Domingo, Março 08, 2009

Sobre as duas cidades.

Ok, estou desistindo oficialmente de tentar ser um ex-ateu.
Não acredito e começo a perceber que não vou conseguir.
Pra piorar, eu tinha na Igreja Católica uma grande esperança de que ela fosse uma instituição capaz de grandes coisas.
Ainda acho que a Igreja Católica é a instituição com maior potencial de ser a legítima representante de toda a cristandade, mas hoje li algo que me desanimou profundamente, do blog de um católico que respeito muito:

"3. Ahn, o Estado Laico:

Por evidente, a Rompicoglioni sabe que o Brasil é um estado laico.

Voltando às aulas que o “jurista” deve ter perdido:

Constituição da República Federativa do Brasil.

Preâmbulo

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.



“Sob a proteção de Deus” é uma expressão que diz muitas coisas, caríssimo jurista E professor. Primeiro, o que fazer com essa invocação de Deus no seu estado laico? Segundo, “Deus”, no singular e grafado com “D” maiúsculo exclui toda e qualquer interpretação panteísta, pagã, politeísta e outras aberrações. E agora, professor? Jogue fora sua laicidade ou nossa Constituição."

Eu digo pra jogar fora nossa Constituição. Pelo menos apagar esse trecho. Eu sempre tive a impressão que o Vaticano respeitava a laicidade do Estado (a postura oficial, se não me engano, é algo do tipo: O Estado é laico, mas a população não, logo, respeitando a laicidade do Estado, não deve haver impedimento para que democraticamente uma população faça leis inspiradas pela religião.

Mas já que o meu amigo católico comemora de modo tão entusiástico a possibilidade de não vivermos em um Estado laico, eu só tenho a esperar que ele seja uma exceção. Todo o valor da constituição repousa em ser um contrato entre cidadãos e de assegurar segurança e liberdade para todos que seja cidadãos. Se "panteístas, pagãos, politeístas e outras aberrações" não estão sob a proteção da constituição, então o nosso país acabou de descer ao nível do Irã.
Aliás, que doentemente ofensivo é o modo como foi colocada essa frase, eu entendo que às vezes escrevemos esses posts com paixão, mas, só pra citar:
O Candomblé, se não me engano (e se estiver enganado, me desculpem), é panteísta; os hindús são politeístas; não sei se existe uma grande religião pagã, mas eu conheço uma ou duas pessoas que são Wicca e eles são cidadãos que merecem o nosso maior respeito e não quero nem saber o que seriam "outras aberrações" (kardecistas como minha mãe?).

A noção, mesmo sutilmente implicada, que essas "aberrações" não são meus cidadãos como eu não é só ofensiva, é uma ameaça a tudo que a cristandade duramente batalhou e batalha de modo tão árduo por toda nossa história.

Se existe um tal conflito de civilizações, se existe algo como fazer guerras para defender a liberdade, se existe algo como nosso "estilo de vida", se existe algo que é nosso, que é nossa conquista, que é nosso maior direito, nós, filhos da filosofia, nós filhos da Grécia, filhos de Roma, filhos de Israel, filhos do Vaticano, filhos de Santos como Anselmo, Agostinho e Tomás; filhos da verdade e das aparências; filhos da revolução francesa e do sonho americano.
Nós, que devemos tanto a tantos que se sacrificam e se sacrificaram por algo que nos define além de todas as coisas, por um sentido de nobreza e de justiça que é igualmente invejado e mal compreendido onde não existe.

Se existe algo que é nosso maior legado, nossa maior responsabilidade e nosso maior presente para nossos filhos, eu acredito que este "algo", que eu chamo de Cristandade, é brutalmente ameaçado por qualquer um que sugira que um cidadão brasileiro, um país que orgulhosamente faz parte do mundo livre, que é orgulhosamente parte da Cristandade, é uma aberração só por não ser um cristão. Que a nossa constituição e o nosso Estado o defendem como favor e bondade e não como um imperativo moral de tudo aquilo que entendemos como liberdade e justiça. Eu jamais exigiria uma nação de ateus. Uma nação onde fosse impossível que os costumes e religiões não tivessem nenhuma voz no modo como escolhemos nossos representates e nossos legisladores, mas a qualquer um que se levante para sugerir que nosso Estado tem uma religião ou um tipo de religião e que apenas sob a proteção dessa religião é que nosso maior contrato social é assegurado: essa pessoa é o Inimigo.

