Sexta-feira, Junho 03, 2011

Queimar as asas

Nunca houve bons motivos ou bons propósitos ou bons ideais, nem boas idéias em geral. Se a civilização é um movimento de elevação, é precisamente por ter sua matéria-prima naquilo que há de mais baixo, em dar alguma grandeza ao que não tem.
Medos em leis, ímpetos em deveres, toda uma relação confusa e desajeitada com fluídos e hormônios. Ainda não sabemos o que fazer com nossos corpos, entre castidade e hedonismo, a única característica marcante da humanidade é sua capacidade para o erro; pois apenas pelo juízo racional tipicamente humano que se dá o erro. Os sentidos, afinal, transmitem o que transmitem, é na interpretação dos dados e no desenvolvimento de teorias que está a capacidade de errar e é no desenvolvimento de éticas que está a capacidade para o mal. Não que teorias sempre levem ao erro ou éticas sempre causem mal; há a capacidade para o acerto e a capacidade para o bem, mas o cotidiano são as opiniões erradas e as justificativas.
As guerras e as tiranias, os fundamentos inseguros pelos quais se ergueram superstições com o nome de sabedoria. É o velho conflito: a verdade tende a ser duradoura, mas é apenas uma contra a multidão de erros que, mesmo se passageiros, ainda são uma legião.
E isso nem toca o problema, aquele dos motivos, das justificativas e racionalizações, daquele vibrar cego da natureza que torna-se uma teleologia; mas não é para baixo que as coisas são atraídas? Se há uma causa final, não é mais intuitivo pensá-la como um abismo? Se a humanidade é empurrada por uma causa primeira, não é de se imaginar um chicote que estala dando o passo da marcha? Se caminha por si só, não é de se imaginar uma turba descontrolada? Se tende a uma direção, não é para baixo? E se escreve para relatar sua escravidão, sua falta de sentido, sua queda, não busca fazê-lo com heroísmo, sabedoria e ascensão?
Mas será todo o heroísmo o relato de uma sobrevivência que não tem escolha senão sobreviver? Toda sabedoria uma ordenação artificial? Toda ascensão, um juízo errôneo acerca da querda?
E se o real heroísmo for uma luta contra as amarras da natureza, representado pelo suicídio? Se a sabedoria for a desistência da busca pela verdade e pela felicidade? Se transcender significar aprofundar-se nas entranhas, cada vez mais distante da luz?
Mas se for esse o caso, como julgá-lo? E se de todas as drogas desse mundo, existir ainda essa: que ele exige sobrevoar para observar melhor e, ao mesmo tempo, queimar as asas, por apenas assim ser possível movimentar-se?
O transcendente como mera provocação.

1 comentários:

Rodrigo Souza disse...

Ora, ora. Ainda aí. Como estás, filósofo?