O Edifício

Empire State Building
"Enquanto eu envelhecia e acumulava memórias. Eu passei a ficar mais perceptivo em relação ao desaparecimento de pessoas e marcos. Especialmente problemático pra mim eram as remoções de prédios. Eu sentia que, de alguma forma, eles tinham algum tipo de alma." - Will Eisner
Um sinal de que a civilização estava caminhando inevitavelmente para o niilismo é a mera quantidade de sistemas filosóficos a partir de Descartes que propuseram-se como um fundamento.
Uma dica para entender história é que, num geral, algo que é repetido muitas vezes é algo que incomoda. Então se em determinada época fala-se muito de virtude e nobreza é porque as pessoas, num geral, precisam ser ensinadas a ser virtuosas e nobres. Ninguém perde tempo escrevendo sobre aquilo que todo mundo já sabe.
A modernidade, como entende Habermas, é uma constante busca por autonormatividade; isso significa, basicamente, que quando se perde a confiança na capacidade da tradição em dar respostas - e isso acontece porque é tradição é de fato incompetente - nós podemos olhar apenas para o presente e para promessas de futuro.
Então a metafora que você vai ver de novo e de novo na história da filosofia moderna é a do edifício. Não há só a confiança de que a tradição é incompetente na hora de dar os fundamentos de um edifício, mas há um medo enorme de que o que você proponha no lugar também seja insatisfatório, o que vai se amplificando século após século, com fundamento fracassado após fundamento fracassado.
O iluminismo é uma espécie de supernova nesse sentido. Há uma explosão de luz que consome a si própria deixando apenas um buraco negro no lugar.
Nós somos o buraco negro.
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Quando uma pergunta sobrevive muito tempo, uma boa estratégia é geralmente tentar se lembrar porque ela está sendo questionada em primeiro lugar.
Porque precisamos de um fundamento?
A resposta é sempre que o fundamento garante que a promessa seja cumprida.
A metáfora do prédio é sempre assim: se nós não fizermos um fundamento seguro agora, lá na frente vai desmoronar tudo de uma vez.
O que eu tenho a criticar nisso é que nossa amostragem foi falha. Os filósofos da modernidade ainda estavam mesmerizados com a queda da cosmologia aristotélica, que estava recheada de entulho cristão, assim, o que acontece é que de fato tinhamos um edifício, em seu fundamento estavam Platão, Aristóteles e São Paulo e esse prédio veio abaixo e nós bem sabemos o quanto dói quando prédios caem.
Um edifício é um simbolo de solidez e de sobrevivência. Will Eisner fala que os prédios tem algum tipo de alma, eu vou mais além e digo que os prédios são um tipo de alma, no sentido simples e tosco de que eles transcendem nossa vida, são habitações humanas criadas por seres humanos indiferentes à seus criadores.
Quando um edifício cai, a primeira reação é tentar reconstruí-lo, até que percebemos que a reconstrução é fútil. Aquela alma já morreu. Ela não vai voltar.
O primeiro grande edifício de nossa civilização durou mais de mil anos. Alguns séculos são de fato necessários para percebermos a futilidade de reconstruí-lo. É verdade que utilizamos diversos de seus tijolos, quando eles são úteis, mas algo de interessante ocorreu enquanto tentavamos construir prédios: fizemos uma cidade.
Grandiosa, decadente, confusa, eficiente. Vivemos nela sem perceber sua grandeza porque ela é tão cotidiana, mas basta um céu nublado e um coração quebrado o suficiente para nos fazer parar de correr pra lá e pra cá tempo o suficiente para olharmos para cima.
Os nossos prédios são grandiosos.
E belos.
A cidade, diferente do prédio, não pertence a um arquiteto, não é fundamento para crescimento (ela cresce desbravando a natureza), ela cresce da maneira que pode, alternando-se entre planejamento central e desorganização, entre lei e crime, entre prosperidade e recessão. Na cidade há catedrais, universidades, laboratórios, bordéis, cinemas, etc; edifícios de todo o tipo, feitos para as mais diversas funções e todas essas coisas fazem parte do mesmo conjunto, mas cada parte permanece uma parte e uma cidade é superior a um prédio porque, como nós também bem sabemos, a cidade sobrevive quando o prédio cai.
Se o edifício é um tipo de alma, a cidade é o corpo eterno habitado pelas infinitas almas mortais.
O problema da busca por fundamentos, em primeiro lugar, pareceu ser de que sem um fundamento, estariamos frágeis; mas de novo, isso foi um problema de amostragem. O problema não é que tinhamos um fundamento frágil, o problema é que estavamos dependentes de um único fundamento e aconteceu de ele ser frágil.
O modo como nós, quase que sem querer, conseguimos nos defender desse problema é que, criando vários edifícios, com vários fundamentos, podemos sobreviver à várias quedas, enquanto pensamos em como construir outro edifício, dessa vez melhor.
Nós não precisamos de uma metafísica que sustente uma física que sustente uma ética que sustente uma política.
Nós temos o edifício da metafísica, o da física, o da ética, o da política.
Quando a metafísica falha, as pessoas correm se refugiar no edifício da física, fingindo, por exemplo, que o big bang é uma resposta satisfatória, enquanto trabalhamos no edifício da metafísica.
