Começou com aquele tipo de equívoco que até é de se esperar quando há uma mistura de juventude, entusiasmo, teorias políticas, indignações mais ou menos legítimas. Em um surto, os alunos da USP fizeram o que fizeram e como uniu uma sequência de circunstâncias favoráveis para pintá-los na mais desfavorável das luzes (começou quando a polícia realizada uma abordagem legítima, tornou-se um furioso protesto com ares de violência e autoritarismo por algo que é longe de ser consenso na universidade, houve a invasão, algum abuso). A mídia aproveitou, inflamou os ânimos. A internet contribuiu. Eu contribui.
Acontece, entretanto, das coisas prosseguirem de tal modo que o que há por trás, o que há de inconsciente, o que é reprimido pelos motivos civilizatórios, começam a sentir seu próprio entusiasmo em sair. Na medida em que a mídia prepara os tambores de guerra, as pessoas se tornam um pouco receptivas demais a eles. Logo fica impossível de esconder que as indignações iniciais ("eles acham que estão acima da lei?" "como eles podem fazer isso com patrimônio público?" "Não se preocupam com a opinião dos outros sobre a segurança?") são só máscaras ou desculpas para um ressentimento.
E assim a pequeneza dos sentimentos e das piadinhas se tornam aquém do que quer que aconteça de fato na USP. Eu disse que os argumentos contra o reitor e contra o policiamento não importam, pois o protesto começou de maneira ilegítima, confusa e um tanto emocional demais; agora os argumentos em favor do policiamento também param de se importar, pois o ódio contra os "maconheiros" e os "vagabundos" começam a tornar ilegítimos também esses discursos.
Neste bate-boca de surdos, analisar argumentos e motivos torna-se vão; mero partidarismo, seja de algum partido específico ou de um inconsciente estilo de vida. Resta então uma análise da época.
Metafísica popular e niilismo popular
A cisão fundamental da modernidade ocidental - fé e razão - desenvolveu-se no decorrer dos séculos. Por um lado a fé gira em falso, ora aquém da razão, ora em um sentimento que a ultrapassa, ora em um âmbito particular incomunicável, ora em um âmbito público indiscutível (passível apenas de um respeito politicamente correto). A razão, por outro lado, começa por um mecanicismo que torna-se um determinismo e converte-se em um positivismo que expulsa de si - e da possibilidade de ser racional - todo discurso fora do tecnicismo dos laboratórios e dos paradigmas apresentados nos livros didáticos.
Não se trata de uma questão de Deus e Materialismo, mas de toda uma gama de assuntos que são generalizados em um campo ou em outro. As chamadas "humanidades" no seu nome já incerto e vacilante de "ciências humanas" configuram-se quase como o embaraço dessa tensão. Entre o paradigma estabelecido e a crença aceita - o técnico e o espiritual - o estudo sistemático de temas que recusam-se a conformar-se à técnica e à espiritualidade aparecem quase como um confronto; quase como uma guerra entre céu e inferno que resolveria-se muito bem em um tipo de equilíbrio pré-estabelecido não fossem esses humanos ora divinos, ora diabólicos.
Que estejamos na universidade discutindo a morte; o sofrimento; a justiça; a virtude e a compaixão de pontos de vista francamente laicos é um ofensa por si só à uma noção de que se a religião não pode ter a razão, que ao menos não lhe tirem a ética.
Que estejamos na universidade fazendo ciência da morte; do sofrimento; da justiça; da virtude e da compaixão utilizando métodos hermenêuticos, analíticos ou construtivistas é uma ofensa por si só à uma noção de que o preço pela razão é o paradigma técnico.
