Baco, gatinho preto e branco, sempre foi um tanto quietinho e talvez por isso (e pelo fato de termos outros dois gatos que são muito saudáveis) não percebemos que ele foi gradativamente parando de comer... até parar.
Ele foi internado duas vezes, mudou de veterinário 3; ninguém sabe o que há de errado nele, amanhã vamos numa veterinária de um hospital grande aqui que é especialista em felino, nossa última chance. Na falta de diagnóstico, o diagnóstico se torna uma doença chamada PIF, a versão neurológica, que vai desligar o cérebro dele aos pouquinhos. Um vírus cujo teste mais confiável ainda tem uns 20% de chance de dar falso positivo ou falso negativo e que não tem cura. É bem raro, nenhum dos veterinários que já passamos sequer viu um caso, quanto mais tratou.
Ele já anda mal, cambaleante, não sobe e nem desce sozinho dos lugares. Quem está acostumado com gato, sabe que ver um gato que depende de você para ir ao sofá que ele gosta e, mesmo assim, precisar ser vigiado para não cair no chão, é uma das coisas mais tristes do mundo. Ainda mais se tratando de um filhote.
Entre uma internação e outra, eu dava remédio pra ele 7 vezes ao dia, alimentando com seringa outras 3. Após a segunda internação, ele está voltando, aos pouquinhos, a se alimentar por conta própria, é o único pequeno raio de esperança que temos nesse mês que está sendo tão difícil. Uma veterinária disse que se for a PIF, ele não se recuperaria e ponto, então sinal de melhora é um ponto positivo também nesse sentido.
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Nesse meio tempo de tensão e desespero, de passar o dia todo cuidando dele achando em maior parte em vão, de ter as pequenas esperanças destruídas pouco após surgirem, você começa a fase da barganha, a jogar teorias pra lá e pra cá no seu cérebro, é aquele estranho instinto de racionalização a partir de um impulso irracional.
Você googla os sintomas porque vai que sua pesquisa de 10 minutos diagnostica algo que um profissional treinado não viu. Você questiona acerca de Deus, pensamento positivo, maldições e no auge do meu pessimismo eu não consigo conceber um mundo tão horrível quanto essas três opções:
- Um Deus onipotente e bondoso tortura meu gato para que de alguma forma eu passe a amá-lo.
- Eu vejo ele doente, eu concluo logicamente que talvez ele piore mais e isso se torna *causa* da piora, iniciando um ciclo onde eu estou assassinando meu gato via observação.
- Não basta existir um vírus, dificuldade de diagnóstico e tratamento, dificuldades financeiras nas pesquisas veterinárias e toda espécie de problemas materiais e terrenos. Não basta pessoas terem poder de matar seus animais via envenenamento, atropelamento ou todo tipo de maldade física, elas ainda são capazes de matar seus animais via rituais e espíritos. Nós precisamos *mesmo* postular espíritos ruins para fazer desse um mundo ruim? O que os vivos fazem não é o suficiente para você se convencer disso? O que forças da natureza prejudiciais incontroláveis pela ciência atual fazem não é o bastante?
Sem contar os erros que eu cometi e nem percebi, coisas do tipo: se eu tivesse percebido mais cedo que ele estava parando de comer, se eu tivesse dado mais valor ao fato de que ele é menor ao gato um mês mais jovem que ele, etc. Adicionar o sobrenatural na equação de coisas que podem causar uma doença é só elevar o caos do mundo a um nível um tanto exagerado.
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Mas ele melhorou um pouquinho e eu ando com vontade de rir alto em relação a coisas que não merecem de fato tal risada. Ele ainda está bem doente, mas às vezes temos que fingir que pequenas vitórias são grandes vitórias. A arte não é (nem de longe, eu diria) a única mentira que impede que o peso da realidade nos destrua.
Pensei em fazer uma tatuagem:
ou
Só os desenhos, não a capa toda. Primeiro eu pensei que a idéia de tatuar o gato fazia sentido por causa da situação, aí eu me interessei também pelo coração e tive que reavaliar meus motivos.
Primeiro eu pensei que era algo como um testamento, eu quero deixar assim bem claro que gosto de Beat Happening antes de morrer. Mas isso não faz sentido, uma tatuagem é algo que queima com seu corpo na morte, então eu acho que é pra eu não esquecer quem eu sou.
E o engraçado é que eu quase não ouço música, não busco uma banda nova faz meses, talvez por isso eu queira isso gravado na minha pele. Twee é um dos meus lados que eu mais gosto e é a primeira vítima de todas minhas crises.
Twee é sobre as coisas pequenas serem preciosas; é o oposto dos desejos de revolução, da grande capacidade técnica, da teatricalidade, de groupies, dinheiro, espadas e dragões, ultra-sentimentalismo, ou qualquer megalomania que esses genêros de música pop costumam se associar. É sobre as pequenas tristezas e pequenas felicidades; é um ritmo de vida que te leva a construir uma imagem de si próprio (e uma carreira, uma "filosofia de vida", um sentido geral para a existência) aos pouquinhos.
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Minha felicidade atual é ver Baco comendo aos pouquinhos, se recuperando aos pouquinhos. Espero que aos pouquinhos assim, nós dois possamos crescer juntos.


1 comentários:
:"(
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