Domingo, Janeiro 16, 2011

Pessimismo

Quando eu me disponho a explicar como é o meu tipo específico de pessimismo, a primeira coisa que gosto de dizer é que não é uma teoria sobre como prever o futuro.
Ser um pessimista, do modo como sou, não significa que numa aposta com 50% de chances, eu preveja que sairei perdedor. Não é nenhuma crença em Lei de Murphy ou nada do tipo; na verdade, na minha vida, as coisas costumam meio que dar certo de algum modo misterioso, então como eu me mantenho pessimista?
Meu pessimismo é um modo de ver a vida em geral: quando observamos o mundo e nos perguntamos se ele tende ao bem ou ao mal; se há mais felicidade que sofrimento; se há mais justiça que injustiça; etc. a balança tende a pender (por vezes bastante) pro lado péssimo.
O mundo é um lugar bem ruim, a vida é bem difícil, o sofrimento é bem constante, a crueldade parece onipresente e a compaixão um milagre, etc. E há a questão da morte: nós chegamos nesse mundo com data de expiração e sem manual de instruções, passamos a maior parte do tempo só resolvendo problemas que a vida joga em nós, uma outra parte só nos preparando para alguma satisfação futura, com momento fugazes de alegria. A coisa é tão foda que quando estamos nos divertindo, o tempo passa mais rápido.
Isso não significa que eu não vou ganhar na loteria amanhã, que o jogo que eu comprei sem ter certeza não vai acabar sendo muito divertido, que o amor da sua vida não estará essa noite na balada, etc; a vida em geral é uma droga, mas eventos particulares bons podem muito bem acontecer.
Então quando eu digo que as coisas na minha vida meio que dão certo, é um misto de bons acontecimentos particulares e o meu próprio pessimismo que me torna, creio (e espero), mais apto a suportar a vida.
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Quão infinita é a miséria das pessoas que esperam que as coisas funcionem? É verdade que as coisas funcionam de tempos em tempos, aos poucos, mas pra cada evento da minha vida que deu certo, ocorreram umas falhas bem brutais no passado, parte do pensamento otimista que diz "não desista!" funciona também na versão pessimista do tipo que prevê o futuro: "você só tem 1% de chance de dar certo! Tente 99 vezes!"
O meu tipo de pessimismo me dá uma força do tipo que é fútil desanimar e é fútil esperar por justiça e é preciso suportar com força a crueldade dos homens; é claro que eu quebro às vezes, Thaís que sabe, ás vezes eu quebro feio - há um limite de quanto peso um menino de braços fininhos consegue suportar - mas grande parte das vezes, quando eu choro, não é só por causa do evento determinado que me causou a dor, mas é porque esse evento determinado me lembrou que a natureza do mundo é dor.
Eu sofro muito, pois eu choro pelo mundo; eu aguento muito, pois quando enxugo as lágrimas e acordo no dia seguinte e tento de novo, não estou pronto para encarar de novo o evento particular, mas sim todo o peso do planeta.
Parece arrogante dizer isso, mas o modo de pensar pessimista aos poucos te acostuma a isso: quando ocorre injustiça, você não se permite a lamentar essa injustiça, mas você lamenta A Injustiça, que contamina o mundo todo e sua vida toda e continuará a fazê-lo enquanto você viver. Isso te força a encontrar forças para lidar não só com a injustiça atual, mas com todas que ocorreram e com o medo de todas que porventura podem ocorrer.
Às vezes é demais, às vezes você falha, você quebra, o desespero toma conta; adicionar ao peso da tragédia particular o peso da tragédia em geral é por vezes dar um passo maior que a perna. Mas mesmo isso não é um problema tão grave, pois o mundo é péssimo de tal modo que passos maiores que a perna são dados, que às vezes você falha, às vezes se desespera.
Não é minha intenção, com esse post, dar uma receita de como lidar com a dor, - seria uma receita bem estúpida se viesse com "desespero" como possível efeito colateral - mas sim um aviso de que coisas ruins acontecerão e um hábito de como se lembrar desse aviso na medida em que elas acontecem.
Eu acho mais fácil passar por um desafio se eu sei de antemão que ele é difícil. Jogar as recompensas pra um mundo futuro pode funcionar também; achar que o universo te ouve ou que Jesus vai te dar um carro é uma fonte tão infinita de frustração que caso frustração fosse energia elétrica, esse seria o moto perpétuo.
Adquirir o hábito de viver mesmo sob sofrimento é algo que o pessimismo oferece; se acostumar com a idéia da morte é outro presente.
Eu sei que eu vou morrer, minha consciência vai deixar de existir, não existirá mais meu eu, meus sofrimentos, meus sonhos, não vou poder nem ver as pessoas chorarem saudades de mim, não verei os injustos pagarem sua injustiça, não serei recompensado pelos meus atos bons, simplesmente não serei. E assim se passará com todos que eu amo, com tudo que prezo.
O pensamento pode levar a um tipo de desespero, mas habituar-se a ele traz uma preciosa capacidade de resignação. De aceitação do destino.
Sei que não serei, ainda assim vivo, busco cuidar bem dos meus gatos, ser bom para quem amo, não ser desonesto mesmo com desconhecidos, tento pagar minhas dívidas, obedecer as leis. Aceitar o destino é uma superação do niilismo. Aceitar o nada como um fato tão natural como a chuva é resistir a tentação de idolatrá-lo.
Não há porque viver mal só porque esse é um mundo que tende a não dar certo; isso é ser adolescente. Também não há porque fantasiar com mundos melhores; isso é ser uma criança.
O que eu entendo por maturidade, minha e da civilização, é, seguindo Kant, o uso do conhecimento sem direção dos outros; eu diria também, na medida do possível, sem direção de medos ou birras. A resignação que o pessimismo traz torna o medo e a birra luxúria e futilidade. É fútil ter medo do mundo: ele vira devastador e implacavável de qualquer modo, assim como não podemos nos enganar e nos dar o privilégio de bater o pé até as coisas serem do jeitinho que queremos. Ter consciência de nossa faliabilidade, de nossa falta de luz, é ser mais compreensivo com a falha dos outros - tão humanos quanto nós - e mais responsável com nossas próprias.
Não há porque negar e envergonhar-se do erro, pois o mundo não abre-se para nossa razão como um livro escrito em linguagem matemática, pelo contrário, creio que é nossa razão que dá matemática ao mundo, deformando-o, pois conseguimos compreender apenas a imagem turva (mas esse é outro assunto).
E com consciência que erramos, algo nessa razão que dá forma ao mundo nos compele também a sermos justos para com nossos erros e aprender com eles.
Nem sempre isso tudo dá certo, mas como já repetido algumas vezes, esse é um mundo que as coisas frequentemente falham mesmo.
A vida em geral é difícil, toda vida em geral é sofrida; isso faz com que eu procure olhar com maior carinho para aquelas coisas da minha vida que não são sofrimento e honrar e fazer bom uso das oportunidades que surgem.
Pensar no mundo como um que tende ao mau às vezes leva ao desespero, mas saborear esse pensamento e acostumar-se com toda sua amargura pode bem ser o que torna o mundo tolerável.

3 comentários:

Anônimo disse...

concordo

Yuri disse...

Bom raciocínio, bom texto. E também concordo, por sinal. Em partes.

Thara disse...

Todas as partes.