Domingo, Maio 31, 2009

Um dia para destruir coisas...



... porque quando você tinha 19 anos

VOCÊ não quis um dia criar algo tão belo e puro
apenas para que um dia você pudesse inflamá-lo
e então ver a cidade acender enquanto queima?
Você já não quis fazer isso todos os dias de sua vida?

Nada deveria ser para sempre.
Bandas deveriam fazer um single e então se separar,
fanzines terminar após uma edição sem falhas,
amantes partir na chuva às 5 da manhã e jamais serem vistos de novo -

Hábito e medo de mudança são as piores razões para fazer QUALQUER COISA.

Acabar com um selo após 100 lançamentos perfeitos
é a mais linda declaração de arte pop possível
e diz mais sobre música pop do que qualquer digipak em duas partes
edição limitada em vinil 7" colorido
autenticamente lo-fi EP de dez faixas
(ou qualquer outro truque de marketing)
jamais irá.

Sarah Records pertence a ninguém a não ser nós,
então é NOSSA para criar e destruir como queremos
e nós não fazemos bis.

Nós queremos queimar em cores brilhantes e ir pop.
para ser alegre, impulsivo e bobo,
para beijar pessoas em novos lugares -
REQUINTADAMENTE
- e ousar despedaçar coisas.

O primeiro ato de revolução é destruição
e a primeira coisa a se destruir é O PASSADO.
assustador
como se apaixonar
nos lembra que nós estamos vivos

SARAH RECORDS
1987 - 1995
=

Sarah Records nasceu quando eu tinha dois anos e morreu quando eu tinha 10.
Quem lê isso acima pode pensar que Sarah era um selo punk comunista que queria obliteração da sociedade como nós a conhecemos, mas Sarah é o selo que lançou os álbuns mais doces e puros que conheço.

