Compaixão

Compassion and Caring por Dale Wicks
Há algo de inescapável na solidão.
Toda alma traz, dentro de si, o todo do universo.
Em algum local atrás de seus olhos e simultâneo a seu cérebro, está a capacidade de transformar a força cega e indiferente que compõe o mundo em coisas dotadas de significado, mesmo que ausentes de sentido.
Em cada alma há uma constelação incrível e de sensações e conceitos; relacionados de acordo com ainda outra incrível constelação de formas e regras.
Ainda assim, é como se cada alma, cada local atrás do olho, está preso em uma caixa. O ato de transformar o todo do universo em sentido é um ato universalmente solitário.
Os outros realizam o mesmo processo dentro de seus locais atrás de seus olhos, mas cada alma é uma interpretação do mundo, por semelhante que seja, no nosso universo vive nós apenas e por importantes que os coadjuvantes sejam, estão fadados a serem apenas coadjuvantes.
Toda vida é um monólogo com interlocutores fantasmas.
A inevitável solidão advinda precisamente do modo como nos compartilhamos com o mundo é acompanhada ainda do modo como esse mundo se revela para nós:
O mundo é uma constelação de fatos sem sentido e sem propósito experimentados em um corpo que se tornou o que é por ter sobrevivido e que sobreviveu por sua capacidade de impulsionar-se aos seus desejos e tal impulso é o que chamamos de "sofrimento".
Criamos universos em corpos que adquirem suas energias do sofrimento. O sofrimento da fome nos faz buscar alimentos, o sofrimento da abstinência sexual nos faz reproduzir, todo tipo de sofrimento abstrato, o sofrimento por não ser importante o bastante, não ser competente o bastante, não ser rico o bastante, por querer alcançar o prazer futuro, por não satisfazer o que os coadjuvantes esperam do ator principal; toda ação é causada por sofrimento.
O sofrer não só é o constante do viver, mas ele confunde-se com o viver; sem o sofrer, a vida torna-se uma impossibilidade. É pelo sofrimento que se dá a propagação e manutenção da vida e é pelo sofrer que o fim do sofrimento se mostra como algo terrível. Sofremos com a morte, pois sofrer é vida.
Tudo o que vive sofre incessantemente enquanto vive.
Presos em seu universo particular, o homem criou constelações incríveis de conceitos para lidar com o modo como o mundo lhe aparece; tentativas das mais diversas de prometer o fim do sofrimento.
Presos em algum lugar atrás de seus olhos, tudo o que homem pode almejar é a mentira do fim do sofrimento.
Se criamos o universo em algum lugar atrás de nossos olhos e simultâneo a nossos cérebros, é com o todo de nossa vida que o sofrimento se manifesta.
Se com os nossos olhos nós podemos apenas presenciar a vida alheia, é pela vivência que há algo que pode ser sinceramente chamado de compartilhação.
Compaixão é sofrer o sofrimento do outro, não pelo ato egoísta de imaginar-se sofrendo o sofrimento alheio, mas pelo compartilhar da vida.
Se é pelo sofrimento que temos vida, é pela compaixão que compreendemos que o outro também tem vida e é por essa compreensão que escapamos da antes inescapável solidão. Recusar-se em compreender porque o outro sofre, até exigir que ele não sofra, é recusar-se a fazer parte da vida do outro, é exigir que ele seja expulso de sua vida.
Não há, no outro, respostas possíveis, não há, no outro, sentido ou propósito ou justificativa ou promessa de fim de sofrimento. Essas são as propostas dos egoístas e mentirosos.
O outro não nos oferece salvação ou redenção, mas nos oferece compreensão e companhia.
Nesse único verdadeiro ato de doar-se, a compaixão nos oferece um caminho para o universo do outro, onde temos o momento raro e precioso de vislumbrarmos outro ponto de vista.
Na compaixão adquirimos compreensão sobre a vida em si, realizando uma série de coisas que compreendemos como bem: alcançamos uma verdade, ajudamos a aliviar sofrimento, abrimos as portas da comunicação, da tolerância e ganhamos ajuda no projeto de fazer o mundo um lugar, num geral, melhor de se viver.
É impossível haver compaixão em quem está impregnado pela promessa de um tipo de existência sem sofrimento, seja nessa vida ou na próxima; desses conseguimos apenas mandamentos, exigências, deves e não-deves, toda uma série de coisas para que o universo particular do outro cumpra as exigências daquele que tem a resposta para o tal fim do sofrimento.
Mas compaixão não é resposta, não é sentido ou propósito, não é justificativa, nem salvação ou redenção.
Compaixão é companhia e companhia faz bem.

