quarta-feira, janeiro 27, 2010

Protágoras - Platão

Mais uma pequena resenha por propósito de arquivo pessoal, acompanhado pela leitura que estou fazendo de Hans-Georg Gadamer em "A ideia do Bem Entre Platão e Aristóteles". Lembrando (de modo razoavelmente covarde, mas necessário) que isso não é um estudo formal da obra em questão, mas só uma deliberação rápida.

Faz parte também de um projeto particular que estou fazendo de estudar acerca do pessimismo nesse ano que não estou oficialmente estudando nada, que é pra não enferrujar e tal.

Eu estou usando uma edição da Edipro de 2007; como não sou especialista não posso opinar muito, mas a edição me motivou o bastante pra comprar A Metafísica e A Ética - Textos Selecionados do Aristóteles dessa mesma edição.

O do Gadamer é uma edição da Martins Fontes de 2009, que é lindinha, pocket e tal.
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O problema inicial com todo díalogo platônico é saber, de antemão, que você vai ter uma visão bem parcial de um debate que nem temos como saber se de fato ocorreu historicamente (embora seja razoavelmente irrelevante). Seria tão bom ter em mãos escritos completos do próprio Protágoras para que pudessemos de fato ter uma boa noção do díalogo da época, infelizmente, temos apenas o Platão.

O problema inicial do díalogo é colocado antes mesmo de Protágoras entrar em cena; um amigo avisa Sócrates que Protágora, um sofista de grande respeito, está na cidade e que pretende aprender com ele.

Sócrates logo coloca a questão acerca do que exatamente um sofista ensina; se fosse um pintor, você aprenderia a pintar, por exemplo, mas ser um sofista não é, em primeiro lugar, algo bom ("não ficaria envergonhado de apresentar-te ante aos gregos como um sofista?"); mas logo se define que o que Protágoras tem a oferecer não é nenhuma técnica específica, mas uma espécie de senso comum que todo cidadão deveria ter; coisas como leitura.

O tema continua sempre no questionamento acerca do que um sofista pode ensinar: Platão faz, logo aqui, o que talvez seja seu principal argumento - falta ao sofista uma espécie de conteúdo em sua lógica.

Se o sofista ensina a passar uma mensagem, sobre o que é a mensagem? Bem, sobre aquilo que o sofista sabe, mas o problema é que ele não sabe particularmente de nada, ele só sabe "comunicar"; mas ele é sempre dependente de um conhecimento específico que, de antemão, se assuma que ele não tenha.

A questão é interessante, pois me lembra que é o mesmo movimento que os modernos fazem para combater o platonismo, eu vou desenvolver isso melhor mais tarde, mas a questão é que lógica sem conteúdo é mesmo um tanto vazia: todo gato é verde / as coisas verdes tem bigode / logo todo gato tem bigode é algo perfeitamente lógico, mas o conteúdo das informações é risível.

É bom aqui relevar então que um sofista não é um bom orador porque ele diz coisas bonitas e agradáveis de ouvir, mas porque ele argumente muito bom, porque geralmente não há uma falha em sua lógica, deixando a manipulação (a desonestidade a qual eles são associados) ao terreno dos fatos.

O exemplo clássico é do homem forte que é assaltado pelo homem fraco.
No tribunal, ambos devem mentir; o homem fraco deve dizer que não assaltou (uma mentira), pois um fraco não conseguiria dominar um forte (o que é falso de acordo com os fatos, mas verdadeiro de acordo com a crença comum); já o homem forte deve dizer que foi assaltado (uma verdade), mas por um grupo de homens (o que é mentira, mas que o salva da contradição do senso comum).

A moral dessas historinhas é que se ninguém tem um conteúdo normativo seguro onde se apoiar, a lógica serve para justificar qualquer coisa - é essa a crítica que Platão faz aos sofistas e será essa a crítica que os modernos farão aos neoplatônicos.

Prosseguindo, logo Sócrates chega aonde está Protágoras e lá se inicia um debate sobre o que Protágoras ensina.

Protágoras é admirável por logo acusar os outros sofistas de covardia por não se dizerem sofistas; ele não tem vergonha de se apresentar aos gregos como sofista, pelo contrário, percebe isso como uma dever cívico, pois os ensina a argumentar de acordo com a virtude.

