Como se sabe, o atual estado de imortalidade se dá pela alho. De todos os alimentos, o alho é o único que reage ao complexo químico que impede a divisão celular; este é, obviamente, o motivo pelo qual existe a Lei De Absoluta Defesa à Vida demandando que todos os alimentos ingeridos após os 30 anos contenha alguma quantia de alho, o que é irrelevante para todos os habitantes senão pelo inconveniente menor de comprar produtos diferentes no mercado, um pequeno preço pela imortalidade. Sabe-se também que esta mesma lei inclui a pena de morte à qualquer assassinato. Tal medida anteriormente não surtiria efeito, mas após o advento da imortalidade, a vida se tornou extremamente preciosa de modo que nenhum problema é grande demais que não pode ser resolvido com o tempo.
Não há amor ou rancor grande demais que não possa ser esquecido em 500 anos, o que levou ao fim dos crimes passionais, assim como os suicídios por esse mesmo motivo; não há pressa em conseguir dinheiro, portanto, não há porque cometer crimes em geral. A paciência se tornou a virtude última; o tempo, em sua infinitude, resolve todos os problemas e se a vida tornar-se insuportável há inúmeras maneiras de ir para outro planeta, comprar uma nova identidade e em cerca de 1000 anos sequer restará a lembrança da miséria anteriormente vivida.
O espaço tornado infinito pela viagem espacial e o tempo tornado infinito pela imortalidade. Esta é a história daquela que abdicou a utopia pelo paladar.
Os jornais da época deram ampla atenção ao caso, em via de regra com escárnio: Uma jovem brasileira de 18 anos tinha absoluta repulsa do alho. Não só não podia sentir seu gosto, como não poderia saber que ele estava na comida e, uma vez que a lei foi passada, tornou-se impossível não saber que em todos os alimentos o alho estaria presente, mesmo que o gosto fosse indetectável.
O primeiro passo da jovem foi buscar a justiça. Certamente poderiam abrir uma exceção à ela; entretanto, não poderiam por um motivo de antecedência: se uma exceção fosse aberta para ela, por mais grave que fosse seu estado psicológico, então outras exceções seriam abertas para outros e logo a solução perfeita de alimentar a todos com a química da imortalidade seria perdida, tornando uma questão de tratamento contínuo para uns poucos, criando uma desigualdade inaceitável logo nos primeiros dias da nova ordem.
Assim foi decretado que a jovem deveria superar seu problema alimentício ou envelhecer. No momento da decisão um certo debate surgiu em alguns círculos acadêmicos: teria esta sido a primeira pena de morte pós-imortalidade? Hoje podemos perguntar se teria sido a única.
Quando seu aniversário de 30 anos chegou, ela já era notícia antiga. Ninguém prestou atenção senão os oficiais presentes. Ela se recusou o alimento, nesse meio tempo havia na fazenda de seu avô uma plantação que a permitiria viver sem os produtos comerciais. Seu namorado, anteriormente 7 anos mais velho, agora era de sua idade, no dia posterior, ela era um dia mais velha. De todos os seus amigos do colégio, seus conhecidos nas baladas, seus amantes e colegas, ela era a única a possuir 30 anos e um dia de idade. Em breve seria mais velha que seus pais. Então mais velha que seus avós.
Esta é a história da última entre nós que morreu. As lágrimas daqueles que a amaram foram as últimas a cair pelo que antes entendeu-se como a única inevitabilidade. De certa maneira, a única entre nós a quem se perguntou o valor da vida e aprendamos algo quando descobrirmos o motivo pela resposta negativa.
0 comentários:
Postar um comentário