Sábado, Janeiro 15, 2011

Da série "é certo, pois eu vivo assim" (arte).

Ou da série: "internet não é lugar de debate"; sinto certa alegria em não debater arte.
Minhas conversas sobre arte, mesmo aquelas que ocorrem dentro da galeria de arte, geralmente se resumem a "eu gosto" e "eu não gosto".
Eu poderia elaborar, claro, e algumas vezes elaboro, mas a questão é que na maior parte do tempo, o motivo pelo qual você gosta de um artista - se é que você próprio pode discerni-lo - é interessante tão-somente pra você, de modo que esforçar-se em explicar porque você gostou de algo - especialmente pra alguém que discorda, gerando o tal debate - é simplesmente falar dos próprios sentimentos. E a gente geralmente só fica assim discursando sobre nossos sentimentos quando:
a) Temos um blog.
b) Temos uma pessoa íntima sinceramente interessada em saber.
c) Somos chatos, egocêntricos e mimados.
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Quando você está falando sobre alguém, algum amigo ou até mesmo lendo uma crítica de alguém que você respeita, num geral, um "eu gosto" basta para que você preste atenção em algo que geralmente não prestaria tanto. E, ainda confuso, um "Por quê?" tem como resposta geralmente atenção a algum detalhe:
Ouça essa passagem com atenção; leia de novo esse trecho; observe o quadro dessa distância; etc.
Assim, dado que você confia na pessoa, você se abre mais para a obra e dá a ela mais uma chance de te afetar. Quando falha, ambos concordam em discordar e a vida progride.
Isso não é filosofia da arte acadêmica, nem crítica, nem análise; é só como acontece no meu cotidiano e eu acho que mantém uma relação agradável com a arte e agrabilidade é um componente importante (logo, o título do post; eu estou meramente defendendo como as coisas ocorrem em minha vida).
Se você casualmente chama atenção de alguém para algo, você apela à sua sensibilidade. Se você faz um argumento, você apela à razão.
Existe um bocado de espaço pra razão na arte: na crítica, na análise contextual, na análise do conteúdo, da técnica, da forma, etc; mas o ato específico de abrir-se a uma obra e experimentá-la e ser movido por ela é um ato sensível; a crítica, a análise contextual, a análise técnica podem servir de argumento para convencer alguém a dar uma chance a mais para a obra, mas o juíz do gosto é a sensibilidade.
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Não que gosto seja impossível de aproximar-se de uma objetividade, afinal, a sensibilidade por si própria já é uma "aproximação de objetividade", o gosto pode ser refinado pela prática de experimentar mais e mais obras, de modo a ser menos surpreendido por inovações, menos chocado, e deixar que a obra fale mais por si própria (ser um artista inovador, pra mim, diz muito pouco, num geral significa tão-somente passível de ser imitado no curto prazo e superado pela própria técnica no médio prazo - ser um bom artista me parece melhor do que ser um artista inovador).
Mesmo que a objetividade final não seja alcançada - sempre levamos alguma bagagem conosco, algum preconceito (positivo ou negativo) para com o nome do artista, um estômago mais ou menos cheio, pés e olhos mais ou menos cansados, entusiasmo, tédio, conhecimento histórico ou sua falta, desejo de ver algo novo, desejo de ser levado pela arte, etc.
As variantes são muitas para falar-se em objetividade, ainda assim, supondo que vemos as mesmas formas e cores, ouvimos os mesmos sons, compreedemos as mesmas palavras; não é questão de falar-se em subjetividade absoluta também.
Seja em que meio do caminho nos encontramos, nos encontramos experimentando a arte. Não argumentando que ela é boa.

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