais, aí das explicações liberais, aí das vertentes liberais, etc - e não verticalmente - ela é liberal, então dá uma olhada nos socialistas.
Quando você por acaso encontra alguém "do outro lado", geralmente já é no meio de combate. É alguém dizendo como e porque você não só é burro, como mau, não só mau como burro, etc. Afinal, a timidez e o medo naturais que vem em conversar face a face com alguém são ferramentas favoráveis à razão. Arrogantes arroganteando-se entre os arrogantes não leva a nada.
Até onde eu sei, a internet avançou 0 debates. Ela também gerou 0 revoluções, caso alguém que ache que o que anda acontecendo no mundo árabe é por causa do twitter e não, tipo, gente cansada de viver sob uma tirania.
Não teria minha namorada sem a internet e não conheceria minhas bandas favoritas. A internet é uma ferramenta excelente. Mas ela não contribuiu (nem contribui) com minha formação, nem intelectual, nem cultural. Amo amo amo minhas bandinhas twee inglesas dos anos 80, mas não dá pra usar elas pra justificar a internet como ferramenta que leva a qualquer avanço espiritual meu. Amo amo amo minha namorada, mas sei lá, se você acredita em alma gêmea, então nos encontraríamos de alguma forma por aí, se não, encontraríamos outras pessoas (continuamos encontrando outras pessoas, mesmo juntos, então...).
Então é isso, o post, de novo, não é pra dizer que a internet não seja legal, mas ela não é *assim tão legal* que ela vai tirar os povos da ignorância e trazer o mundo junto e derrubar as tiranias e coisas do tipo.
Ela me dá acesso a um bocado de informação, mas dizer que eu preciso da internet seria dizer que eu tenho tempo de ler e estudar todos os livros de papel que eu tenho acesso, o que é uma mentira - ou dizer que a internet pode me oferecer obras que eu não encontro em papel, o que é uma meia-verdade em um único caso, em que a obra que encontro em inglês na internet, está disponível em espanhol por aqui. E se existe algum povo miserável que não tem acesso aos livros de papel, então: 1 - eu não sei se é uma boa idéia dar computador ao invés dos livros em questão e 2 - eu não sei porque acreditar que a internet seria usada pra pesquisar grandes idéias ao invés de quem vai na festinha de hoje à noite.
Mesmo por ser algo desconfortável ler numa tela, se o problema é que as crianças não estão lendo seu Machado de Assis, eu recomendaria pelo menos a versão em quadrinhos antes de recomendar ficar encarando uma fonte de luz por 200 páginas (btw, a fonte de luz que sai de um reader é meio que feita pra isso. A do seu monitor não).
A internet é tão boa em unir os povos quanto a bíblia de Guttenberg foi em unir os cristãos. Dar uma voz às pessoas geralmente significa dar uma voz aos seus preconceitos; uma pessoa com seu preconceito sozinha é sabiamente tímida em relação a ele, na internet, ela forma um tribo e boa sorte acabando com qualquer mistificação que seja nos próximos 500 anos. Durante um momento da internet (meio que com o orkut), as pessoas se espantaram com o surgimento dos conservadores de direita. Bem, eles sempre existiram, só aconteceu de agora eles se organizarem em tribos irracionais e arrogantes como a esquerda se organizou desde sempre. E o lance de uma tribo é a destruição ou o recrutamento, o resto é um detalhe que talvez ocorra por acidente.
E se você recruta o bastante pra fazer uma revolução, você ainda precisa sair na rua e levar tiro e essa coisa toda, a internet, nesse caso, não esclareceu nada ou acabou com nenhuma alienação, ela só serviu como o panfletão que é, se alguma coisa, um panfletão com um IP gravado faz a polícia ter um trabalho mais fácil.
Então é isso. A internet é bacana, você conhece pessoas, e serve basicamente só pra isso, quando serve pra isso.
Tchau, vou dormir.

quarta-feira, março 02, 2011

Auto-estima

Um tempo atrás, eu li numa dessas listas de internet um argumento até que bom contra auto-estima. A lista era de algo do tipo"6 besteiras da psicologia" e uma delas era que auto-estima faz sempre bem, quando na verdade, gente com a auto-estima sempre alta costuma ser escrota, pois é o tipo de gente mimada, que nunca admite erros, que é arrogante, etc.
Se existe uma jogada certa de ganhar público - e como estudante de Schopenhauer eu bem sei disso - é dizer que há poucos sábios e muitos burros, porque 99% das pessoas que lêem aquilo que vão achar que fazem parte dos poucos sábios; ninguém lê Schopenhauer dizendo que ou se nasce gênio ou já era e pensa "ah, que droga, eu não nasci nada genial, serei bem medíocre nessa vida". A pessoa sempre se sente feliz achando que Schopenhauer está comprovando a genialidade dela quando, na verdade, ele está dizendo que, estatisticamente falando, as chances de você ser um gênio são baixas.
Não estou defendendo que ninguém se odeie, nem nada do tipo, é só que, se eu puder dar um conselho (e se filósofo não fica ensinando os outros a viver, como é que ele ganha seu pão/status/ego?), ache-se um imbecil e parta daí.
Ache-se um completo idiota e aí tente, bem aos poucos, provar-se do contrário. E se você não conseguir, tudo bem, ao menos agora você sabe que é um idiota, o que é mais sabedoria do que possui a grande massa de idiotas.
Meu estado neutro é me achar uma pessoa bem imbecil, frustrando-me o tempo todo com minha falta de capacidade e intelecto, aí às vezes eu faço uma coisa legal ou eu penso alguma coisa interessante e fico bem por um tempo, até voltar ao neutro. Esse blog tem toda uma coleção de idiotices.
Sei lá quantas vezes eu ofendi as pessoas, um dos meus posts mais visitados é um que falo em "extremo anti-sionismo do idelber", o que é uma babaquice que foi escrita num momento tenso sobre um assunto naturalmente frustrante (não por acidente, esse texto foi linkado uma ou duas vezes como se eu fosse uma autoridade no assunto. Protip: não sou).
Mas outros dos meus posts bem visitados são os resuminhos sobre pré-socráticos que eu fiz uma época em que os estava estudando e esses ficaram bem bacanas; são sussas, introdutórios, enfim. Sentir-se bem consigo próprio deve ser, eu acho, uma recompensa por fazer coisas bacanas. Há um problema quando não conseguimos sentir orgulho dos nossos acertos; mas o contrário - sentir orgulho de si próprio fazendo nada de interessante - é pior, na minha opinião.
O primeiro caso é um problema particular, uma neurosa, depressão, whatever. O segundo caso é um problema social, pois gente que é arrogante sem motivo é um problema para os outros: elas erram mais e seus erros devem ser arrumados por terceiros; elas entram em conflitos, pois acreditam-se sempre com a tocha da moral nas mãos; elas sentem que tem direitos e mais direitos por serem o floquinho de neve especial que são. Não que essas coisas não sejam universais, não que não sejamos essa pessoa irritante de tempos em tempos, é só que o estado neutro da pessoa com auto-estima é o de ser escrota.