Lembrando que logo no post abaixo está o torrent com esses gibis todos e é realmente melhor ler os gibis antes de ler o post.
Evento
Kree-Skrull War
Edições
Avengers #89-97
Análise
Passada em 1971, nós temos aqui um universo marvel razoavelmente bem estabelecido, cujos personagens tem histórias e com os diversos times de super-heróis (aqui, especialmente, os vingadores e o quarteto fantástico) dialogando entre si como se de fato fizessem parte do mesmo universo (em teoria sempre fazem, mas há de se convir que enquanto em um gibi, NY parece estar ameaçada, no outro, a ameaça sequer é citada, no fim, até hoje, mesmo em eventos, cada gibi é seu microcosmo e o máximo que podemos esperar é uma ilusão de interação entre eles).
Os vingadores, chegando na centésima edição, já passaram pelas suas inúmeras formações.
Lembrando que os membros fundadores são o Thor, a Vespa, o Homem-Formiga, o Homem de Ferro e o Hulk, o que encontramos na edição #89 é Mercúrio, a Feiticeira Escarlate e o Visão. Assume-se ainda que são membros o Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Homem-Formiga (Hank Pym, agora Jaqueta Amarela), Vespa e Golias (Clint Barton, geralmente Gavião Arqueiro).
A capa é certamente chamativa e bem dentro da tradição da Marvel de atiçar sutilmente certas questões políticas, durante todo esse primeiro arco da guerra Kree-Skrull o tema serão os freaks do universo marvel.

O único BOM alien é um alien morto!
É chamativo, com certeza e, embora eu não seja o maior fã de Sal Buscema, ele passa bem a urgência da questão.
E a história começa com uma ótima narrativa, com um Capitão Marvel de sobretudo se esgueirando pelas sombras só para ser surpreendido por Mercúrio, Feiticeira Escarlate e Visão.
Um breve confronto depois onde os três são superados e Mar-Vell é atingido de surpresa... por Rick Jones

A narrativa aqui é inteira excelente no que o tiro parece realmente fazer um bom estrago e a situação é confusa o suficiente para que o flashback que vem adiante seja bem recebido.
Enquanto levam o inconsciente Capitão Marvel para uma localização desconhecida, Roy Thomas escreve uma de suas pequenas pérolas que dá o tom moral da série.
O Visão percebe alguma inquietude na Feiticeira Escarlate e pergunta qual o problema, no que ela responde:
"Eu estava somente pensando... esse homem é um alien... ilhado aqui vindo de uma estrela distante... enquanto Pietro e eu somos mutantes--não mais em casa na terra do que ele".
E Visão, o Andróide, não responde, pois percebe que ao menos eles têm memórias e sentimentos, enquanto ele sequer essas coisas possui.
Depois disso é história, coisas de história em quadrinhos, é revelado em flashback que o Capitão Marvel estava preso na zona negativa, onde ele conseguiu fugir, mas no meio-tempo absorveu radiação demais se tornando um risco, bla bla bla. Só uma desculpa razoavelmente elaborada para colocar os vingadores se encontrando com Mar-Vell.
Feito isso. Vamos para o Hana, o planeta principal dos Krees, onde Ronan, o Acusador, manda um sentinela para matar o capitão Mar-Vell, que desacordado, depende da proteção dos vingadores presentes.
Dessa batalha, que ocorre em Avengers #90, a única coisa de interessante é uma comparação entre a atuação do Mercúrio nessa edição e na edição passada.


