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Vendo a história do ponto de vista da busca da felicidade - terrena ou transcendente - a época atual parece ter mudado de estratégia, em vez de busca da felicidade, de um constante convencer-se que já é feliz e nas vezes que falha constatar que há algo de errado e que algo precisa de concerto e se for possível uma expliaçãozinha rápida e maneira com uma cura, de todo o melhor.
Por um lado, transformou-se a auto-estima - o que eu considero um auto-engano na grande maioria das vezes - em valor.
Auto-estima é auto-arrogância, na verdade, dado que ela tem que ser algo que você *precisa* ter de antemão no bolso para ser alguém feliz-saudável-bem-sucedido, então ela acaba se tornando, quase que por definição, uma auto-arrogância não-merecida e, na medida em que tanta gente precisa do aval dos outros para sua auto-estima, ela perde sua autonomia e vira apenas arrogância não-merecida.
Substitui-se uma sincera busca de admiração por meio de bons atos por um automático "seja bom comigo" e os amigos, então, invertem-se junto, perdem a agradável função de viver em harmonia pra você para viverem como juízes da verdade. Pra que um verdadeiro amigo esforçaria-se em "levantar sua bola" se boa parte da massa anônima de instituições e forças sociais já existe com esse propósito?
A questão é que no que a sociedade democratiza-se - politica e economicamente - todo mundo passa a ser bajulado: você não tem culpa, a culpa é de quem você vota contra. Você não tem culpa, a culpa é do diabo, pague-me para se ver livre dele. E a questão nem se resume a culpa.
Eis um dado interessante, o quanto os professores de colégio são obcecados pela noção de poder espancar os seus alunos quando expulsá-los da escola é uma solução menos barbárica e mais democrática até (não quer estudar, não estuda). Mas não se pode expulsar um aluno da escola: o aluno que paga é um cliente e o cliente tem razão, o aluno que não paga é um cidadão e o cidadão tem direitos. Expulsar os alunos em massa de uma escola pública causaria grande transtorno social, toda essa molecada na rua causarão problemas.
A própria vida se contrapõe violentamente a esse impulso que temos: a felicidade ainda é difícil, ter essa tão almejada auto-estima ainda exige trabalho (e na medida em que nos enganamos ao acreditar que já a temos ou já deveríamos tê-la, as crises de auto-estima ainda ganha a vantagem do ataque surpresa), o transtorno social já está aí, a miséria ainda está aí. Tudo nessa sociedade que não seja construir calculadoras e gerar entretenimento falha. Calculadoras são úteis decerto, assim como entretenimento, mas essa valorização da técnica e da diversão vem quase como um prêmio de consolação: "é isso que nós temos". E faltando todas as outras partes, numerosas demais até pra eu catalogar rapidinho aqui, é só isso mesmo que nó temos.
Gostaria de ver essa civilização voltar a conciliar-se com o fato de que a vida é miserável, com a transitoriedade dos pequenos prazeres, não para errar de novo e mais uma vez buscar superar a vida e os seus pequenos prazeres, mas para dar às coisas o seu devido lugar.
Busco viver aos pouquinhos, conquistar as coisas aos pouquinhos, lidar com as necessidades; alguém tentará convencê-lo de que isso é mediocridade, mas, para mim, medíocre é deixar-se enganar.
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