Essa pessoa se sentiria mais confortável fazendo parte de alguma outra civilização, bem longe dos olhos da nosso tão odiável "politicamente correto", nossa irritante "tolerância" e, o pior para esse tipo de gente, o fato de que nossa constituição defende "aberrações".
Como se nos revoltarmos ao vermos uma minoria sendo intelectualmente agredida por quem não tem que viver com as dores do racismo e da discriminação fosse uma afronta maior à liberdade do que permitir que grupos inteiros de cidadãos honestos sejam humilhados sem poderem se defender (e claro, humilhar alguém é liberdade de expressão, dizer o quão nojento é um gesto desse é a "ditadura do politicamente correto").
Como se a maior marca da nossa civilização, desde o seu berço, não tivesse sido a inclusão. Das tentativas de Aristóteles em defender um conjunto de leis que servisse para os diferentes clãs. Do modo como os Romanos absorviam as culturas dos povos militarmente dominados. Do modo como o cristianismo não era só uma religião como indentidade nacional, mas uma filosofia racional que podia (e todo cristão deveria se esforçar pra isso) ser compreendida e abraçada por todas as pessoas que compartilhavam a luz divina da razão. Do modo como que até durante as cruzadas, os europeus se empenhavam em aprender árabe para não só redescobrir as raízes da cristandade, mas também para aprender as contribuições do Islã para a filosofia. Do Leviatã de Hobbes que propunha uma única instituição que defendesse quem quer que sacrificasse algo de sua liberdade por ela. Do tratado sobre a tolerância de Locke e todo o esforço que foi para que a Igreja Católica aprendesse a conviver com os protestantes (e aprendeu! E foi uma enorme vitória!). E poderia continuar sobre como conquistamos a democracia e o estado laico que agora vem alguém e desdenha.

A nossa história não serve mais de nada? O nosso pensamento não serve mais de nada? O impulso básico autoritário de fingir que leis humanas são divinas (e isso deve ser um erro também teológico) é agora mais importante do que uma das mais importantes vitórias de tudo aquilo que nós somos?

Não me revolta alguém querer que a legislação de um país se aproxime mais da sua moral. Isso não só é natural, como é digno e honrado.
Mas tenho o maior horror a qualquer um que queira definir como legislação a própria moral.

O Estado laico significa, entre outras coisas, liberdade de religião. Não fosse pelo estado laico e não haveria liberdade de religião para a maioria delas. Inimigos do estado laico não são só inimigos de toda nossa história e de todo nosso legado e não são só inimigos da liberdade das "aberrações". Esse tipo de gente absurda é inimiga de si própria. Não fosse pelo estado laico, esse tipo de gente imbecil estaria presa dentro do próprio país.
É o fato de Inglaterra anglicana ser laica que permite aos católicos se sentirem seguros na Inglaterra.
É o fato de Israel judeu ser laico que permite aos católicos se sentirem seguros em Israel.

Aos poucos estamos vendo a laicidade desse segundo cair, como deseja essa gente, e já os católicos de lá começam a viver com menos segurança.

Aos poucos grupos extremistas hindús sequestram parte do governo indiano e já os católicos lá começam a ser perseguidos sem que a justiça os ajude.

Se a laicidade fosse plenamente respeitada no mundo inteiro, não existiria lugar no planeta em que um católico não pudesse se sentir seguro. Entretanto não há. Logo ele não se sente. O imbecil não é só o nosso inimigo. Ele é de si próprio.

Que seja um BEM que as "aberrações" sejam plenamente defendidas pela constituição. Que o Estado Laico seja um BEM é o maior aliado não só da Cristandade, mas também do Cristianismo.
Ausente do medo de perseguição e as religiões se confrontariam baseados na virtude e razão de seus ensinamentos e para quem acredita que sua religião realmente é a que traz o maior bem e que é mais plena de razões, deveria defender com todas as forças o Estado laico para que em nenhuma para que em nenhuma parte do mundo houvesse a menor chance de alguém ser perseguido por praticar a virtude e por fazer uso da razão.

Quem troca isso pelo prazer de ganhar uma ou duas leis a seu favor é o Inimigo. Não só de toda nossa civilização, não só de toda a religião, mas de todas as definições possíveis de Bem e de Verdade.

9 comentários:

Francisco disse...

