Segunda-feira, Abril 20, 2009

Convicções e inveja

Desde os 17/18 anos, ler Nietzsche é um modo de masoquismo.
Por mais que eu concorde com Nietzsche em coisas relacionadas a parte mais técnica da filosofia (seu tipo de empirismo/positivismo perspectivista, sua postura evolucionária em relação à vida e à razão, seu ateísmo; o Nietzsche de Gaia Ciência, Humano Demasiado Humano), o Nietzsche "auto-ajuda" ("Como ser um filósofo bacana" - Assim Falava Zaratustra, Crepúsculo dos Ídolos) sempre me levou a crer que eu sou algum tipo de ponte para o sub-homem, para o anterior ao homem.

A grande maioria das minhas idéias e visões do mundo vem de coisas mesquinhas, de comportamentos que não consigo adotar, de invejas alheias. Não há nada de objetivo no modo como eu penso, então eu decreto a mim mesmo como realidade e digo "não há objetividade", coisas desse tipo.

Eu sempre tive inveja, ressentimento e ódio de pessoas convictas. Então eu eliminei a convicção da minha cosmologia.

A realidade muda, se suas opiniões não mudam, então você vai estar errado a maior parte do tempo.

É claro que isso é decorrência do modo como eu funciono. Minhas opiniões mudam e mudam semanalmente.
É claro que elas jamais mudam em um debate.

Você diz "A"
Eu digo "B"
Você diz "Não-B"
Eu digo "É? Mas sua mãe é uma vaca!"

Mas é claro que isso vai me atormentar profundamente durante meses e meses e meses até que um dia eu vou dizer "hum... A"

Mas é claro que isso não muda o quadro todo.
Concordar em um tópico e uma opinião é a coisa mais insignificante. Se em duas semanas eu vou ter uma nova opinião, nada é mais fútil do que fazer eu concordar com você hoje. Se alguma coisa, você ganha alguém pra dizer que a mãe dos seus oponentes é uma vaca durante duas semanas.

Tenho inveja da maior parte das pessoas que conheço. Todas elas alternam entre momentos de felicidade e tristeza e eu vivo apenas triste do momento em que me conheço por gente e isso só está piorando.
Atualmente tenho perdido minha capacidade de sobreviver. As pequenas coisas me mantendo vivo funcionam cada vez menos.
Agora eu funciono em uma alternância entre tudo ser um pouco mais urgente, um pouco mais importante porque eu não tenho muito tempo mais entre os vivos.
Por outro lado, de que importa? Eu não vou estar aqui pra ver ninguém chorar no meu funeral.
Dada a onipresença da minha própria miséria, eu acredito tão fielmente no sofrimento como essência do universo que meu medo é que exista uma vida após a morte porque até lá haveria sofrimento. Seja no inferno ou no céu.

O paraíso é ridículo.
Se nós não sofremos, então não nos importamos. Se os anjos no céu e as boas almas não olham para baixo e não sofrem com nosso sofrimento, então eles são apenas seres frios e cruéis. Se isso é o que deveria simbolizar o que há de mais próximo do criador, então não há como escapar do pessimismo da realidade.

Se tais seres sofrem, então o sofrimento persiste até depois da morte. Qual a diferença, aqui, entre paraíso e inferno senão que um é uma tortura psicológica e o outro física?
Dado que o sofrimento é eterno em ambos os campos, eu acho que depois de 5000 anos sendo mergulhado em um lago de fogo, eu vou estar bem acostumado a isso. Mas 5000 anos assistindo pessoas se matarem e sofrerem vai ser bem pior.
O paraíso é um castigo pior que o inferno.
Se existe um Deus e se ele é bom, a recompensa que eu peço a Ele é a não-existência após a morte. Completa obliteração. Isso me assusta de um modo imenso, mas a idéia de eternidade me assusta ainda mais.
Vida após a morte só significa sofrimento após a morte.