Sarah era o selo que lançava álbuns de Another Sunny Day, Field Mice, Heavenly e Blueboy.
Desse selo que surgiu o que hoje entendemos como "indie pop" e, talvez mais importante, o que entendemos como "indie".
EM 1987, punk era algo famoso e popular; o lendário 1977 havia acontecido há 10 anos atrás e as ruas de Londres estavam cheias de garotos violentos e machistas com seus moicanos e jaquetas de couro; em 1986, a NME havia lançado a C-86, uma fita cassete com bandas ao mesmo tempo tão independentes quanto as bandas punk, mas inspiradas por Smiths e nostálgicas por músicas pop simples sobre amor e besteirinhas adolescentes.
Um ano depois, surgia a Sarah Records para tais bandas independentes que não faziam parte de nenhum movimento específico.
Essas bandas eram para meninas que gostavam de coisas de meninas e meninos que se sentiriam bobos colocando um piercing ou fazendo um moicano; Heavenly por exemplo (minha banda favorita) era o projeto de uma menina que convidou uma amiga para fazer backing vocal, o namorado para tocar guitarra e o irmão de 14 anos para tocar bateria.
Era a essência do Do It Yourself sem esse ódio fingindo por tudo e por todos.
Suas músicas continham amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como tais elementos estão em histórias de crianças.
Assim como é infantil construir coisas só para queimar depois (não é uma das graças de construir castelos de areia em algum lugar onde há a certeza que a maré alcançará eventualmente? Não é algo puramente infantil brincar com seu carrinho favorito até ele quebrar? Atena sabe quantos batmans e wolverines não foram desmembrados em minhas mãos), Sarah Records sempre buscou lançar obras belas e puras e de bandas que ninguém esperava que fossem durar.
Fala-se em revolução, em destruir o passado, em "beijar pessoas em novos lugares", em não se tornar vítima do hábito e do medo; não é assim que crianças se comportam? Mais, não é esse o objetivo final de toda criança? Se tornar algo melhor do que os adultos que inevitavelmente se tornarão?
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Eu achei isso interessante porque acabou recentemente uma re-publicação online de Chuva Contra o Vento no Quarto Mundo e foi uma história que eu escrevi quando tinha exatamente uns 19 anos.
Na época, o único referencial que eu tinha de histórias do tipo eram os gêmeos Bá e Moon (e ainda praticamente são os únicos) e sempre me atormenta esse pensamento de que hoje eu não conseguiria escrever algo tão simples e bonito quanto foi o Chuva...
E é engraçado porque antes de ler ela no Quarto Mundo, eu tinha uma visão um pouco diferente da história, eu não gostava tanto dela, como uma criança de 14 anos não gosta dos seus brinquedos de quando tinham 10 porque agora elas já estão todas grandinhas com seus enormes 14 anos.
Lendo recentemente, eu vi uma história infantil, com amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como eles acontecem nas histórias infantis.
É uma história que eu tenho orgulho, que eu vejo menos falhas do que via há um ano atrás quando eu só lembrava da história e mais qualidades do que eu lembrava.
Eu algum momento eu cheguei a pensar "hoje eu não escreveria a cena do estupro; eu colocaria algo menos pretensioso e menos espinhoso, algo como eles saindo para um encontro e simplesmente não dando certo, simplesmente não havendo química" e é verdade que hoje que eu não escreveria tal cena, mas eu estou feliz que na época eu fui criança o bastante para fazê-lo.
Hoje eu teria que levar em conta mil fatores que na época eu simplesmente não pensava, na época soou apenas um cliffhanger interessante para o final do quinto número; pouco tempo depois eu me arrependi dessa parte da história, me achei lidando com algo mais sério e mais pesado do que eu tinha competência de lidar.
Lendo a história de novo, eu achei engraçado o quanto eu consegui manter algo do tipo silencioso. O fato não rende cenas violentas e traumáticas. A consequência dessa cena é um dialogo no hospital e um abraço na mãe.
É raro eu me sentir orgulhoso, mas eu me senti quando eu percebi como lidei bem com essa cena - entenda, como eu fui profissional, POIS eu fui infantil; POIS eu não entrei em grandes questões psicológicas e grandes cenas dramáticas e grandes especulações políticas e sociais sobre nossa sociedade machista que continua a ver uma mulher de saia parada em uma esquina como um objeto a ser utilizado. Foi infantil, foi um diálogo no hospital e um abraço na mãe.
Ele vai pra casa e chora.
Como mais uma criança lidaria com isso?
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De qualquer forma, é estranho eu me ver como um escritor hoje, eu sou talvez o roteirista menos produtivo do Quarto Mundo, eterno está saindo aos poucos e o que há programado pra depois dele são umas histórias curtas (24 páginas se mão engano) que sairão no novo website que eu e o Cunha estamos montando.
Na verdade, eu estou procurando desenhistas para mais histórias. Precisaria de alguém com um estilo bem bonequinhos palito para histórias de dois personagens:
Um será o vestido vermelho e outro o vestido azul e sei lá, eles vão conversar.
Pensando bem, talvez eu desenhe.
Haha, eu vou ser para o malvados o que Sarah Records foi para o punk; enquanto ele é todo profissional e todo artista fingindo que não sabe desenhar para fingir que odeia o mundo, eu que realmente não sei desenhar e sou sinceramente deprimido vou fazer tirinhas bonitas.
Vamos ver como funciona.
Eu tenho um roteiro deles por aqui.
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Ok, isso não exatamente funcionou, mas sei lá, uma amostra feita por alguém que não consegue nem fazer bonequinhos palitos.
E enfim, é isso, em breve eu vou ter mais histórias na web e se você desenhar eu posso em breve ter histórias suas na web.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Pensamento bobo do ônibus (filósofos em bandas de rock e hedonistas oprimidos)

Nietzsche é tipo o vocalista da banda; é pra onde as groupies adolescentes são automaticamente atraídas.
Marx é tipo o guitarrista da banda; é pra onde as groupies adolescentes que fingem que estão nessa pela música e não pelo star power são automaticamente atraídas.
Descartes é tipo o baixista da banda; é pra onde as groupies que se consideram mais profundas e que "realmente ouvem o som" são automaticamente atraídas.
Wittgenstein é tipo o baterista da banda; é pra onde as groupies esquisitas e tímidas que sinceramente gostam da música e estão nessa de groupie pra tentar fazer parte do lance, mas sem querer chamar atenção demais pra si próprias são automaticamente atraídas.
...(e eis onde o pensamento bobo começou)
Schopenhauer é tipo o amigo do banda; todo mundo gosta dele, todo mundo conhece ele, mas ninguém sabe exatamente o que fazer com ele. Às vezes ele fica de empresário, às vezes de roadie, às vezes ele até ajuda a escrever a letra de uma música ou dá um feedback sobre a música da banda e quem não conhece e vê ele no bar com o resto da banda até pensa que ele faz parte... e não é que ele exatamente faz parte, é só que a banda por algum motivo realmente gosta de ter ele por perto e então elas criam esses trampinhos off-stage pra ele só pra manter ele por perto.
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Bônus: Diderot é tipo Carl Johnson do Beat Happening; Kurt Cobain e outras 9 pessoas no planeta são realmente fãs dele e ele é peça-chave do início de um milhão de correntes de pensamento diferente; dito isso, ele ainda só é conhecido por Kurt Cobain e outras 9 pessoas, pois cada coisa que ele ajudou a criar ficou realmente famosa nas mãos de outras pessoas, então quando essas 9 pessoas morrerem (porque Kurt Cobain já se matou), ninguém vai lembrar que um dia ele existiu.

