Mas se existe uma consequência de certas práticas que os conservadores não gostam - a escamoteação da cultura de responsabilidade individual por exemplo - não é bem uma feminilização, mas uma infantilização. Acho que os conservadores tem um certo ponto de que a sociedade está perdendo sua virilidade, mas, senso conservadores, o objetivo principal de qualquer verdade que por acidente caia em seus colos é o de ataque à alguma minoria e o da preservação de um tipo de status quo bizarro que existe tão somente na cabeça deles, então vão atrás das feministas e dos gays, enquanto eu acredito que o problema é exatamente este: a falta de responsabilidade individual é igual à falta de responsabilidade individual. Eu sei, insano!
Muitas das coisas vistas como causas dessa falta de responsabilidade individual - excesso de discurso politicamente correto, redes de segurança social - são, na verdade, sintomas. Por faltar a maturidade de não fazer piadas com pessoas que já sofrem demais que o legislativo entra em cena, por faltar a maturidade (e profissionalismo) de tratar as pessoas com dignidade no ambiente de trabalho que leis trabalhistas são criadas; na falta de profissionalismo da policia que os direitos humanos ganham força, etc.
Um estado paternalista não é causa de uma sociedade que precisa de uma figura paterna, mas antes, um sintoma disso e se é possível, a partir disso, inferir uma feminilização, é porque de fato falta na sociedade uma força viril, mas essa força viril não é do homem que se torna mulher, mas das crianças que jamais se tornam homens. Se há quem olha pros nerds e seus jogos de videogame (pff, esses nerds) ou pros moderninhos e sua vida cínica e diz "ah, olha esses homens que nunca crescem", eu diria que esses são simplesmente pessoas honestas e vivendo o seu tempo: os engravatados são como meninos vestindo sapatos grandes demais.
Acho que em certo sentido - pois eu tenho mesmo uma visão de certa forma uniforme da humanidade - nunca houve essa tal de "maturidade". Que infantil, por exemplo, essa brincadeira de padres, reis, rainhas, ditadores, etc que causaram tantas guerras no curso da humanidade. Essa guerra tão associada à virilidade é uma mera brincadeira de menininhos, maturidade envolve paciência, racionalidade, diplomacia, etc. As crianças irritam os adultos, podem lhes tomar toda a atenção, podem lhes distrair dos assuntos sérios: assim é quando as boas e saudáveis mentes de um tempo são forçadas a dedicar sua atenção à pequenezas políticas da época. As crianças recusam-se a brincar juntas; o adulto deve intervir. As crianças não decidem-se quem é o dono do carrinho; o adulto deve intervir. As crianças são malvadas pelo prazer da maldade; o adulto deve intervir. A diferença do cenário social pro cenário doméstico é que no cenário doméstico, em última instância, o adulto tem a força - claro, a criança não tem uma capacidade plena de raciocinar, às vezes deve-se descer ao nível dela - em termos de sociedade, são as crianças as possuidoras das armas e do dinheiro: segue-se o triste caminho de tentar dialogar com quem não sabe falar, pois sabe apertar um gatilho ou realizar um trabalho bem-pagante qualquer.
Assim que desenvolvemos toda uma cultura de falar com adultos em linguagem de bebês: livros de auto-ajuda dizendo que tudo vai ficar bem, pode parar de chorar. Livros dos mais diversos assuntos dizendo que você é o fofuchinho mais bonito de todos os tempos e que os outros meninos são maus, grr, muito maus e feios também. Muito dos livros "técnicos" de uma livraria não passam de "alugue-um-argumento" para fazer bonito quando você entrar na internet.
Lendo os aforismos sobre a sabedoria de vida de Schopenhauer e tantos outros livros sobre sabedoria de vida que são lançados por aí percebemos claramente a diferença entre maturidade e infantilização: no primeiro recomenda-se autocontrole, conformidade com o sofrimento inevitável, que se dê valor à saúde e ao temperamento, que não se valorize tanto honrarias e posses; os outros são guias práticos de como adquirir aquilo que você nem sabe se quer, regras para ser feliz a todo custo, que se valorize qualquer coisa que sua vontade aleatoriamente deseje. É a diferença entre um adulto caminhando no mundo e uma criança chorona que acha que o próprio umbigo é o centro do mundo.
É bom que filósofos não tenham armas - isso aparentemente só acontece quando a humanidade deseja novas formas de genocídio - assim como é desejável que jamais se aplique violência contra as crianças (e quando o faça, que seja com bom senso - é pela falta de bom senso e maturidade na aplicação de força contra as crianças que o estado acaba por legislar o assunto) e na medida que a humanidade não se extinga, o que é uma preocupação real dado que as crianças detém as bombas atômicas, serão poucos os adultos e frequentemente serão ridicularizados por não estarem usando calças longas (das estupidezas de épocas que não a nossa: definir maturidade pela calça).
Há quem ache que um mundo infantil seria colorido e cheio de algodão doce, mas não, um mundo infantil é esse mesmo, onde tudo o que é pequeno impera. Que as crianças brinquem e se matem então, o que eu posso fazer? Só gostaria que saíssem do meu gramado.
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