Quando a ética falha e as pessoas são simplesmente desmotivadas ou ignorantes em relação ao bem, podemos nos refugiar no edifício da política, das leis, de uma constituição.
É claro que isso às vezes leva a catastrofes. Esquecemos que uma moradia é temporária; acreditamos que toda metafísica está morta (e não apenas aquela metafísica dos que já tiveram seu edifício derrubado), acreditamos que toda ética não tem solução; apenas porque estamos temporariamente no edifício da física e da política.
Isso leva a biologia a fazer juízos sobre essências, almas, livre-arbítrio, etc; isso leva a política a definir o que é o bem e o mal e aí um problema é que isso vai nos levando a, mais uma vez, aglomerar tudo novamente em apenas uma edifício. Aí quando o edifício enlouquece, o caso clássico é o nazismo, onde uma filosofia biologista definiu conceitos éticos baseado em um tipo de nacionalismo; não há para onde fugir.
Outro problema é que isso simplesmente atrapalha especialização, que é o modo que temos construído nossa cidade em primeiro lugar. Metafísica é um caso interessante aqui porque é um prédio tão frágil que todo mundo acha que pode entrar e fazer melhor do que o metafísico.
O exemplo mais clássico é a igreja. Habitantes de catedrais não podem ver uma cabaninha metafísica abandonada que logo procuram um lugar para colocar uma púlpito. Eles agem como testemunhas de jeová em domingo nesse sentido. Batem na porta, dizem que respeitam suas crenças, mas que querem falar sobre jesus. Quando você menos percebe, eles "esqueceram" uma bíblia no seu sofá e semana que vem voltam para pegá-la.
É claro que a pobre cabaninha da metafísica não é construída, como que podemos trabalhar quando temos evangelistas tocando a campainha há cada cinco minutos?
Isso é simples falta de etiqueta, você não vê o metafísico indo para o quintal de uma catedral acampar no quintal; como diz Schopenhauer: "filosofia é essencialmente sabedoria-de-mundo; seu problema é o mundo. Com isso apenas deve se preocupar e isso deixa os deuses em paz; mas em retorno por isso, espera que eles a deixem em paz também".
O biólogo não tem as ferramentas para juízos acerca do problema da existência, dos universais, do livre-arbítrio, etc; embora muito apreciamos quando podemos trocar conhecimento; assim como o teólogo também não tem essas ferramentas, senão roubadas de nosso pobre casebre. Assim como o metafísico não pode falar sobre a unidade de seres oniscientes e onipotentes que são três em um; ele também não pode falar sobre o comportamento de neurônios e genes. Heh, eu sequer sei descrever se é realmente sobre essas coisas que essas pessoas falam, mas enfim, vizinhos chatos fazem parte da vida em cidade.
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O costume da contemporaniedade baseia-se mais em quantidade que qualidade. Ao invés de buscarmos um fundamento sólido buscamos apenas um espaço onde todo tipo de fundamento pode ser testado e, caso desabe, paciência; tentamos de novo.
O nosso limite é apenas o tempo e o espaço. Nossos prédios caem, mas cada ruína é um aprendizado. Não é sequer certo se de fato aprendemos a lição, mas se não somos grandes arquitetos, ao menos somos pedreiros incansáveis.
E é claro que eu admiro os grandes arquitetos do passado, mesmo que deles tenhamos apenas ruínas e tijolos espalhados pelas mais diferenes cosntruções. Mesmo para construir um casebre é preciso alguma arquitetura. O que não é imperativo é o solo firme ou o fundamento perfeito. Seria bom encontrar essas coisas, mas até lá estamos nos virando muito bem, obrigado.
Depois que a primeira grande catedral caiu, nós fomos nos aperfeiçoando na arte de tentar e falhar e nisso nós não conseguimos construir nenhuma outra catedral que se estendesse aos céus e tocasse a Deus, mas como são lindos nossos prédios.

2 comentários:
Rodrigo,é isso aí!
Madruguei e querendo estudar um pouquinho mais a Supercordas e alguma conecção com a Mitocrôndria,caí em você.Viu que legal?
Mas não consegui postar meu comentário porque é recusado pelo seguinte aviso:
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quero muito repassar-lhe este meu comentário.Dê-me um toque no radeir@ymail.com e ou zenarth@gmail.com - tá legal?
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(Ah, a história de 11 se setembro,foi uma jogada da CIA!)
Radeir
http://radeir.blosgspot.com
É Rodrigo,é muito bom ver que está havendo uma boa conecção entre a gente.
Primeiro eu fui em 2007,ali onde você fala da supercorda e a reboque na mitocôndria,justo os objetos da minha pesquisa google,quando aí o encontrei.Agora,de volta ao futuro muito mais feliz vejo sua lucidez.
Eu assinaria este seu texto,e enquanto o lia previa o final, nele você afirmando claro, que as construções humanas,os prédios,as catedrais,as cidades lotadas de escolas bares e bordéis, as filosofias e o enigmático Deus, nada mais são que estruturas mentais concebidas e em transformação, mutante e adaptável à percepção posta em prática,desde que o homem saiu da caverna de Platão.
A meta da física está se cumprindo aos nossos olhos,palpável,manipulante e torço que seja para tornar-se no lance da escada, o patamar, o degrau de tomar fôlego, pra gente retomar a subida. Vem comigo?
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