Bônus 2: Locke e Hume são Liam e Noel Gallagher respectivamente; eles são sempre citados como sendo quase a mesma coisa, mas Noel sendo mais violento.

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Vai, já que eu to no blog. Recentemente eu tenho ficado bravo com conservadores porque eles estão se sentindo abandonados agora que Obama ganhou a eleição. Os caras dominaram o planeta a década inteira e agora que perderam uma única eleição (e nem perderam de tão feio assim), estão profetizando que uma nova era de barbárie e comunismo e sangue e dor se anuncia. E a histeria, oh céus, a histeria!
É como se conservadores fosse uma minoria perseguida.
Mas falando em minoria perseguida, esses dias eu tive o mesmo sentimento de "pff, man up nancy boy" em relação a ateus hedonistas. É o que acontece geralmente quando eu decido visitar a comunidade de poliamor do orkut.
Ok, eu sou poliamorista, ateu, se não um hedonista convicto e por ideologia, ao menos hedonista porque não tem nada melhor pra ser por enquanto e essa é parte do ponto.
Você facilmente encontra na internet vídeos de todo e qualquer tipo de perversão sexual imaginada (protip: tubaholic); a série de filmes pornô dos anos 70 chamada "Taboo" que lida com incesto teve QUINZE versões. Uma série de filmes pornô que lida com incesto é um dos clássicos da pornografia, sucesso incrível de vendas e - de novo - 15 versões (eu assisti o primeiro, o segundo e o quarto se não me engano; o roteiro é bem decente, mas já no quarto dá pra notar uma decadência, eu gosto quando o irmão é mais tímido ao invés de full-blown tarado, sabe?), quero dizer, existem algumas centenas de milhares de norte-americanos que compraram vídeos e vídeos de um filme pornô sobre incesto; conseguir prostitutas e drogas é a coisa mais banal do mundo - basta ter dinheiro e nem precisa ser muito dinheiro.
Além da indústria imensa do sexo, existe toda a imensa possibilidade de sexo casual que pode ser feito por aí e existe toda a indústria das baladas, da festa, a quantidade incrível de bares ao redor de cada universidade.
Meu ponto é: existe algo mais estúpido nesse planeta azul do que um hedonista em São Paulo se sentindo oprimido? Eu nunca escondi pra ninguém que eu sou ateu e mesmo poliamorista e ninguém nunca me tratou mal por causa disso - e eu já andei algum tempo entre conservadores; eles achavam que eu estava errado em ser ateu e que poliamor era mais uma forma de justificar multiplas namoradas do que minha sincera visão de amor e relacionamentos (Até aí, especialmente pros conservadores que passaram por universidade, quantas vezes sujeito não tem que lidar com alguém, às vezes professor, dizendo pra ele que a visão monogâmica de romance dele é só um modo de oprimir alguém?), mas eu tenho 15 mil vezes mais problemas com alguém tentando me convencer que Obama é o anti-cristo do que com alguém tentando me convencer que Jesus é o cristo.

Eu não estou dizendo que esse é o mundo perfeito para o cidadão hedonista, que não há gente chata, familias intolerantes, gente que olha torto na rua, etc; mas esse não é o mundo perfeito pra ninguém. Sempre vai ter alguém criticando seu estilo de vida. Os carolas também sentem que seu estilo de vida está ameaçado (e eu digo pra eles também que coisa boba se sentirem oprimidos em um país com uma igreja católica e quinze evangélicas em todo bairro).

Esse post não tem muito propósito senão reclamar das pessoas que reclamam, mas meu conselho para os hedonistas é que eles estão muito estressados e que eles deveriam relaxar e aproveitar mais os prazeres da vida.

Domingo, Maio 24, 2009

ZOMFG! APARTHEID!!!11!11!SHIFT+1

Recebi um e-mail dizendo que o congresso constitucionaliza o Apartheid ao criar um estatuto da igualdade racial ou algo do tipo.
Em algum momento do e-mail histérico sobre como esses negros sacanas estão roubando algum direito nosso só porque nós os escravizamos por meros séculos, a pessoa cita um sociólogo com um sobrenome ironicamente alemão.