Heh, bem patético.
Pro mercúrio, pra Roy Thomas (roteirista) e pra Sal Buscema (desenhista) já que a situação é a mesma.
Ele corre, correr por si só não é um super poder, o inimigo dá uma bofetada e ele voa longe gritando (notem como a expressão é exatamente a mesma). Provavelmente não fui o único que notei isso, mas fica pra depois.
Além disso, pela segunda vez a feiticeira escarlate se limita a anunciar seu poder, brilhar as mãozinhas, mas no final nada acontecer.
Anyway, eles acabam derrotado e no fim há uma troca de dialogo interessante entre o sentinela e o visão que, afinal, compartilham a característica de serem robôs.
O universo marvel então começa a já dar os primeiros sinais de uma continuidade longa no que duas páginas são gastas só pra contar coisas que aconteceram nos outros gibis e nos próprios vingadores no passado.
Após a exposição, sem saberem onde procurar o recém-capturado Capitão Marvel, eles recebem um chamado do Golias avisando que a Vespa e o Jaqueta Amarela estão em perigo na terra selvagem.
Em termos de narração, acho que o mais interessante dessa saga Kree-Skrull é isso: os problemas vão se acumulando, com eles os heróis, para aos poucos ser construído o cenário de que existem duas civilizações alienígenas distintas que querem a Terra.
Pois bem, chegando na terra selvagem, aquelas coincidências lindas.
Quem atacou os vingadores lá é, por coincidência, a mesma sentinela que havia os derrotado em um lugar totalmente não-relacionado, mais Ronan e, quem está preso lá é o Capitão Marvel, quem, por acaso, os vingadores procuravam descobrir onde estava.
Brigas, hipnoses, vingadores vs vingadores, bla bla blas depois e alguém repara que o Mercúrio anda apanhando demais, a ponto de seus poderes estarem postos em questão (e se o poder de um super-herói é inútil, ele pretty much pode ser considerado inútil também)

Pode não ser a coisa que faz mais sentido do mundo, mas é bom ver ele fazendo algo senão apanhar.
E nota pro dialogo: "Há os que pensam que minha velocidade é um poder inútil... um troque interessante para garoto de mensagem. Bem, vamos ver se ela pode ser mais que isso!"
Cara, isso é indiscutível, eles receberam uma porrada de carta dos fãs do Mercúrio dizendo que ele estava pateta demais e o Roy Thomas escreveu uma cena onde ele faz algo fantástico.
Mas ei, funcionou.
Por fim, em meio a batalha, a guerra é anunciada.

Tenho que dizer que essa página toda me impressiona. A batalha no seu auge, nenhum vencedor claro ainda aparece, quando uma mensagem chega a Ronan:
"A galaxia Kree... está em GUERRA!"
Imediatamente Ronan larga a batalha e vai embora.
O que eu achei muito interessante, é esse senso de que o universo é maior que o planeta terra.
A mensagem, de imediato, não captura a atenção dos heróis e nem teria porque capturar. Eles só querem sobreviver essa luta e, oras bolas, sobrevivem. Se um povo doido que quer matar eles entrou em guerra com outro povo doido que quer matar eles, tanto melhor, não é motivo para perder o sono.
No mais, a narrativa ficou interessante, a imediatez da questão. Ronan ouve a mensagem e logo entende que a ameaça dos Skrulls é maior que a dos humanos.

