sexta-feira, agosto 31, 2007

Coisas belas por demasiado belas.

Eu gosto de músicas bonitas, histórias bonitas e filosofias bonitas.
Eu me sinto tão feio... por fora e especialmente por dentro.
Eu me sinto mau e eu me sinto não merecedor do pouco que eu tenho ou do tanto que eu tenho.
Então eu tento ouvir músicas bonitas, criar histórias bonitas e ler filosofias bonitas... embora, de certa forma, toda boa filosofia seja bonita.
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Eu gosto da beleza da filosofia kantiana por ela ser tão implacável, por ela abrir e fechar tantas portas, por ela mostrar a possibilidade desse mundo das coisas em si, o qual nossas regras humanas não se aplicam, mas que é o mundo onde, afinal, vivemos.
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Eu gosto da beleza da filosofia de Schopenhauer por ser, de certa forma, tão desesperada.
Como é esse mundo que vivemos?
Ele é conflitante, ele é desejante, ele é violento e, mesmo assim, ao entrar em contato direto com ele, por meio da beleza, você consegue, naquele breve segundo, se livrar do sofrimento.
O sublime é a superação do sofrimento por meio de sua afirmação no grau mais alto.
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Eu escrevo historias de amor porque elas são uma parte de mim que eu gosto.
Eu gosto de amar e eu não tenho (ou não quero ter) vergonha de amar várias pessoas.
Eu me apaixono pelas pessoas paradas no ponto de ônibus.
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Eu sou uma vítima do grande cansaço.
Eu quero desligar minha cabeça.
Eu quero parar de pensar por um segundo.
Vocês sabem o que é a vida sem um único segundo de relaxamento?
Sem um único segundo sem que minha cabeça voe pra lá e pra cá?
Eu estou cansado e eu quero desligar tudo.
Eu faço tão pouco e eu já sinto o peso do universo. Da realidade.
Eu sou o fraco de Nietzsche.
Tão fraco.
Eu fracassei e eles estão rindo de mim.
Eu deveria ter feito direito, ter me dedicado a "pegar minas", escrito histórias de "cunho social", escolhido uma namorada, ter passado na USP.
Eu escolhi a filosofia, eu escolhi me apaixonar pelas pessoas na pista de dança, eu escolhi escrever historinhas de amor, eu escolhi o poliamor e eu não escolhi não ter passado na USP, mas eu nunca quis muito pra começo de conversa.
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Eu me sinto mau e eu me sinto feio e eu gosto de coisas bonitas, mas às vezes elas estão tão distantes e às vezes elas estão tão perto e eu queria todas as coisas bonitas perto de mim.
Eu gosto da Helda.
Eu gosto da Carol.
Eu queria abraçar as duas ao mesmo tempo.
Eu não entrei nessa pelo sexo a três, eu entrei nessa porque eu me apaixono por muitas pessoas e eu acho crueldade ter que escolher entre elas e eu acho crueldade mentir por não conseguir escolher.
Eu nunca traí uma menina.
E eu sonho (literalmente e não) em estar de mão dada com as duas, andando pela paulista, com nós três rindo.
Porque é tão dificil simplesmente rir?
Porque essa paranóia de que eu não vou conseguir "dar conta"?
De que eu não vou dar atenção o suficiente?
Afinal, quem tem exclusividade?
Uma pessoa não vive pela outra, não pensa 100% do tempo na outra, ela pensa na outra, nos sonhos, no trabalho, nas coisas bestas.
Eu prometo estar lá por quem eu me apaixonei.
Eu prometo estar lá por quem eu disse coisas bonitas, porque eu não as digo de graça (mas talvez eu as diga só pelo fator dramático).
Mas esteja por mim também, faça uma forcinha por mim pra fechar os olhos pra essa feiura que a sociedade impõe e viver comigo esse momento bonito.
Arranjem outros namorados vocês também. Vamos sair todos juntos. Vamos ficar de mãos dadas e rir.
Porque meu sonho é seu pesadelo?
Isso me mata e eu não quero morrer assim.
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Eu me sinto fraco e triste e eu não quero mais me sentir assim.
Eu sei que nunca vou ser bonito, mas eu espero um dia produzir coisas bonitas o bastante.
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"coisas bonitas"
Que esse seja o objetivo dessa minha alma de hoje e que ela morra quando for seu tempo pra que outra nasça com outro objetivo.
E que esse outro objetivo seja também belo.
Que nossa vida seja bela.

