Sábado, Abril 11, 2009

Battlestar Galactica

SPOILERS!
Eu vou falar de série, spoilers do primeiro ao último episódio. Estão avisados.
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Eu passei a última semana assistindo Battlestar Galactica. Vi o primeiro episódio tipo, há duas semanas atrás e o último anteontem. Foi uma maratona obsessiva e cansativa e eu sinto ter perdido a oportunidade de ter acompanhado a série semana a semana.
É uma série que todo mundo comenta e por bom motivo. Ela tem essa qualidade especial de séries de ficção científica de comentar eventos atuais usando um ponto de vista externo. Uma sociedade com problema similares, mas diferentes o bastante para definitivamente não serem os nossos problemas e, portanto, permitir um julgamento ao mesmo tempo em que julga a nossa.
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Então eu vou por tópicos.

As duas últimas temporadas
Eu acho que essa série sempre vai ser importante pra mim e eu não queria admitir isso que vou admitir agora, mas acho que eu só suportei as duas últimas temporadas por amor às três primeiras.
No momento em que os cinco últimos cylons são revelados, as coisas nunca foram muito boas.
Eu vou falar mais sobre os cinco Cylons finais abaixo, mas talvez seja uma preferência minha. Embora eu sempre estive muito aberto e adorei cada conflito interno dos Cylons (o díalogo do Cavil com Ellen Tight é, pra mim, um dos pontos altos de toda a série), se tornou meio bobo pra mim como de repente a série se tornou mais sobre eles do que sobre humanos. A sobrevivência da humanidade sempre foi um ponto alto da série pra mim. O respeito pelas pequenas coisas, pelas hierarquias e tradições de uma civilização que não existem mais, sempre foram pontos altos pra mim. De repente, se tornou cada vez mais o drama dos últimos 5 Cylons.
Estou exagerando? De qualquer modo.

O último episódio
Por algum motivo de metodologia, eu talvez devesse comentar o último episódio só depois de comentar os personagens, mas eu vou assumir que as duas ou três pessoas que lerem isso daqui assistiram a série.

O excelente excelente site avclub, que traz os melhores resenhistas de séries de tv (por se assemelharem mais ao norte-americano médio que se importa com os personagens ao invés de geeks doentes por continuidade) trouxe na resenha do último episódio da série a introdução:
"A pergunta que a série se coloca é se a humanidade merece sobreviver. A resposta é sim, se nós formos bonzinhos com nossos robôs".
Agora, certamente isso é uma provocação. A mensagem do último episódio não pode ser ASSIM tão superficial como "se um dia vocês desenvolverem inteligência artificial não escravizem as máquinas", não de uma série que constantemente perguntava explicitamente qual a essência de nossa humanidade, de nossa civilização, de nossa nobreza, de nossos costumes, de nossa legislação, etc.
Mas enquanto ele ia dissecando o episódio, eu percebi porque gosto tanto daquele site, como eu disse, são pessoas simples e não super-geeks, mas são pessoas simples e inteligentes.
A moral deveria ser o que Apollo diz: Que deveríamos desenvolver nossas almas no mesmo passo em que desenvolvemos nossa tecnologia. Mas em algum ponto o último episódio mostra isso?

A resenha toca em outro ponto muito bom. A humanidade no momento que o último episódio começa está no fundo do poço. Eles não tem esperança de onde ir ou do que fazer. Estão não só sem propósito, como que é uma questão de tempo até alguma das dificuldades letais não conseguirem ser superadas.
Sem objetivo, sem confiança em deuses ou homens, almirante Adama realiza o que é um gesto de virilidade e nobreza suicida, os últimos dois sentimentos que ele é capaz de realizar.

Os Cylons realizaram o holocausto da humanidade, mataram quase metade dos sobreviventes. Agora, quando nossas esperanças e sonhos já estão esmagados, eles vêm e sequestram uma garotinha. A filha dos dois pilotos mais simpáticos e dedicados da tropa. As duas pessoas (um humano e um Cylon) com o coração mais puro e a dedicação mais incansável.
Os filhos da puta seqüestraram a filha desses dois exemplos do melhor que há tanto na humanidade quanto na "Cylonidade" e pelos deuses, se a humanidade vai ser extinta, pelo menos nós vamos mostrar que somos machos e salvar essa garotinha.

Pode parecer que não, mas eu adoro isso, eu adoro a noção que, tudo perdido, ao menos temos nossa coragem.
Então a primeira parte do especial de 2 horas que foi o último episódio é excelente.