Prezado

Entrar numa discussão é pra mim sempre um duro dilema. Tenho urticária só de pensar no que vai dar essas coisas. Sou azedo, meu estômago não vai bem nesses momentos. Às vezes, fosse melhor optar pelo silêncio, observância e certa quietude, ao invés de achar a verdade num combate. Em outras palavras: sempre acreditei que o silêncio fosse a melhor resposta pra tudo! Eu rezo pra não entrar numa briga e não me sinto à vontade em comprar briga dos outros. É da minha natureza, sempre tive inclinação para as resoluções diplomáticas. Mas sinceramente, hoje, no estado atual que nos encontramos, a guerra é a única boa resposta.

Caro Rodrigo: você realmente leu o que escreveu? Fez o trabalho mental, como diria Sócrates, o constante exame de si mesmo, o duro diálogo travado no silêncio da tua interioridade, a fim de revestir teu discurso, tua escrita, de alguma coisa que mereça uma atenção não desprezível? Procurar pessoas que defende posições claras e querer ao mesmo tempo um afago já não é demais? Afinal, que tipo de frase é essa, rapaz: "Eu nunca me decepcionei tanto com alguém lendo um post de blog."? Você não pensou pra escrever, não pode ter pensado! Quer ler coisas agradáveis, digeríveis pra tua cabecinha, procure ou livros de receita ou auto-ajuda! Não percebeu ainda que os Católicos, na maioria das vezes, não fazem nenhuma questão de dizer coisas simplesmente para agradar? “Vergonha para toda civilização?” Que tipo de comentário é esse? Você conhece um pouquinho de história da civilização, então, já viu bem o papel que os cristãos tiveram nela? Vergonhoso, não? A própria Cruz é escandalosamente vergonhosa, caro Rodrigo, não quer sentir pudor por aquilo que é indigesto, vai tomar o chá da seis com a vovó!

“Eu não gosto de me esconder atrás de expressões ambíguas. A conquista da laicidade do Estado é uma das maiores conquistas da nossa civilização”. Para quem acabou de dizer que não se esconde atrás de expressões ambíguas: “conquista de laicidade” não me parece o melhor exemplo de clareza! Se o Estado não fosse Laico, meu caro, bem provável que você fosse direto pra fogueira! Talvez prefira o paredão? A Fogueira pelo menos preservava o aspecto religioso da expiação dos pecados, da culpa. No Estado Laico o paredão nada mais é do que higiene social! Livramos-nos do peso da culpa para justificarmos a limpeza do que nos repugna! Caro Rodrigo, você visita um blogueiro, ainda por cima católico, e pede para o cara se calar? Imagina o que você seria capaz de fazer com um exército laico todo a teu favor. Claro, claro, há uma dívida histórica com o cristianismo, mas os cristãos mesmos, não merecem respeito, um aqui outro ali, mas em geral os cristãos são mesmo seres despresíveis. Afinal, não gostamos da putaria desse mundo lúcido, dessa fantástica fábrica de promessas, verdades, prazeres, felicidades e certezas. Não nos sentimos bem com a dissolução do certo no errado e o errado no certo! Não somos afeitos às probabilidades científicas como critério de verdade, e isso é um peso para o teu mundo de lucidez, matéria e verdade! Um mundo homogeneizado pelas convergências dessa alegoria estúpida, ridícula, em que um dia vamos todos viver em Paz; realmente isso não é pra nós, nosso estômago sofre com esse tipo de ladainha. Nosso estômago opta pelo ou o que é bom ou ruim, e o que considera ruim, vomita! Mas realmente não digere qualquer coisa!

Vou sugerir uma coisa, não gosto disso, mas nesse caso me parece realmente necessário: releia o que o Gabriel escreveu, repense no que você escreveu e simplesmente, concorde ou não com ele, admita, porque uma coisa é realmente feia, não apresente essa tua lógica medonha, não coloque palavras a mais onde não há, porque aí não dá nem pra começar a conversar.

Outra coisa, se tem interesse sobre Estado Laico (e sua relação com a Igreja), sugiro que estude: de Santo Agostinho à Tocquiville! De Hegel à Charles Taylor! Etc Etc Claro, digo isso apenas para não se decepcionar mais com a leitura de blogueiros Católicos.

respeitosamente
Francisco

Rodrigo disse...

Francisco, você fala da minha lógica medonha, mas exatamente o que você está defendendo?