sábado, agosto 18, 2007

A menina dentro da história em quadrinhos

Eu escrevo histórias em quadrinhos.
E em muitas dessas histórias, eu fazia questão de colocar uma personagem.
Ela era, de certa forma, o pontinho de perfeição nesse mundo imperfeito que eu criara para que a história fosse interessante.
Ela não era perfeita em nenhum sentido que as outras pessoas entederiam, mas ela era ao mesmo tempo alguém que eu queria ser e alguém com quem eu gostaria de estar.
Ela tinha cabelo curto, era divertida, ela aguentava sem problemas a leveza do ser e essa talvez fosse a parte que eu gostava nela, que ela nunca fazia tão parte da história principal a ponto de ser absorvida pelos problemas, as poucas histórias que eu fiz com ela como personagem principal tinha problemas levíssimos, pois ela não deixaria que o peso de problemas sérios se tornassem pesados, ela apenas permitia que pequenas coisas tivesse algum peso e os carregava assim, só por diversão, enquanto tudo o que é grande e grotesco, ela carregava sem problemas.
Na verdade, talvez tivesse acontecido algo a ela que a deixou tão forte, mas eu não sabia, pois nunca tinha escrito sobre seu passado.
Eu queria conhecê-la e eu pensei que, se eu próprio fosse um personagem de uma história em quadrinhos, seria interessante que algo mágico ocorresse e eu entrasse dentro do meu próprio universo ficticio só para conhecê-la.
E então aconteceu.
Eu entrei dentro da minha história.
E lá estava ela.
Eu gostaria de dizer que foi tão difícil falar com ela quanto é com qualquer menina interessante que você encontra na balada (boa parte de minhas histórias acontecem em baladas, então foi em uma dessas que eu apareci), mas foi mais difícil ainda, logo veio o peso todo das expectativas e possibilidades e mesmo que eu gritasse para mim próprio que eu a havia criado, de certa forma, com o único intuito de ser uma pessoa perfeita que se apaixonasse por mim, eu ainda tinha medo, medo talvez de não ser eu mesmo o suficiente para que ela se apaixonasse por mim, pois eu tinha certeza que não conseguiria ser eu mesmo, estava tão nervoso que nem sabia exatamente quem era esse eu e com todas as mudanças de humor e personalidade, ela mudava muito também, como eu poderia saber qual "eu" ela queria?
O pensamento era demais.
Então ela veio e falou comigo.
Ela -- falou -- comigo.
Ela iniciou a conversa.
Quem quer que estava escrevendo minha história foi sábio o bastante para deixar nossa bebida preferida em cima do bar (gin tônica para quem se pergunta, porque é como um milhão de flores na sua boca tentando fazer você vomitar) e ela veio, perfeita, com os braços esticados e falando como um zumbi (ótimo! Só recentemente eu passei a gostar de filmes de zumbi, quer dizer que ela está atualizada em relação aos meus estados mentais) "giiiin toooonica" e essa foi a primeira vez que eu ouvi sua voz e eu lembro de ter esquecido que estava dentro da minha própria história, lembro de ter esquecido que estava no mundo, lembro de ter esquecido que era uma pessoa confusa e triste incapaz de viver no presente, eu estava lá, naquele momento, naquele lugar, ouvindo ela imitar um zumbi e pensando "eu quero ouvir essa voz para sempre".

- Você não vai oferecer bebida pra menina bonita, não?
- Eu... desculpa...
- Que fofinho, ele é timido, é homem, nem um pouco macho, mas... camiseta do blondie? Mas você precisa passar em inumeros testes de coragem e sabedoria para usar uma camiseta do blondie! Quantas pessoas você vê por aí com uma camiseta do blondie? Nenhuma! Por que elas não merecem! E aqui vem você todo bobão, gaguejando na frente de meninas bonitas que pedem bebida e usando uma camiseta do blondie! Isso é inaceitável! Completamente inaceitável!

(camiseta do blondie? Quem quer que estava escrevendo essa história é um gênio! Porque é claro que nós três [eu, ela e o escritor] sabíamos que frase deveria se seguir)

- É que o blondie é a única coisa boa que surgiu do movimento punk.

E o resto da conversa fluiu como um roteiro.
Cada frase se encaixava perfeitamente com a anterior.
E ela era feliz, mal educada, poderosa, deliciosamente tudo aquilo que eu precisava de antidepressivos para me lembrar que eu nunca poderia ser.
E ela, de forma linda e sutil, não se considerava esse monstro capaz de engolir todo meu mundo com uma só dentada, ela se dizia "uma menina bonita" e afinal, ela era, mas ao se definir como "uma menina bonita", ela dava a todas as meninas bonitas do mundo um poder que elas simplesmente não tinham e, de certa forma, ela sabia disso e, de certa forma, essa era sua pequena contribuição ao feminismo.
(mas havia o cuidado de ela não se dizer só "uma menina", pois isso seria uma contribuição grande demais para um movimento que não merece tanto assim seu respeito)

Nós combinamos de sair outro dia e eu voltei pra casa, minha casa ainda era no mesmo lugar, logo não havia uma diferença muito grande entre o universo dela e o meu, alguma geografia era diferente, mas nada drástico, as estações do metrô ainda eram as mesmas e portanto eu conseguia chegar em casa mesmo que o tal bar fosse inexistente na minha realidade.