Eles entram na colônia Cylon.
Humanos, Cylons rebeldes e centuriões com livre-arbítrio enfrentam uma batalha impossível e os dois malditos que iniciaram todo esse pesadelo: Baltar e Caprica Six, provavelmente o oposto do nosso "casal do bem" (Helo e Athena), trazem a garotinha nos braços para dentro do nosso amado CIC.
Coisas acontecem, a última Battlestar do universo recebe sua última barragem de artilharia.
Starbuck tem uma última epifania: usar a música de Hera como coordenadas.
Eles saltam.
Eis a Terra.
Não aquela Terra das profecias de Pythia. A grande esperança que acabou por se tornar a grande desilusão.
Mas a nossa Terra. A nossa grande esperança que muitas vezes se torna nossa grande desilusão.

É engraçado como reconhecemos o planeta Terra de longe pela África. É o berço da humanidade, afinal de contas. Mas não há como escapar de hipocrisia que é olhar para o continente Africano e dizer "olha! É a nossa África!"
Damos tanto valor para a África quando somos 30.000 humanos vivendo há 5 anos de algas e dormindo em frias naves espaciais sem ter o que fazer senão se deprimir e se revoltar, mas quando somos 6 bilhões vivendo no planeta, é o lugar que mais facilmente esquecemos.

A África é a luxúria da humanidade.
"Se um dia nós tivermos o tempo, juro que vamos lá resolver o problema daquela gente".
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Continuando.
A partir daí, os meus sentimentos em relação ao episódio são mistos.
Colocar a Terra de verdade põe problemas sérios:
Se a Terra é colocada, implica-se que é a nossa, logo, que ou o presente que o público de sua história vive existe, já existiu ou vai existir.

Eles escolhem nos colocar no passado, isso força o escritor a criar uma justificativa de porque nós não temos indícios arqueológicos de Raptors e Battlestars?
A justificativa é essa:
A humanidade decide não fazer uma cidade, não colonizar o planeta formalmente, ao invés disso vão abdicar a tecnologia, se espalhar pelo globo, jogar as naves no sol e viverem como agricultores se reproduzindo com os nativos.

O meu problema com esse final é que ele joga fora a moral da série: que nossa alma deveria se desenvolver junto com nossa tecnologia.

No episódio do julgamento de Baltar, Apollo disse uma das coisas mais importantes e interessantes da série:
Nós não somos mais uma civilização, nós somos uma gangue. Um monte de pessoas cometeram crimes e foram perdoados porque a situação de toda a humanidade ser composta por algumas dezenas de milhares de pessoas fugindo em naves espaciais é tão asburda e tão única que não há regras sobre como agir nesse caso, que eles vão inventando enquanto prosseguem.

E quando chega no final, bom, eles podem recuperar isso, eles podem deixar de ser uma gangue que perdoa assassinos porque tal cara é um puta de um engenheiro e tal cara é um puta de um piloto e nós não podemos sacrificar esses talentos.
E agora eles têm Cylons ao lado. Eles podem incluir os Cylons na sua civilização (o que eles já fizeram de qualquer forma) e garantir que dessa vez vão fazer correto. Que não vão tratá-los como escravos, que não vão se tornar consumistas desenfreados, que não vão construir armas nucleares.
Eles aprenderam suas lições à custos altíssimos e podem colocá-las em prática, finalmente, sua alma e sua tecnologia podem estar no mesmo nível.
Ao invés disso, o escritor precisa justificar que isso é o passado da humanidade.