Pensando em céu e inferno, que é o mais inútil de todos os assuntos possíveis, material para blogs e bêbados (e infelizmente agora estou apenas blogueiro, não me lembro muito do que falei quando estava bêbado ontem, lembro de uma bartender dizendo pra mim que eu não precisava ser infeliz só porque era intelectual e de eu ter levemente me apaixonado por ela [mas fuck that, porque ela é boa demais pra mim, provavelmente lésbica, minha primeira impressão foi de um bêbado deprimido, o que é verdade, então eu não tenho nem como causar uma impressão melhor que essa] e lembro de ter pensado muito em suicídio e até ter falado um pouco a respeito com uma das mais queridas pessoas da minha vida atualmente... e se eu de fato vir a cumprir isso, queria que ela e minha mãe soubessem o quanto isso tudo é inevitável e que elas foram ótimas, mas que bla bla bla, como se eu não fosse deixar uma carta, sendo a drama queen que sou), eu entendo a queda dos anjos como sendo resultado de inveja.
Caso toda a mitologia cristã seja verdade, seria uma surpresa que quedas e guerras civis no paraíso, de anjos e pessoas boas (você morre e vai direto pro céu ou fica no limbo por milhões de anos até que o sol entre em supernova e todo mundo seja julgado ao mesmo tempo?) sentindo inveja dos habitantes lá embaixo.

De qualquer forma, se nossa razão sobrevive, se nossos sentimentos sobrevivem, então porque não haveria tanta violência e descontentamento no paraíso quanto há aqui? Só porque as ruas de ouro e ninguém sente fome? É misteriosamente uma noção marxista demais de paraíso pensar que as pessoas só guerream porque querem terra ou comida. Que exista livre-arbítrio o bastante para apenas um ponto de discórdia e os anjos estariam brutalmente se assassinando por causa disso, nem que seja algo como o que se ter para o almoço na quinta-feira.

E porque as guerras religiosas parariam?
A mitologia cristã é verdadeira: um judeu morre e dizem pra ele "olha, Jesus Cristo é o verdadeiro Messias, lá está o trono, lá está Deus, lá está Jesus à direita dele", algo similar acontece com budistas, politeístas, muçulmanos.
Se as razões e os sentimentos estão intactos (se o nosso espírito continua o mesmo), há qualquer motivo para acreditar que o sujeito em questão não vai pensar que é tudo uma farsa? Que ele está no lugar errado, que a jihad continua após a morte, que aquilo é na verdade o inferno? (afinal, se eu quero mandar um muçulmano fanático para o inferno, basta enviá-lo para um paraíso cristão, onde a mitologia muçulmana é uma piada sem nexo).

E se a presença divina por acaso fizer ele acreditar naquilo, ele está lá, parado, encarando a Verdade e é impossível não ver aquilo como verdadeiro. Como ele fica depois disso? De repente você descobre que passou a vida toda adorando uma mitologia falsa.

E se a presença divina não só fizer você ver a verdade da mitologia X, mas também te faz ver o quanto isso é bom e o quanto é feliz, etc. no que isso é diferente de uma lobotomia? Como isso difere daquele nosso primeiro cenário, onde as pessoas no paraíso são simplesmente frias e cruéis porque são felizes apesar de todo sofrimento?

É verdade que eu sou uma pessoa neurótica e é verdade que isso influencia o modo como eu compreendo o mundo, mas desse meu ponto de vista neurótico, a possibilidade de qualquer existência, viva ou morta, ser qualquer coisa além de sofrimento é não-existente.

Os prazeres hedonistas ficam chatos e entediantes rápido. O mundo intelectual é uma máfia e um punhado de pessoas com agendas colocando a si próprias no lugar da realidade e dizendo "minha neurose é a Verdade", é como eu faço pelo menos e até hoje não tive motivos para acreditar que os outros façam diferente. E se o meu pessimismo é idiota, eu nem vou começar a falar das pessoas otimistas, daqueles que acham que o universo misteriosamente concorda com elas.
Então elas não gostam de viver puritanamente e *PUF*, é óbvio que Deus não existe; então elas gostam de ir à igreja e *PUF*, é óbvio que Deus existe; então elas acham que conquistaram seus bens por meio de trabalho e esforço e *PUF*, é óbvio que incentivar a meritocracia é o melhor para desenvolver um país economicamente; então elas acham que foram injustiçadas, que o lugar onde nasceram ou estudaram ou seu sobrenome ou sua cor é o que impede o mundo de reconhecer sua grandeza e *PUF*, é óbvio que meritocracia não existe e que um tipo de força coerciva deve ser utilizada para ajeitar essa situação.
Acho que é Paul Veyne que define ideologia como auto-elogio e, bom, aí fica difícil não chamar todas as pessoas do mundo de ideólogas, já que o mero dizer "eu estou certo" é um tipo de auto-elogio. Além disso, as pessoas raramente param só no "eu estou certo", é "eu estou certo, portanto do lado certo da história e sou moralmente uma pessoa melhor que você e o meu caminho (mesmo que eu particularmente não consiga seguí-lo) é o melhor para se conquistar a verdadeira felicidade e a verdadeira sabedoria").
Então meh, pelo menos a minha ideologia neurótica só diz que eu estou certo (e por pouco tempo, porque a realidade muda e se minha opinião não mudar junto, eu me torno errado mesmo que usando os mesmos argumentos que há 5 minutos atrás eram certos), mas essa é uma das crises da minha vida. Se eu sou infeliz e os outros não, então estar certo vale muito pouco.