A edição seguinte mostra que a maldição dos personagens da marvel dificilmente se limita ao Homem-aranha.
Não importa quantas vezes o mundo é salvo, a vida pessoal dos participantes tende ao pior.
Essa edição é cheia de perólas. Sem nenhum inimigo a se bofetear, o vilão aqui é um senador, a justiça e a mídia.
Após terem finalmente resgatado Capitão Marvel, um dos homens que os vingadores resgataram da terra selvagem revela para a mídia que ele é um Kree, a mesma espécie que quis dominar o planeta terra.
O público se enche de fúria, os vingadores são considerados traidores e é demandado que Capitão Marvel seja preso pelo crime de pertencer à mesma espécie que os invasores.
O Kree Mar-Vell, os mutantes Pietro e Wanda, o andróide Visão e o humano Clint Barton e Rick Jones discutem a questão.
Pietro nem quer saber da possibilidade, já Clint Barton sugere que o melhor talvez seja entregá-lo para as autoridades e recebe a excelente resposta do visão.
"Se um homem dos Kree podem ser confinados sem nenhum motivo, então logo serão os andróides, aí os mutantes, então gigantes até que no fim os canhotos lutarão contra os destros até a morte"
Não é mero politicamente correto, não é propaganda liberal no gibi, é meramente sensato, porque um grupo de minorias entregaria alguém pra justiça apenas por este ser um alien?
Por fim, Carol Danvers (que virá a se tornar Ms. Marvel ironicamente) vem ao resgate de Mar-Vell e propõe que eles fujam para uma fazenda.
Nick Fury, comandante da SHIELD, os persegue, mas "falha".
Dungan pergunta o porque de ele ter utilizado uma formação tão solta e Nick Fury responde que viu os campos de concentração para japoneses nos EUA durante "the big one" e o que ele faz com os homens de ambos os lados da cerca.
"Então, eu não fiz isso por Marvel, eu fiz pela América".
Como eu disse, é uma edição cheia de coisas boas.
Rick Jones se recordando de como as coisas eram simples nos gibis que ele lia sobre a segunda guerra, mas que hoje em dia não dá pra distinguir bem de mal (isso em 1971), Mercúrio comentando que Capitão Marvel não terá um julgamento no tribunal porque a TV já deu seu veredito, os vingadores saindo da mansão enquanto a multidão grita para os mutantes voltarem de onde vieram e nada disso soa falso ou politicamente correto, tudo simplesmente faz sentido e é genuinamente revoltante quando gritam para o Mercúrio que ele é um mutante e deve voltar de onde veio. Sério, isso não se faz.
No fim, durante um julgamente, Rick Jones tem uma visão de que Capitão Marvel está em perigo e foge do tribunal. No fim, os heróis são liberados, mas ao chegarem na destruída mansão, encontram Capitão América, Thor e Homem de Ferro que debandam os vingadores e lamentam os heróis não terem entregado Mar-Vell para a justiça.
Injusto? Confuso? Claro, mas o universo marvel é isso mesmo. Heroísmo apesar da opinião pública mais facilmente maleável do universo.

Em Avengers #93 se inicia, propriamente dizendo, o arco da guerra Kree-Skrull, antes só citada em Avengers #91.
Após todo o problema com o Kree, é hora da terra ter problema com os Skrull.
E o ótimo costume de excelentes aberturas continua nessa edição com Capitão América, Thor e Homem de Ferro vendo um recém-expulso Visão adentrando enfraquecido os aposentos.
Nota que o desenho aqui é de Neal Adams e eu simplesmente prefiro ele umas 10.000 vezes mais que o Sal Buscema.
Algumas excelentes cenas de ação depois, há uma explicação muito meia-boca para o ocorrido na edição passada (os três vingadores admitem que erraram ao expulsar os outros ou eram impostores? Não ficou claro pra mim) vemos Capitão Marvel capturado pela décima segunda vez, dessa vez pelos Skrulls.
Lutas e tabefes depois, Capitão Marvel percebe que Carol Danvers é na verdade o Super Skrull, mas é derrotado por ele. Estando agora capturado pela décima quarta vez, dessa vez junto com Mercúrio e a Feiticeira Escarlate; Capitão Marvel está às mercês do Super Skrull que foge deixando os heróis derrotados e deprimidos pra trás.