O que me parece mais incrível não é nem que esse povo sacrificou prédios e naves estelares. Faz sentido querer uma existência mais agricultural depois de terem passado os últimos anos basicamente em prisões comendo alga processada. Faz especial sentido garantir primeiro a comida e as pequenas coisas da vida e depois buscarem carros e refrigerantes.
O que não faz sentido é eles não escreverem histórias. É eles não contarem suas viagens pros seus filhos.
Tudo bem que a civilização grega só vai acontecer 146 mil anos depois do ocorrido e uma porção de coisas acontecem nesses 146 mil anos, mas o problema é que o episódio dá a entender que eles queriam deixar tudo pra trás.
Se é pra só pra esquecer e procriar. Valeu mesmo a pena essa viagem que eles passaram? No fim, sua civilização não sobreviveu, o que sobreviveu foram 30.000 indivíduos espalhados aleatoriamente pelo globo.
Soa vazio pra mim.
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Sinceramente, ao invés de um Spin-off chamado "Caprica", eles poderiam aproveitar que 150.000 anos é um puta dum tempo e fazer um Spin-off da nova civilização na terra 10.000 anos depois do ocorrido em Battlestar Galactica, mas blé, quem sou eu?
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E numa nota mais pessoal, o único medo da Starbuck, literalmente um anjo de Deus, é concretizado.
Ela não quer ser esquecida.
Ela desaparece e Apollo diz: "Você não será esquecida, Kara Thrace".
Mas isso é mentira, ela é esquecida, Apollo lembra dela, mas eventualmente ele morre e como não há mais civilização pra contar histórias, não só Kara Thrace é esquecida, como também sua coragem, determinação, bom humor, lealdade e todas as qualidades que fazem dela alguém tão especial.
A vida, morte e ressurreição de Kara Thrace é uma história que a humanidade deveria contar enquanto existe. Mas se todos estão em cabanas colhendo tomate porque os livros foram enviados ao centro do sol. Essa história é esquecida.
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Dito isso, é óbvio que esse final doeu.
Eu não queria que a série acabasse.
Ver o túmulo de Laura Roslin doeu.
Ver a última vez em que o Almirante Adama e Starbuck trocam seu diálogo esquisito me fez chorar demais:
- Starbuck, what do you hear?
- Nothing but the rain, sir.
- Then take your guns and bring back the cat.

Doeu ouvir isso e saber que foi a última vez.
Doeu Apollo olhar para o lado e ver que Deus levou seu anjo de volta.
Doeu ver Sam navegando em direção ao sol, conectado à Física e Matemática como ele sempre buscou.
Doeu ver Saul e Ellen finalmente experimentando uma vida juntos.

Doeu ver essas resoluções e isso mostra o quão eu profundamente amava esses personagens e no fim, eu fico feliz que Kara Thrace teve a paz que buscou, que Apollo provavelmente viveu uma vida emocionante escalando montanhas, que Bill Adama provavelmente construiu uma cabana onde viveu solitariamente seus últimos anos, que Saul e Ellen viveram felizes, que Helo e Athena e Hera viveram felizes.
Enfim, no fim é injusto dizer que as coisas deram errado só porque a civilização caiu embora as pessoas tenham vivido felizes, mas ainda assim. Eles precisavam mesmo abdicar de suas lições junto com sua tecnologia?
De novo, eu entendo até abdicar da tecnologia, mas em algum lugar alguém poderia ter escrito: "Não construam armas nucleares. Não achem que são desenvolvidos só porque seus robôs pensam enquanto vocês vivem vidas tristes".
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E no fim, 150.000 anos depois, nós vemos uma montagem de robôs japoneses parecidos cada vez mais com humanos e os outros dois anjos comentando: "Será que repetirão os mesmos erros?"

E isso me soou o mais estúpido. Será que nós vamos repetir? Nós repetimos!
A única coisa que ainda não fizemos é escravizar máquinas pensantes.

Uma coisa que sempre fez Battlestar Galactica tão forte e intenso é a pergunta que Bill Adama faz no começo da série, antes do ataque Cylon:
"A humanidade merece sobreviver?"
Tanta coisa aconteceu e continuamos a nos matar por inveja e ganância. A humanidade merece sobreviver?

E se a medida é o quão parecidos nós somos com essas bilhões de pessoas que foram explodidas pelas suas máquinas pensantes, então a série se torna esse vazio cuja única moral é "seja bonzinho com a inteligência artificial" porque cada pecado de Caprica nós cometemos. Se eles não mereceram sobreviver, então nem nós.
É esse o problema desse final sem uma civilização capaz de contar histórias e transmitir os ensinamentos adquiridos dos erros passados.

Toda a moral da série é quebrar o ciclo: É que "tudo o que aconteceu antes", finalmente, não aconteça de novo.
E o "Anjo Seis" dizendo para o "Anjo Baltar" que ela "aposta" que dessa vez o ciclo será quebrado está só sendo estúpida. Esses dias a Coréia do Norte começou a fazer uns perigosíssimos testes com armas nucleares.
Nós estamos em um nível tão ridículo na relação Alma/Tecnologia que sequer precisamos criar máquinas inteligentes para nos exterminar, nós estamos dando conta do recado muito bem sozinhos, obrigado.
Tudo porque alguém esqueceu de escrever numa parede que armas nucleares são más.

Que ao menos desenvolvamos tecnologia de salto antes de nos explodirmos.

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Bom, o post está longo já.
Um dia eu escrevo sobre os personagens (talvez).

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