Eu estou aqui, na beira do suicídio, certamente minha visão de mundo não é a melhor para buscar felicidade ou sabedoria. Então mesmo que eu esteja certo, é algo ridículo, porque não é como se eu pudesse dar conselhos ou compartilhar minhas opiniões.
No mais, nem eu, nem meus genes, nem minhas idéias vão sobreviver, então eu estou claramente do lado errado da história.
Então é isso, eu acho. Pelo menos até onde esse mundo é considerado (e esse mundo é o único que vale a pena ser considerado), a não-existência completa é o caminho mesmo, já que nem na memória eu vou sobreviver.
E eu gosto disso.
Me dói a idéia da minha morte causar sofrimento, mas talvez tenha que ser tipo um band-aid, sabe? Se eu definhar aos poucos nesse marasmo e alguém aí se importar comigo (oi mãe!), então eu vou só causando um sofrimento contínuo enquanto sobrevivo. Pelo menos morrendo de uma vez e logo, as pessoas terão tempo para superar e em algum momento de suas vidas, eu vou finalmente deixar de ser um sofrimento e virar só mais uma história sem nenhuma moral em particular.
Aí esquecido.
Aí o nada.

5 comentários:

JGPavia disse...

É difícil comentar os seus textos, e também muito difícil ficar sem escrever nada.

Tenho medo de escrever alguma bobagem.

Fico extremamente sem cultura perto de seus comentários e de suas opiniões sobre coisas tão profundas e complexas.

Não te conheço.

Acho que a função dos blogs é esta mesmo.

O pouco de contato que tive com você foi eu um campo de batalha virtual.

E diferente deste mundo virtual, a morte sempre causa sofrimento. Mas uma coisa que aprendi da pior maneira, o suicídio causa RAIVA.

Não sei se tenho direito de escrever aqui.

Uma coisa é certa: concordo com muita coisa que você escreve, e as coisas que não concordo talvez seja porque não entenda.

T disse...

Não dá pra terminar de ler por agora. Mas esse sofrimento é uma convicção. Nem das piores.

Lisiane disse...

Também não deu pra terminar de ler agora.

Rodrigo Souza disse...

Deixe-me falar algo que sei sobre suicídio, coisa que já me passou pela cabeça um par de vezes e uma delas deti-me por um longo tempo a pensar a respeito.

1 - É uma solução definitiva para problemas geralmente transitórios que na maioria das vezes podem ser solucionados de outras formas mais adequadas, com um desperdício bem menor de matéria. Digo desperdício pois todo ser humano tem potenciais. Jogar fora esse potencial sem ser devidamente aproveitado é como descartar uma pilha ainda com carga.

2 - Se pretende mesmo fazer desse jeito, faça-o de forma limpa e longe de todos e não envolva mais ninguém nisso. Acho até desnecessário dizer isso. Você me parece ser de uma corrente humanista que preza e respeita a vida alheia, ao contrário da sua própria.

É isso. Se for mesmo desistir da vida, direito seu, tenha um bom fim.

Yla disse...

Se vc não tiver levado a cabo as ideações suicidas (e eu espero mesmo que não), te recomendo estudar e conhecer realmente a mitologia cristã. Há muito equívoco e muita confusão no que vc sabe a respeito. É um pouco mais complexo do que parece, mais dialético, eu diria, não tão óbvio e binário.