Primeiro, eu comecei a ler o Gabriel exatamente por ele ser um católico inteligente. Quando eu digo que me decepcionei, foi porque me decepcionei com a pessoa dele. Nunca imaginei que ele fosse o tipo de gente capaz de chamar de aberração pessoas com religião diferente dele. E que ele não venha com essa mentira de que falava das "hipóteses". Foi nojento da parte dele e eu me decepcionei porque respeitava. Porque leio faz tempo. Porque discordava, mas não tinha nenhum problema. Até então ele não tinha rebaixado ninguém a um nível sub-humano.

Quanto a sua maçaroca sobre paredão e estado laico, me poupe. Eu bem sei que Estados ateus podem realizar massacres em nome de ideais seculares. Você não está falando com um ateuzinho de boteco que leu o Dawkins semana passada e tomou como objetivo de vida destruir "a raíz de todo mal".

Nunca disse que os cristãos são seres desprezíveis (do modo que Gabriel disse que pagãos, politeístas e panteístas são aberrações), eu nunca desprezei um cristão por ser cristão (do modo que o Gabriel desprezou pagãos, politeístas e panteístas por serem pagãos, politeístas e panteístas) eu desprezo qualquer um de qualquer religião que haja contra o que mantém o mundo livre livre.

Critico no meu blog o terrorismo árabe, o autoritarismo Cubano e o desprezo à laicidade do Estado. Não tem a ver com direita ou esquerda ou com religião ou ausência de religião. É bem conservador na verdade. Tem a ver com manter as instiuições que funcionam.

A democracia laica funciona, a separação de poderes funciona, a alternância de poder funciona, o capitalismo funciona. Eu defendo o que funciona, no sentido de o que mantém essa sociedade livre e próspera e me ofendo quando alguém põe alguma agenda específica ou alguma mesquinharia acima das instituições que funcionam e que foram, sim, conquistadas, não por um "movimento social" ou por uma "revolução", mas por toda a nossa história.

E eu não coloquei palavras onde não há. A palavra "aberração" quer dizer bem o que quer dizer. Não se relaciona um grupo de pessoas a aberrações e se finge que com isso estava cordialmente discordando de interpretações teológicas.

E eu nem vou mencionar minha faculdade de filosofia. Então eu já estudeu Santo Agostinho, Tocqueville, Hegel e um milhão a mais de Etcs. Eu estou aqui defendendo os resultados das minhas pesquisas e não "a opinião clichê que todo Católico conservador tem com os mesmos argumentos que todo Católico conservador usa".

francisco razzo disse...

Caro Rodrigo!
Vamos deixar os insultos em casa e recolher as pedras.
Odeio ter de explicar, mas vamos lá, a discussão serve pra isso e a razão nada mais é do que essa tensão.

1. Questão da lógica medonha, não significa bem lógica, não estou a analisar seus argumentos e pelo que vi nem é disso que se vale. Falei em "lógica" apenas como "tua compreensão" foi medonha, foi ruim, exagerou um conceito que não era pra ter exagerado. Pontencializou uma noção que nem merecia tanto alarde assim. Alterou o foco da discussão.

Nota-se Rodrigo, que isso é meio irritante: "E eu não coloquei palavras onde não há. A palavra "aberração" quer dizer bem o que quer dizer... etc" Primeiro que você deslocou o foco da discussão, deu a impressão de ter levado para o lado pessoal, o que é duplamente irritante! (vamos fazer o que? Paciência!) Segundo, está vinculando à palavra aberração um teor que ela não tem no texto do Gabriel. Aberração pode ser apenas "perversão do raciocínio", "erro"... ninguém está acusando pessoas de serem "Aberrações" no sentido de "anomalia social". Não é, de fato, um expressão, vá lá, muito cordial, como você disse, mas entrou na chuva é pra se molhar. O estado laico é um campo de batalha!

Ninguém aqui é contrário à liberdade. Em certo sentido, concordo com você, a respeito do espaço público e de real liberdade que proporciona o Estado Laico, mas agora dizer que isso é uma real conquista é um direito que qualquer um tem ou não em concordar. Eu, particularmente, discordo em partes. (porque acho que há mais tensões absurdas no que diz respeito, por exemplo, à noção de justiça, dignidade, pessoa, liberdade, secularmente falando, do que assumir logo que essas noções tem um fundamento metafísico - o que também não exclui tensões, mas aliviam quando elevamos o fundamento dessas realidades).