Nós continuamos saindo durante algum tempo e nada acontecia, ela era forte demais para deixar esse sujeito besta que vos fala se aproximar dela e o sujeito besta era, bem, besta demais para ter alguma iniciativa, mas, de certa forma, tudo bem.

Eu tentei ficar com ela uma vez, só para tirar esse peso dos ombros, ela olhou pra mim e disse "você não vai conseguir" e sorrimos, pronto, eu não queria mesmo, eu não queria manchar a perfeição dela com eu mesmo.

Ela ficava com outras meninas bonitas e com caras interessantes, nunca com pessoas que não a mereciam, nunca com pessoas que haviam simplesmente a enganado, nunca com pessoas no seu próprio nível porque não havia ninguém no seu nível, todos eram indignos dela, mas ela ficava com eles mesmo assim, se eles provassem ter um coração bom (ou pelo menos tanto coração bom quanto é possível bêbado e ouvindo a mesma discotecagem de baladinhas indie pela enésima vez [quantas vezes é possível ouvir "love will tear us apart" sem se cansar? Esse parece ser o propósito cientifico dos DJs - a resposta ainda não foi encontrada] ).

Conversando com ela, eu pude conhecer seu passado e foi impressionante o quanto eu me impressionava, eu a havia criado e ela me dizia coisas que eu não sabia, eu não lembro delas agora, talvez seja algo além do meu alcance, talvez ela, como personagem, não possa ter um passado, pois parte da beleza dela era viver tão no presente e foi enquanto ela falava que eu me dei conta de algo.

Ela tinha esse imenso dominio sobre mim, perto dela eu desaparecia, eu era simplesmente "o amigo", o acompanhante e isso me deixava mais feliz que qualquer coisa, acho que era sobre isso que Schopenhauer falava quando dizia sobre o sublime que vinha da negação da vontade. Ela era uma obra de arte em forma de ser humano, não só sua forma, mas seu pensamento, oras, ela era parte de uma história, é lógico que ela era arte e, como tal, ela fazia eu esquecer de mim, ela fazia eu me perder em momentos de puro êxtase.

Mas enquanto ela me contava seu passado, que era algo mais maravilhoso do que eu poderia criar, eu me dei conta que eu sabia algo que ela não sabia.
Eu sabia que ambos eramos personagens de histórias de quadrinho, ela pensava que eu era esse menino bobinho e interessante que talvez pudesse se desenvolver em um grande amor (pois o que ela procurava era um grande amor) e eu sabia que ela era a menina dentro da história em quadrinhos. Eu tinha esse centimetro de poder sobre ela. Esse milésimo de conhecimento que ela não tinha.

Agora vocês podem pensar que eu sou arrogante, burro ou qualquer coisa, mas eu não queria perder isso.

Não, na verdade, era o seguinte, eu não queria perder a ficção, eu não queria que ela se tornasse real. Se eu esquecesse que ela era uma menina bonita dentro de uma história em quadrinhos e pensasse que ela era só uma menina bonita, então ela se tornaria um peso e eu sei que pessoas evoluídas e boas sabem ver essas coisas como uma falta de peso, mas eu ainda não cheguei lá, ela não seria um peso ruim, ela seria simplesmente mais uma parte dessa realidade e oras, eu a escrevi justamente para não morrer pela verdade, ela não poderia ser real.

É dificil explicar, ela não perderia sua força se fosse real, ela não seria menos bela ou menos "arte" se fosse real, mas ela seria real e essa qualidade, em si, é o suficiente. Eu ainda me apaixonaria por ela se ela fosse real, mas ela seria real e eu logo precisaria criar alguém melhor que ela e eu não sei se conseguiria isso, ela era o máximo da perfeição que minha mente atingia.

Então eu acordei de novo no meu quarto, na frente do meu computador e na tela piscava

MENINA BONITA olha ao redor confusa

Ainda hoje, às vezes, quando eu me sinto sozinho e o peso da realidade é grande demais, eu escrevo histórias dela, só pra mim, só pra saber que eu posso abrir um arquivo no computador e dentro de um roteiro de histórias em quadrinhos estará ela, ainda esperando eu voltar e me tornar esse seu grande amor, mas jamais deixando isso se tornar um peso, sempre sorridente e, sabendo, em algum lugar dentro dela, que eu era um menino fora da sua história, mas feliz que, por um momento, eu fiz parte.