Segunda-feira, Junho 01, 2009

Duas forças - algo sobre religiosos e secularistas.

Esses dias, bickering no msn com um amigo; ele, católico, dizia que eu não entendia que por trás das críticas ao cristianismo estava um ódio ao ocidente e eu contra-bati-boca que esse era o problema; que cristãos estavam, aos poucos, cada vez mais se afastando do "resto de nós" e se isolando de tal modo que o que eles falam é de fato incompreensível.

Ontem (se não me engano) eu li um argumento exatamente como o meu, mas mirado no "resto de nós".
A pequena notícia iniciava-se dizendo que o número de religiosos estava aumentando no mundo e em lugares que a sociologia atual não prevê - entre pessoas ricas, bem educadas, acadêmicos e cientistas e o autor concluia algo do tipo:
Dawkins foi criticado por ser teologicamente analfabeto; as dawkinetes respondiam que se Deus é uma ilusão, então teologia é inútil; ao que o autor do texto responde que se cientistas chineses estão se encontrando regularmente para discutir a bíblia cristã, então teologia é ao menos útil para que o "resto de nós" consiga fazer parte do mundo e se comunicar.
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Então remendando meu bate-boca irracional de internet, eu diria que vivemos em uma época complicada (não, jura?).
Pra começar, nós, do ocidente ao menos, vivemos em um mundo razoavelmente secular - secular não significa, obviamente, ateu; podemos até ter um governo religioso e um Estado secular.
Dá pra pensar como exemplo disso uma admnistração Bush, que tinha uma sala de orações na Casa Branca e frequentemente invocava Deus como uma das justificativas para fazer tal e tal ação (não que ele fosse um fanático dizendo "as evidências apontam o contrário, mas minha teologia diz para fazer então farei", era mais "há num monte de motivos para fazer, além do que, minha teologia aprova".
Mas mesmo que o governo Bush fosse cristão, o Estado norte-americano continuava secular; o que manda no Estado são os três poderes e isso é constante não importa se os cidadãos votam em massa em candidatos religiosos ou não.
Assim, é possível até ter um presidente e um senado cheio de religiosos tomando decisões baseadas em teologia que continuamos a viver em um estado secular, pois estado é exatamente isso: aquilo que fica firme enquanto governos e suas particularidades vêm e vão.
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Em segundo lugar, é um fato sociológico inegável que há, de fato, um aumento da religiosidade não só entre as pessoas como no discurso político.
Eu acho que isso tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com Jesus (mas até aí, a crença acerca da imutabilidade e eternidade das verdades científicas tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com o modo como ciência funciona.)
O que temos, na minha visão, e algo bem irônico porque são duas visões de mundo se considerando guardiãs de algo de eterno e a-histórico surgindo por causa de briguinhas políticas bem medíocres da nossa época.

De um lado, religião foi um modo que os conservadores encontraram de dialogar com um eleitorado e estabelecer diferença em relação a seus oponentes. Já que socialistas são (ou eram - porque socialista é um parasita no matter what e como tal já descobriu um meio de se tornar cristão) em sua maioria ateus e estão sempre falando em revolução e "imagine there's no heaven" e etc; se apegar a uma tradição importante como o cristianismo e transformar deus em cabo eleitoral é simplesmente esperto. É um modo de dizer "somos diferentes dessa gente querendo destruir um estilo de vida que você até que gosta" sem precisar de fato entrar em uma teoria a respeito disso.

Do lado das dawkinettes, é que uma vez que religião começa a afetar o estado, há o medo de que ela afete outra coisa afetad pelo estado: a ciência.
Então nós temos essas várias táticas de gente desesperadas que vemos aparecer nos últimos tempos; primeiro, para tentar proteger a ciência desse ou daquele governo, vem o desespero para fundamentar (e rápido!) a ciência como algo eterno e imutável (todo covarde apela para o eterno - eternidade é um sintoma de medo da morte).
Claro que desde o século XVII, "encontrar um fundamento seguro para as ciências" faz parte da cartilha da maior parte dos filósofos, mas o que acontecia antes era um esforço para aperfeiçoar a ciência; era algo como: "essa coisa chamada ciência dá certo, mas não sabemos bem porque, então vamos desmontá-la e, descobrindo como funciona, podemos fazê-la funcionar melhor ou, ao menos, impedir que ela se corrompa e deixe de funcionar"; mas isso era quando ciência era um problema epistemológico.
Hoje, ciência é um problema político, então a questão se tornou algo do tipo: "essa coisa chamada ciência dá certo, não importa porque, temos que convencer as pessoas disso antes que o governo corte nosso financiamento!"

A questão do criacionismo ilustra bem o problema: toda a epistemologia das dawkinettes baseia-se na seguinte pergunta: "que tipo de concepção de ciência é necessária para que o criacionismo não seja considerado ciência?"
O medo da dawkinete é que um dia haja algum consenso entre algum grupo de cientistas (propriamente cientistas e não esses freaks que raramente surgem aqui e ali em alguma universidade só para depois irem choramingar na fox news que são oprimidos) dizendo que criacionismo é ciência.
Então eles se esforçam pra criar a noção de uma ciência eterna e imutável que diga: "os tempos podem mudar, a humanidade pode até entrar em consenso que criacionismo é ciência; mas mesmo assim não será."
Daí o medo das dawkinetes em relação aos "relativistas"; é, em suma, medo do tempo; mas afinal, como já dito, todo apelo à eternidade é um medo do tempo que traz a morte.
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O que acontece, portanto, é que existem essas duas forças na sociedade cada vez mais se distanciando uma da outra; ambas com suas próprias mitologias de eternidade e sua própria batalha particular do bem contra o mal.
Se fosse um problema de teologia ou de ciência, a coisa seria resolvida nos seus respectivos campos, mas sendo um problema político, ele começa a afetar outras esferas da sociedade. Ambos os lados se sentem oprimidos, ambos os lados se sentem revoltados por não serem representados o quanto acham que merecem, ambos os lados crescem frustrados e se fecham em seus círculos de amizade cada vez mais considerando o outro um inimigo a ser enfrentado; uma ameaça para toda a civilização.

Logo começam as teorias de que "se grupo X é tão influente na democracia e grupo X é claramente inimigo da civilização que permite tal democracia; logo a democracia deve ser salva de si própria".
Aí já viu.

1 comentários:

Lisiane disse...

Saudade de entrar aqui.