O povo; violentamente arremessado nesse conflito, pois afinal, há de se lembrar, eles bem que fazem parte dessa tal "humanidade" que temos como objeto principal de estudo, ergue seus escudos. Acreditam possuir um tal senso comum ou uma tal sabedoria mundana cujo cinismo protege de todas as questões. Para os que se interessam pelo espírito, escolhem uma religião e prosseguem. Para os que não se interessam, resta apenas saber qual combinação de tempo trabalhando vs satisfação carnal fecha as contas no fim da vida. Se para Locke, qualquer um se ofenderia ao ser questionado o que entende-se por "vida"; para nós, há ofensa em dar valor para a questão (vida é a vida do médico, que me cura para eu poder voltar a rezar, trabalhar, beber); se para Pascal, era um tipo de frieza não lidar com a questão do espírito, hoje é uma frieza dedicar-se demais a ela (ou se abre a sensibilidade para a religião ou para a filantropia).
Para uns, estudar uma ciência humana é um sacrilégio. Retira-se da religião o seu direito sobre os assuntos que o positivismo autorizou a ela manter; trata-se de um desrespeito laico, uma brecha da própria liberdade de religião.
Para outros, estudar uma ciência humana é uma ociosidade. Desvia-se fundos da técnica séria para esses temas que no fundo são o que? Análise textual de ciências superadas? Cronologia de eventos passados? Jogos de palavras com termos abstratos?
E tantas outras críticas que os lados até compartilham, mas seja como for, a humanidades, sua mera existência é ilegítima. Depósito de jovens rebeldes que podem permitir-se a ociosidade às custas dos pais ou da sociedade em pesquisas que oscilam entre o desrespeito e o ilegítimo.
Aí a indignação se acumula: além de tudo querem quebrar a lei. Além de tudo arriscam a segurança dos outros. Além de tudo depredam o patrimônio público. Como podem fazer tudo isso, se sua própria existência já um favor que a sociedade concede; um que, a qualquer momento, poderia muito bem ser eliminado sem prejuízo?
As crises existenciais
Mas quais problemas estão resolvidos? Quais deles são discutidos?
Os cientistas e os religiões replicam um debate do século XVIII acerca da teologia natural que nem nos faz sentido, mas que faz parte de um teatro onde imagina-se discutir questões importantes que não resolvem nada. Os religiosos não dizem nada de relevante à ciência, querem apenas interferir; os ateus não dizem nada de relevante ao estilo de vida religioso, querem apenas interferir. O que esperar de niilistas diversos senão o ímpeto de expansão do vazio?
Todos os debates éticos caminham a relativismos irracionais. Não um relativismo consequente (relativo a X ou Y, dado que X e Y), mas o absoluto relativo da religião opcional (e nenhuma religião hoje pode-se dizer universal, o que faz dos seus absolutos absolutamente relativos) ou o absoluto relativismo do estilo de vida.
A questão da vida é uma matemática de quantos anos viver sabe-se lá por qual motivo além do básico imperativo biológico e animalesco: "deve-se viver".
A questão do sofrimento é um experimento social bizarro acerca de quantas combinações esquisitas de químicas no cérebro, de místicas importadas, de tradições e variações de cristianismo, prazeres sensuais diversos, vícios ou ausência de. Cada um virou uma bateria de testes onde todos julgam-se mutuamente no que parece ser um enorme campo de experimentações: "Eu vou tentar usar drogas na adolescência, aí ouvir Enia, então me converter ao cristianismo, no final ter uma crise de meia-idade e bola pra frente". Na medida em que avançamos (felizmente) ao tratamento de questões neuroquímicas específicas, há um completo descontrole no que diz respeito ao cotidiano. A bipolaridade e a esquizofrenia contam com seus remédios, enquanto isso, aumentam a lista de neuroses quimicamente tratáveis na esperança de um dia acharem o remédio para a pessoa normal. (e berram contra os "maconheiros")
Se o problema de épocas passadas eram insustentáveis disciplinas de vida que decaíam em hipocrisias diversas, o problema da nossa é esse insano cair de paraquedas na existência no meio de uma selva guiado apenas por um instinto de sobrevivência que diz que, afinal de contas, se eu andar sempre pra esquerda, uma hora eu saio desse lugar (e se me desviar pra direita, eu tenho que andar sempre pra direita; só não pode andar em círculos).
