Terça-feira, Janeiro 04, 2011

Os caminhos da civilização

A ciência às vezes compartilha com a filosofia a arte de dizer certas coisas que são óbvias.
Li algo mais ou menos assim em um blog: "Na escola, aprendi que história é movida por guerras e líderes, por indústria e recursos, por religião e idéias; mas o que fulano de tal diz em seu livro, é como que para isso ser necessário, foi preciso solo fértil e material para produzir roupas".
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O lance é: ninguém questiona que antes dos gregos se perguntarem acerca da natureza das coisas, eles precisaram, primeiro, ter o que comer e o que vestir. Assim como ninguém questiona que antes dos babilônios ou chineses ou tupi-guaranis serem o que foram, eles precisaram comer ou vestir.
Mas o que importa, se tratando da história das civilizações, não é o momento em que elas são tribos isoladas, com mais ou menos dificuldade; o que importa é o momento em que elas se comunicam, estão, na medida do possível, em algum pé de igualdade.
Se tornar superpotência após duas guerras mundiais é tão pouco mérito quanto conquistar continentes selvagens usando pólvora. Sentir-se escolhidos de Deus fazendo isso é tão-somente o velho e previsível hábito boboca dos homens em serem bobocas.
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Há de se pensar o que faz a força de uma civilização: as guerras que ela vence, a marca que ela deixa no mundo, a qualidade de vida de seus habitantes, quanto ela dura, quantidade terra ela ocupa.
Não é raro que o lado bárbaro da coisa vença uma guerra. Há, aliás, sempre o medo de que estamos nos tornando refinados demais e perdendo nossa capacidade de perfurar o crânio do inimigo de modo que seu cérebro retire-se de lá. Há sempre o desejo de ser tão bárbaro quanto os bárbaros, mas com nossa tecnologia e conforto.
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Tecnologia é uma coisa engraçada. Há algo de quase místico em utilizar um poder incompreensível. Quem aí tem o conhecimento contido em um relógio digital? Da fabricação do plástico da pulseira, da fabricação do chip, da metalurgia dos parafusinhos, da química da bateria, etc. Quem tem o conhecimento de todas essas partes ao mesmo tempo?

Há dois modos que um bárbaro encara a tecnologia: ou com espanto e reverência ou com indiferença e ingratidão. Ou a tecnologia é o fogo de Prometeu vindo dos deuses ou ela está aí como as árvores estão aí. Em nenhum dos casos há o respeito a algo que é, afinal, o conhecimento materializado de um enorme número de humanos dedicados.

Despersonalização e individualidade caminham juntos. A civilização caminha a épocas menos personalizadas - o líder é um gabinete com um sem-número de assessores, o cientista é uma equipe em um laboratório em uma universidade, o artista é uma multidão de 15 minutos de fama - ao mesmo tempo que a épocas mais individualizadas - o líder toma decisões menos gerais e com melhor conhecimento de necessidades locais, não há assunto pequeno ou bobo o bastante pra não ser pesquisado em algum departamento de alguma faculdade, você constrói seu repertório de artistas e estilos a partir de um portfólio infinito.

Isso ocorre dado o grande número de pessoas, ou seja, dada a grande capacidade de alimentação e abrigo, mas a humanidade é um sistema que corre pra todo o lado em que nenhum é particularmente o começo.
A deusa inspira a agricultura ou os agricultores criaram uma deusa para simbolizar seu cultivo? Nossa tecnologia gera alimento que gera pessoas ou o alimento gera pessoas que gera tecnologia? Espero não parecer irritantemente filósofo de boteco, mas o importante - pelo menos aqui - não é a ordem cronológica das coisas, mas o seu lugar em um sistema atual, de outro modo, seu lugar na teia.

Em um ecossistema, as coisas alimentam-se reciprocamente, no que adicionamos elementos a civilização - e quando o fazemos, eles raramente estão em uma ordem bonitinha de "isso se alimenta disso que alimenta aquilo" - isso não muda o fato de que o sistema continua fechado - e a despersonalização e individualização tornam as previsões muito complexas: quem explica como a presidenta foi eleita? Infinitos debates ocorrendo na internet, com infinitas questões sendo discutidas, infinitos dados disponíveis de modo fragmento para cada uma das infinitas pessoas. Qual dessas infinitas variáveis fez cada eleitor tomar sua decisão? Eu sei o que fez o meu voto ser o que foi - e esse motivo não mudou o voto de mais ninguém que conheço. É uma época estranha para ser uma democracia - ou qualquer coisa.

A civilização não vai a nenhum lugar em particular, mas ela corre. Sentimos o efeito de um milhão de diferentes notícias diárias e globais, mas o procedimento ainda é tomar café da manhã hoje e se preparar pra tomar outro amanhã.
As coisas são mais complexas, mas ainda existe o básico. O complexo não substitui o básico, não deixamos de lado a barbárie só por ser civilização, mas isso não significa de modo algum que a civilização é bárbara. Há camadas, há camadas nos indivíduos e há camadas no social. No fim, o teste da civilização é sustentar seu próprio peso, ou ainda, sua camada de pesos.
Sustentar a necessidade de vestimenta, abrigo, alimento foi uma etapa, essa etapa continua, mas a ela foi adicionada a necessidade de respostas, de razões, de conforto, de ética, de justiça, de bem-estar, etc.
E nenhuma camada está acima ou abaixo da outra e é difícil acompanhar onde, dado um indivíduo qualquer, está mais peso, menos peso, qual atrapalha, qual ajuda. E a complexidade toda trata-se sequer de ir em uma direção - falamos aqui apenas de viver nossa vidinha entre nascimento e morte. Unindo as vidinhas todas, com suas mesquinhezas e preocupações todas, sabe-se lá para onde caminha a civilização. Sabe-se se lá se é ou não para a bárbarie.

1 comentários:

Neila Gregorio disse...

Enquanto eu te lia hoje passaram em minha mente algumas músicas, a última delas foi Novos Horizontes, do Engenheiros do Hawaii, onde diz:

"Corpos em movimento. Universo em expansão. Quero explodir as grades... e voar. Não tenho pra onde ir, Mas não quero ficar.Novos horizontes. Se não for isso, o que será?"


Quer dizer...alguém sabe pra onde está indo?
Isso importa, realmente?

Nao sei, mas os meus prazeres ainda estao em satisfazer minhas necessidades psico-fisiológicas, então...por enquanto isso me basta.