"Mas, como lembra o sociólogo Simon Schwartzman, o problema é saber quem deveria pagar essa dívida. "Portugueses escravocratas que já morreram? Ou filhos de imigrantes japoneses, italianos e alemães que vieram para o Brasil na miséria e não tiveram nada a ver com a escravidão?"

Sim; japoneses, italianos e alemães vieram para o Brasil na miséria e hoje são a classe média; já os negros, na mesma miséria, ainda são os protagonistas de favelas, sub-empregos e prisões.
Porque em um país tão admiravelmente usente de racismo como o nosso ofereceu ascenção social para grupos e grupos de não-negros miseráveis, mas não para os negros?

Sei lá, das duas uma:
Ou o sociólogo acredita que os negros são inferiores a ponto de estarem sistematicamente nas classes mais baixas por males inerentes à raça ou o sociólogo é racista.

E não consigo me decidir qual das duas.

Bônus:
"NÓS NÃO SOMOS OS EUA!"
É verdade. Eles entraram em uma guerra civil para acabar com a escravidão em 1865, enquanto nós pacificamente, no maior espírito de comunhão entre as raças, pacificamente acabamos com a escravidão 23 anos depois; em 1888.

Realmente, eles são os racistas, nós apenas passamos 23 anos sendo o único país das américas a escravizar negros. Que exemplo admirável nós somos! Orgulho de ser brasileiro.

Bônus 2:
Nós somos tão pouco racistas que o censo tem que olhar pra alguém indiscutivelmente negro e perguntar qual etnia ele se considera.
Afinal, nós somos tão pouco racistas que nosso governo não quer correr o risco de ofender alguém chamando ele de negro.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Sobre ser adulto

O adulto é uma farsa.
O profissional é uma mentira.
Esse é o tipo de coisa que eu descubro enquanto "cresço".
Eu sempre pensei que sairia do colégio e encontraria esses tais "adultos", pessoas como meus pais que eram emocionalmente estáveis e faziam seu trabalho e mantinham o mundo girando (ou explodindo por motivos legítimos).
Mas não há adultos, afinal, meus pais não eram emocionalmente estáveis, "fazer o seu trabalho" não é assim tão difícil e mesmo assim a maioria das pessoas não faz direito e as pessoas se explodem por estupidez.
Às vezes é difícil encontrar profundidade nesse mundo. Profundidade é, num geral, só falta de conhecimento.
Profundidade é na maioria das vezes só o que uma pessoa que quer convencer outra por meio do medo. "não entre em tais águas, elas são profundas!" ou "não fale disso! Você não sabe o que há nas profundezas".
E a segunda afirmação é verdade, na maior parte das vezes falamos sem saber o que nos aguarda nas profundezas, mas todas as vezes que eu ignorei o primeiro aviso e entrei em tais águas, eu não vi toda aquela profundidade que afirmavam, mesmo que eu já tenha usado "profundidade" como um meio de assustar os outros.

"Você não sabe! É muito mais complexo do que você pensa!" é o que dizem os ilusionistas. E esse mundo tem sua infinitude de mágicos.
Cientistas mágicos que conhecem profundamente o mundo com um jargão complexo demais para você leigo.
Religiosos mágicos com sua fé misteriosa que o conectam à uma entidade que você pobre ateu não tem acesso.
Artistas mágicos que criam suas obras usando suas mentes misteriosamente super-desenvolvidas vivendo em mundos exóticos que o pobre espectador pode apenas experimentar por meio da arte.

Não questione como o mágico faz sua mágica, é complexo demais, é profundo demais, você simplesmente *não sabe*!

E longe de mim querer dizer para as pessoas questionarem tudo, como eu disse, é verdade que nós não sabemos e conhecimento é poder no sentido que ausência dele pode te levar a acreditar em profundidades não-existentes e há medo da profundidade.

Mas quantas vezes *você* se sentiu profundo? Quantas vezes você buscou um conhecimento e, após ter adquirido, se sentiu com a chave para interpretar a humanidade de modo que apenas você e seus poucos companheiros de conhecimento conseguem?

Se você atingiu tal profundidade, minha aposta é simplesmente que você é tão ingênuo que realizou uma simples confusão: O fundo não é necessariamente profundo. Ver o chão só significa que você encontrou mais uma superfície.
E quão bobo não é quando alguém chama superfície de profundeza?
E quanto potencial não há em alguém que considera o mais profundo ainda superficial demais?