Além de questões realmente fisicamente existenciais.
E sobre a possibilidade do mundo literalmente acabar via questões ambientais? Isso também tornou-se um conflito partidário, vazio, absolutamente relativo ao estilo de vida.
E sobre a possibilidade de daqui há 10 ou 20 anos, o popularismo norte-americano, soviético ou de qualquer país possuidor de armas atômicas eleger um governante insano o bastante para ameaçar novamente o planeta? Idem.
Nós, como espécie, não temos ferramentas prontas para o tal "fim do mundo causado por nós mesmos", o que exige uma capacidade maior de reflexão e um debate mais sério e que, entretanto, é impossível de ser encontrado em um clima que as questões não podem ser postas sem o aval do cientista, do padre ou do modo como eu já vivo, cuja solução, portanto, tem que passar pela manutenção de um status quo individual.
O Ressentimento
Dados que os problemas estão aqui, seria de se esperar que o maior valor seria dado a quem dedica a vida a estudar esses problemas. O motivo que isso não acontece pode passar por alguma vias. Por um lado, nós da humanidades podemos também ser tão incompetentes quanto o resto em produzir respostas, mas esse é um motivo que, mesmo que seja verdade, não é o ponto em questão, pois as teses não recebem valor em primeiro lugar.
Não são teses descartadas após consideração, são teses descartadas por provirem das pessoas "que-estudam-isso-a-vida-inteira".
Irracionalidade? Mas é irracional dar-nos atenção, pois não somos a técnica do laboratório.
Frieza? Mas é frio dar-nos atenção, pois não somos os sensibilizados pela espiritualidade popular.
O que me parece acontecer é o abandono de um tipo de responsabilidade humana básica para com as questões importantes. A existência do estudante de humanas personifica essa responsabilidade abandonada por quem "já faz sua parte" repetindo os argumentos do padre ou do cientista ou do político ou do colunista de jornal ou etc.
A faculdade de filosofia não liberta ninguém das amarras da alienação (não gosto dessa impressão pela implicação que a acompanha de que eu posso diagnosticar que você está fora da realidade, pois eu sei como ela é. Isso é um caminho para um tipo de fanatismo filosófico; uma espécie de absolutismo esclarecido), o que ela oferece é familiarização com o debate humano por excelência e indissociável da civilização, em outras palavras, a faculdade de filosofia nos familiariza com o com a própria civilização por meio de suas ideias, do modo que a história o faz por meio do tempo, que a geografia o faz por meio do espaço, que a sociologia o faz por meio da intersubjetividade, que as letras o fazem por meio da uso estético e técnico da linguagem, etc.
Nós, das humanidades, não estamos mais dentro da realidade ou com consciência maior da realidade, estamos sim mais contextualizados conosco. E assim enfrentamos os problemas e as crises e dedicamos nossa vida a questões tão sérias cujas respostas fazem tantas faltas, ou seja, saciamos uma necessidade tão urgente que é como se fizéssemos nada além de ter o prazer que é a saciação da necessidade. Buscar respostas é sim um prazer, pois é sim a saciação de uma necessidade gravíssima; mas ela não precisa ser particular, não precisa ser um clube nosso, assim não precisa gerar essa inveja, esse ressentimento.
Sujeito corre pelas selvas olhando para o chão e para as árvores. Quer ter certeza de que não se desviou. Vê alguém caminhando e olhando para cima. Enfurece-se com a ociosidade de ter a cabeça nas nuvens, mas não se trata da obscuridade das nuvens; pare e veja o que estamos fazendo. Buscamos nos guiar pelas estrelas, é realmente um ato de localização, de familiarização.
Olhamos para cima, mas estudamos este mundo.
0 comentários:
Postar um comentário