Coloca-se aqui que o conteúdo que Protágoras ensina é, de novo, um tipo de senso comum que todo cidadão deve saber, ou seja, como ser um bom cidadão, ter virtudes como justiça, moderação e devoção.

A seguir, dois debates ocorrem paralelamente e é um pouco incômodo acompanhar um sem que o outro tenha se resolvido (embora tudo seja amarrado de forma bem sucedida no final).

Um debate é sobre o que é virtude, se ela é uma unidade ou se contém partes - e o outro é se tal virtude pode ser ensinada.

A posição inicial de Sócrates é que virtude não pode ser ensinada e de Protágoras é que ela pode, no final as posições se inverterão, mas com uma diferença importante.

O problema todo é qual o conteúdo que você usa para basear suas retórica. Gadamer diz que na República o sofista é um "mercenário da opinião pública", a questão é que um sofista não sabe realmente de nada e para formar sua retórica, ele precisa se basear em algo e sua base é o senso comum (percebem o círculo vicioso? O sofista retira seu conteúdo da opinião pública e cobra para ensinar o público essa mesma opinião, se alguma coisa, melhor estruturada formalmente). Todo o projeto platônico está em retirar o conteúdo do mundo empírico, onde ele é mutável e manipulável, e colocá-lo em conceitos eternos.

Neste díalogo ele se limita a fazer uma espécie de preliminar disso, Sócrates não tem tanto interesse em dar um conceito eterno capaz de guiar a retórica para a verdade, mas ele está interessado em fazer uma afirmação positiva: de que há unidade na virtude.

Então quando Sócrates, ao fim, argumenta que a virtude pode ser ensinada, ele o faz com base de que esse tipo de conhecimento é diferente do conhecimento de um carpinteiro. O problema, afinal, não é o sofista querer ensinar virtude, mas é ele querer ensinar virtude como se fosse uma técnica qualquer.

No fim, até hoje, o debate ético lida com esse problema: como se ensinam coisas que nós meio que pegamos enquanto vivemos? (tem umas tirinhas do Dilbert em que Dogbert abre uma escola de senso comum e a pergunta do Dilbert é: "Quem pagaria para aprender algo que não se ensina... a não ser pessoas sem senso comum?")

A tradição filosófica inglesa (empirista), em particular, se preocupa com a questão do senso comum, pois os dois modos éticos básicos de um empirista é ou observar o passado e ver o que deu certo (como se faz nas ciências naturais) ou realizar um cálculo utilitário para saber qual opção trará menos sofrimento ou coisa do tipo (como se faz em economia). De qualquer modo, ética não é algo que se ensina em uma escola: obedecer a tradição é algo dado pela convivência em sociedade e aprender a calcular probabilidades não é bem aprender a ser ético.

A conclusão do díalogo é que o sofista não é alguém que ensina virtude, como Protágoras anuncia no começo, já que ele próprio acaba por admitir que virtude não pode ser ensinada; é claro, falta saber como o real Protágoras responderia; no fim, o que Sócrates diz é que a tradição é insuficiente (e é justamente de coisa que esse tipo que ele foi acusado).

O que Sócrates tem como conteúdo que guia a lógica é uma noção (que nesse díalogo é bem vaga) de que há um tipo de sabedoria (que é diferente da sabedoria que Protágoras pode passar, que é a técnica) que leva à virtude. Aqui há um monte de premissas; de que a virtude leva a uma vida feliz e prazerosa, por exemplo, fazendo com que seja um contrassenso buscar não ser virtuoso de propósito; que nós não sabemos se é algo da cultura grega ou simplesmente platônico (ao menos eu não sei); mas a questão é que Platão também se baseia em certos sensos comuns e tradições para colocar a noção de que é guiado não por um senso comum, mas por um conceito que norteia quase que inconscientemente, à uma equivalência entre sabedoria e virtude (de modo que o virtuoso é ignorante e não mal).

Todo o projeto platônico será o de separar esse tipo de conhecimento que leva à virtude do tipo de conhecimento técnico que se pode aprender pagando um professor.

Muitas águas e pontes depois e toda a ética da humanidade européia dependerá de um Sumo Bem que norteia o conhecimento e logo isso se tornará uma tradição e alguém dirá que se basear nessas coisas cria uma retórica que faz a lógica girar em falso, mas isso é assunto pra milhares de anos no futuro.

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