Um dia para destruir coisas...

... porque quando você tinha 19 anos
VOCÊ não quis um dia criar algo tão belo e puro
apenas para que um dia você pudesse inflamá-lo
e então ver a cidade acender enquanto queima?
Você já não quis fazer isso todos os dias de sua vida?
Nada deveria ser para sempre.
Bandas deveriam fazer um single e então se separar,
fanzines terminar após uma edição sem falhas,
amantes partir na chuva às 5 da manhã e jamais serem vistos de novo -
Hábito e medo de mudança são as piores razões para fazer QUALQUER COISA.
Acabar com um selo após 100 lançamentos perfeitos
é a mais linda declaração de arte pop possível
e diz mais sobre música pop do que qualquer digipak em duas partes
edição limitada em vinil 7" colorido
autenticamente lo-fi EP de dez faixas
(ou qualquer outro truque de marketing)
jamais irá.
Sarah Records pertence a ninguém a não ser nós,
então é NOSSA para criar e destruir como queremos
e nós não fazemos bis.
Nós queremos queimar em cores brilhantes e ir pop.
para ser alegre, impulsivo e bobo,
para beijar pessoas em novos lugares -
REQUINTADAMENTE
- e ousar despedaçar coisas.
O primeiro ato de revolução é destruição
e a primeira coisa a se destruir é O PASSADO.
assustador
como se apaixonar
nos lembra que nós estamos vivos
SARAH RECORDS
1987 - 1995
=
Sarah Records nasceu quando eu tinha dois anos e morreu quando eu tinha 10.
Quem lê isso acima pode pensar que Sarah era um selo punk comunista que queria obliteração da sociedade como nós a conhecemos, mas Sarah é o selo que lançou os álbuns mais doces e puros que conheço.
Sarah era o selo que lançava álbuns de Another Sunny Day, Field Mice, Heavenly e Blueboy.
Desse selo que surgiu o que hoje entendemos como "indie pop" e, talvez mais importante, o que entendemos como "indie".
EM 1987, punk era algo famoso e popular; o lendário 1977 havia acontecido há 10 anos atrás e as ruas de Londres estavam cheias de garotos violentos e machistas com seus moicanos e jaquetas de couro; em 1986, a NME havia lançado a C-86, uma fita cassete com bandas ao mesmo tempo tão independentes quanto as bandas punk, mas inspiradas por Smiths e nostálgicas por músicas pop simples sobre amor e besteirinhas adolescentes.
Um ano depois, surgia a Sarah Records para tais bandas independentes que não faziam parte de nenhum movimento específico.
Essas bandas eram para meninas que gostavam de coisas de meninas e meninos que se sentiriam bobos colocando um piercing ou fazendo um moicano; Heavenly por exemplo (minha banda favorita) era o projeto de uma menina que convidou uma amiga para fazer backing vocal, o namorado para tocar guitarra e o irmão de 14 anos para tocar bateria.
Era a essência do Do It Yourself sem esse ódio fingindo por tudo e por todos.
Suas músicas continham amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como tais elementos estão em histórias de crianças.
Assim como é infantil construir coisas só para queimar depois (não é uma das graças de construir castelos de areia em algum lugar onde há a certeza que a maré alcançará eventualmente? Não é algo puramente infantil brincar com seu carrinho favorito até ele quebrar? Atena sabe quantos batmans e wolverines não foram desmembrados em minhas mãos), Sarah Records sempre buscou lançar obras belas e puras e de bandas que ninguém esperava que fossem durar.
Fala-se em revolução, em destruir o passado, em "beijar pessoas em novos lugares", em não se tornar vítima do hábito e do medo; não é assim que crianças se comportam? Mais, não é esse o objetivo final de toda criança? Se tornar algo melhor do que os adultos que inevitavelmente se tornarão?
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Eu achei isso interessante porque acabou recentemente uma re-publicação online de Chuva Contra o Vento no Quarto Mundo e foi uma história que eu escrevi quando tinha exatamente uns 19 anos.
Na época, o único referencial que eu tinha de histórias do tipo eram os gêmeos Bá e Moon (e ainda praticamente são os únicos) e sempre me atormenta esse pensamento de que hoje eu não conseguiria escrever algo tão simples e bonito quanto foi o Chuva...
E é engraçado porque antes de ler ela no Quarto Mundo, eu tinha uma visão um pouco diferente da história, eu não gostava tanto dela, como uma criança de 14 anos não gosta dos seus brinquedos de quando tinham 10 porque agora elas já estão todas grandinhas com seus enormes 14 anos.
Lendo recentemente, eu vi uma história infantil, com amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como eles acontecem nas histórias infantis.
É uma história que eu tenho orgulho, que eu vejo menos falhas do que via há um ano atrás quando eu só lembrava da história e mais qualidades do que eu lembrava.
Eu algum momento eu cheguei a pensar "hoje eu não escreveria a cena do estupro; eu colocaria algo menos pretensioso e menos espinhoso, algo como eles saindo para um encontro e simplesmente não dando certo, simplesmente não havendo química" e é verdade que hoje que eu não escreveria tal cena, mas eu estou feliz que na época eu fui criança o bastante para fazê-lo.
Hoje eu teria que levar em conta mil fatores que na época eu simplesmente não pensava, na época soou apenas um cliffhanger interessante para o final do quinto número; pouco tempo depois eu me arrependi dessa parte da história, me achei lidando com algo mais sério e mais pesado do que eu tinha competência de lidar.
Lendo a história de novo, eu achei engraçado o quanto eu consegui manter algo do tipo silencioso. O fato não rende cenas violentas e traumáticas. A consequência dessa cena é um dialogo no hospital e um abraço na mãe.
É raro eu me sentir orgulhoso, mas eu me senti quando eu percebi como lidei bem com essa cena - entenda, como eu fui profissional, POIS eu fui infantil; POIS eu não entrei em grandes questões psicológicas e grandes cenas dramáticas e grandes especulações políticas e sociais sobre nossa sociedade machista que continua a ver uma mulher de saia parada em uma esquina como um objeto a ser utilizado. Foi infantil, foi um diálogo no hospital e um abraço na mãe.
Ele vai pra casa e chora.
Como mais uma criança lidaria com isso?
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De qualquer forma, é estranho eu me ver como um escritor hoje, eu sou talvez o roteirista menos produtivo do Quarto Mundo, eterno está saindo aos poucos e o que há programado pra depois dele são umas histórias curtas (24 páginas se mão engano) que sairão no novo website que eu e o Cunha estamos montando.
Na verdade, eu estou procurando desenhistas para mais histórias. Precisaria de alguém com um estilo bem bonequinhos palito para histórias de dois personagens:
Um será o vestido vermelho e outro o vestido azul e sei lá, eles vão conversar.
Pensando bem, talvez eu desenhe.
Haha, eu vou ser para o malvados o que Sarah Records foi para o punk; enquanto ele é todo profissional e todo artista fingindo que não sabe desenhar para fingir que odeia o mundo, eu que realmente não sei desenhar e sou sinceramente deprimido vou fazer tirinhas bonitas.
Vamos ver como funciona.
Eu tenho um roteiro deles por aqui.
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Ok, isso não exatamente funcionou, mas sei lá, uma amostra feita por alguém que não consegue nem fazer bonequinhos palitos.
E enfim, é isso, em breve eu vou ter mais histórias na web e se você desenhar eu posso em breve ter histórias suas na web.

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