A minha conexão era por meio de uma BBS do ABC paulista e essa BBC tinha um sistema de chat interno e as pessoas meio que se conheciam lá. Tinha um fórum que eu frequentava onde pessoal dizia como ia salvar o mundo e porque todo mundo estava errado.
De lá pra cá a internet mudou tão-somente em quantidade. Mais gente, mais páginas pessoais (que acabaram por metamorfosear em blogs e páginas de redes sociais, mas a mesma coisa: "quem sou eu, o que eu gosto, porque eu estou certo e você errado"), mais música, mais pornografia, maior área de alcance, mais de tudo, mesma coisa.
Eu conheci minha namorada pela internet, ela lá do Sul; hoje moramos juntos. Não daria sem a internet.
Não estou fazendo o post pra dizer que odeio a internet e que ela não é bem bacana, é só pra dizer que ela não é o catalisador que trará a era de aquário (nada é).
As coisas mais bacanas que aprendi no mundo foram de modo habitual: universidade, livros da biblioteca, livros comprados no sebo ou na livraria, mais ou menos caros; lembrando que nessa época eu já tinha internet há um tempo.
O que eu quero dizer é que é praticamente irrelevante ter todo o conhecimento da humanidade na ponta dos dedos sem que algo guie seus dedos até ele e esse "algo" é bem difícil e complexo; se você acha que fóruns que discutem assunto X são uma boa idéia, há uma chance enorme de gente meramente leiga e arrogante te direcionar a algum tipo de pseudo-conhecimento panfletário; seja panfletario do anarcocapitalismo, psicologia evolutiva ou o que for.
Uma teoria particular que eu tenho da internet é que a maior quantidade de informação leva a pessoa a se aprofundar mais - e refinar mais - seus próprios preconceitos; entenda, a tendência é a pessoa buscar informação horizontalmente - ela é liberal, então ele vai atrás dos liberais, aí dos liberais mais obscuros, aí dos liberais radicais, aí dos argumentos liberais, aí das explicações liberais, aí das vertentes liberais, etc - e não verticalmente - ela é liberal, então dá uma olhada nos socialistas.
Quando você por acaso encontra alguém "do outro lado", geralmente já é no meio de combate. É alguém dizendo como e porque você não só é burro, como mau, não só mau como burro, etc. Afinal, a timidez e o medo naturais que vem em conversar face a face com alguém são ferramentas favoráveis à razão. Arrogantes arroganteando-se entre os arrogantes não leva a nada.
Até onde eu sei, a internet avançou 0 debates. Ela também gerou 0 revoluções, caso alguém que ache que o que anda acontecendo no mundo árabe é por causa do twitter e não, tipo, gente cansada de viver sob uma tirania.
Não teria minha namorada sem a internet e não conheceria minhas bandas favoritas. A internet é uma ferramenta excelente. Mas ela não contribuiu (nem contribui) com minha formação, nem intelectual, nem cultural. Amo amo amo minhas bandinhas twee inglesas dos anos 80, mas não dá pra usar elas pra justificar a internet como ferramenta que leva a qualquer avanço espiritual meu. Amo amo amo minha namorada, mas sei lá, se você acredita em alma gêmea, então nos encontraríamos de alguma forma por aí, se não, encontraríamos outras pessoas (continuamos encontrando outras pessoas, mesmo juntos, então...).
Então é isso, o post, de novo, não é pra dizer que a internet não seja legal, mas ela não é *assim tão legal* que ela vai tirar os povos da ignorância e trazer o mundo junto e derrubar as tiranias e coisas do tipo.
Ela me dá acesso a um bocado de informação, mas dizer que eu preciso da internet seria dizer que eu tenho tempo de ler e estudar todos os livros de papel que eu tenho acesso, o que é uma mentira - ou dizer que a internet pode me oferecer obras que eu não encontro em papel, o que é uma meia-verdade em um único caso, em que a obra que encontro em inglês na internet, está disponível em espanhol por aqui. E se existe algum povo miserável que não tem acesso aos livros de papel, então: 1 - eu não sei se é uma boa idéia dar computador ao invés dos livros em questão e 2 - eu não sei porque acreditar que a internet seria usada pra pesquisar grandes idéias ao invés de quem vai na festinha de hoje à noite.
Mesmo por ser algo desconfortável ler numa tela, se o problema é que as crianças não estão lendo seu Machado de Assis, eu recomendaria pelo menos a versão em quadrinhos antes de recomendar ficar encarando uma fonte de luz por 200 páginas (btw, a fonte de luz que sai de um reader é meio que feita pra isso. A do seu monitor não).
A internet é tão boa em unir os povos quanto a bíblia de Guttenberg foi em unir os cristãos. Dar uma voz às pessoas geralmente significa dar uma voz aos seus preconceitos; uma pessoa com seu preconceito sozinha é sabiamente tímida em relação a ele, na internet, ela forma um tribo e boa sorte acabando com qualquer mistificação que seja nos próximos 500 anos. Durante um momento da internet (meio que com o orkut), as pessoas se espantaram com o surgimento dos conservadores de direita. Bem, eles sempre existiram, só aconteceu de agora eles se organizarem em tribos irracionais e arrogantes como a esquerda se organizou desde sempre. E o lance de uma tribo é a destruição ou o recrutamento, o resto é um detalhe que talvez ocorra por acidente.
E se você recruta o bastante pra fazer uma revolução, você ainda precisa sair na rua e levar tiro e essa coisa toda, a internet, nesse caso, não esclareceu nada ou acabou com nenhuma alienação, ela só serviu como o panfletão que é, se alguma coisa, um panfletão com um IP gravado faz a polícia ter um trabalho mais fácil.
Então é isso. A internet é bacana, você conhece pessoas, e serve basicamente só pra isso, quando serve pra isso.
Tchau, vou dormir.
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