É interessante aqui que o único que mantém algum otimismo é o Capitão América, mas Clint Barton sempre acaba sendo um tipo de antagonista moral dele. Os dois formam uma dupla tão boa na minha opinião.
Em Avengers #94, as frentes de batalha começam a se multiplicar. O Super Skrull ataca os inumanos, falha e logo é atacado ao chegar no próprio planeta já que o imperador Skrull o considera um exilado. Enquanto isso, na América, o fascismo rola solto, pessoas são torturadas e questionadas e logo um grupo de Andróides desenhados por Tony Stark com o propósito do governo ter um meio de parar os Vingadores são mandados contra eles.
Essa cena pra mim é emblemática. Tony Stark, dando uma de Batman capitalista, vende ao governo andróides desenhados especificamente para atacar os Vingadores "just in case". Obviamente, ele desenha para si próprio um meio de vencer os tais andróides (na forma de patins, yeah, nem vou comentar isso) e a luta fica equilibrada.
Em vista dos recentes acontecimentos, é interessante ver que Tony Stark desde sempre teve uma veia meio totalitária.
E como se não houvesse gente brigando entre si o bastante, no meio da batalha dos vingadores contra o governo, um ferido inumano aparece. De novo, eu acho brilhante o modo como as tramas vão se empilhando uma em cima da outra nessa saga.
Tendo que enfrentar o governo, salvar os heróis capturados e ajudar os inumanos, Avengers #95 é uma edição bem confusa.
Em princípio, eles claramente combinam que uma parte do grupo vai para o espaço com Thor enquanto outra vai para a California com o Capitão América.
Coisas acontecem e, afinal, o grupo que deveria ir para o espaço continua lutando na terra e misteriosamente se une ao outro grupo no final da edição.
O único evento importante dessa edição é Rick Jones sendo capturado pelos Kree que pretendiam recurtar os inumanos para sua guerra contra os Skrull.
Já Avengers #96, pra mim, é um puta exemplo de uma história bem contada.
A coisa mais importante de uma guerra intergalática é que *pareça* uma guerra, Neal Adams aqui é perfeito mostrando o Thor em guerra contra os Skrulls.
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E no que os super-heróis se aproximam de salvar seus companheiros dos Skrulls, Rick Jones agora é prisioneiro dos Kree, no que a inteligência suprema dos Kree revela que os surtos de ódio do povo americano são uma influência dele com o objetivo de retomar a liderança de Ronan, o Acusador e que tudo o que houve, houve apenas para que Rick Jones estivesse lá.
Eu acho muito interessante a importância imensa de Rick Jones, o sidekick sem poderes, nessa saga.
Avengers #97 é basicamente sobre ele e o pequeno salto evolucionário que a inteligência suprema dos Kree o proporciona, algo que, diz ela, eventualmente, em incontáveis anos, estará disposta para todos os humanos.
E não há como não gostar do fato que o que salva o mundo é um garoto imaginando os heróis que lia nos gibis.
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O que vem a seguir é a inteligência suprema utilizando seus poderes de Deus Ex Machina. Ela de alguma forma traz todos os heróis pro mesmo lugar, revela o tal senador fascista como sendo um Skrull disfarçado e liberta o senador verdadeiro que pede desculpas aos vingadores e quando achamos que tudo está bem, a edição termina com Thor constatando que quando todos os vingadores foram reunidos no mesmo lugar, um deles não estava presente. O golias, de algum modo, ficou pra trás.
Essa saga talvez seja bem melhor do que eu faço parecer aqui. Eu não abordei o relacionamento entre Feiticeira Escarlate e o pertubado Visão, tão convencido de que é um máquina sem sentimentos que não percebe que isso é um sentimento.
No fim, a história trata de todos os temas clássicos da Marvel.
O poder das pessoas comuns, a opinião pública facilmente maleável, a dificuldade das minorias e o heroísmo que é tão valioso justamente por não se importar com a ingratidão das pessoas quem você salva.
Roy Thomas é um roteirista competente, mas falta a ele uma certa sensibilidade do Stan Lee; acho que ele escreve os temas políticos melhor que Stan Lee, mas não é tão bom passando um senso de drama.
Os anos 70 são uma época em que fazer esse tipo de gibi é razoavelmente seguro. Os direitos civis são considerado algo bom, o Macarthismo aludido na saga algo ruim e a idéia de uma guerra entre dois povos onde somos pegos no meio é bem segura nesse momento em que o Vietnã é reconhecido como um desastre, não que a ligação aqui seja tão direta.
Mais do que história dos Estados Unidos, eu acho interessante onde isso se encaixa na história da Marvel. Nós temos claramente os personagens bem definidos aqui, note que ninguém de novo é introduzido, nenhum personagem importante surge pela primeira vez. O que temos são 300 personagens que já apareceram no passado contracenando em um universo onde todo mundo se conhece. Até o demolidor é mencionado em certo momento. Então há um esforço consciente da Marvel de dizer "olha, isso é UM universo". Como eu disse no começo, acho isso uma ilusão. Se acontecia antes é porque era mais fácil, o próprio Stan Lee diz que no começo era fácil ter um universo só porque eram poucos personagens e ele escrevia todos.
Bem, 1971 e já não são poucos personagens e já não é um escritor fazendo tudo, logo é perceptível que essas tentativas de integrar os universos são meio forçadas, mas temos um looongo caminho pela frente antes de ser tentado, pela primeira vez, um crossover entre vários gibis diferentes.
Stay tuned.
