No resto, meu caro, há muito mais coisas em comum entre nós, pelo que já li outras vezes em seu blog, do que essa discussão impertinente do emprego de um termo que tenha ou não te ofendido.

"Volte ao foco da discussão", era apenas isso que gostaria de ter dito, volte ao foco e não espere nesse mundo encontrar a paz perpétua! (eu respondo pelo meu pessimismo)

Respeitosamente
Francisco

Rodrigo disse...

Mas eu levei pro lado pessoal!
O sujeito fala que uma série de pessoas que eu conheço são aberrações e que eu sou menos cidadão que ele por ser ateu e você quer que eu leve pra que lado?

Eu desviei o foco da discussão, ela tem mais de um foco mesmo e eles estão ligados.
Se você acha que um politeísta é uma aberração, não é de se espantar que você considere ele menos cidadão que você.

Estado laico significa que eu não preciso fazer parte de uma religião para ter direitos e voz na democracia, mesmo que um Estado religioso fosse plenamente livre, isso seria péssimo, pois seria apenas uma conjuntura histórica e qualquer governo seguinte poderia muito bem revertê-lo em uma teocracia.
Valorizamos a democracia não porque gostamos desse presidente, mas pela garantia que ninguém do poder executivo vai ter um poder absoluto sobre o judiciário e o legislativo, da mesma forma, nós apreciamos o Estado laico não porque gostamos de leis atéias, mas pela garantia de que ninguém poderia estabelecer aqui uma teologia.

É uma conquista enorme não só pela dificuldade e pelas guerras envolvidas, não só pelo aparato conceitual filosófico desenvolvido em meio à muitas discussões para serem fundamentados e valorizados, mas porque é uma garantia de que nossos filhos e nossos netos e nossos bisnetos e todos que com eles compartilharem a proteção da bandeira brasileira estão livres para seguir suas consciências.

Não me importa que você seja alguém legal e liberal que por acaso não gosta do Estado laico, mas estaria disposto a tolerá-lo. Você é ainda alguém que não quer dar aos meus filhos a garantia de que será assim enquanto houver um país disposto a nos defender.

Sobre a fundamentação metafísica disso, eu vou dizer que a fundamentação pragmatista a supera. Sociedades que não deixam cair em nenhuma das armadilhas que ameaçam a democracia (sejam armadilhas de religiosos, socialistas ou fascistas) são mais prósperas e se desenvolvem com pessoas mais saudáveis, intelectualmente mais ativas e mais preparadas para resolver os problemas do mundo.

Quanto a paz perpétua, Kant nunca desenvolveu o conceito para que ele fosse encontrado "nesse mundo". A idéia de um imperativo hipotético é criar um objetivo no limite da racionalidade para que saibamos para onde nossa racionalidade deve caminhar.
De certo modo, portanto, o que você me diz é para não esperar que eu encontre nesse mundo um fim para a razão no âmbito da política internacional. É advogar o niilismo.

Você pode responder pelo seu pessimismo, mas você responde também pelo Nada?

francisco disse...

Caríssimo. Não terei tempo para dar continuidade a nosssa "disputa". Pelo menos até quinta-feira. Mas gostaria de colocar alguns pontos: primeiro, sobre o fato de a fundamentação pragmatista superar a metafísica. Isso é uma questão mais de "sabor" por certa corrente de pensamento, do que alguma coisa realmente lógica-ontológica. Não sei o que você está compreendendo por "pragmatismo", não sou afeito a tais doutrinas filosóficas, faltam-lhe o fundo. Aquele princípio platônico de que o fundamento deve ser o "real".

Segunda questão: sou um realista e não niilista! O nada é nada! Razão cujo fim seja políticas internacionais é de arrepiar. Mas isso é uma longa história. Já te falei, sou pessimista, entendo que a natureza humana nem a razão humana seja raíz de si mesma. O homem é um ser cuja natureza é insuficiente... O nível moral atual comprova isso!
Respeitosamente
Francisco

Fabiano.SS disse...

Sem me intrometer a completar o que o Francisco disse, mas eu gostaria de dividir com você Rodrigo algo que talvez possa ajudar em alguns pontos.
Vou reproduzir aqui o que respondi no artigo que é pivô de toda essa picuinha da sua parte:

Fabiano Sampaio Says:

março 10th, 2009 at 11:56
Olá,

Eu estou me envolvendo só agora também porque pessoas mais inteligentes do que eu já se puseram a colocar devidamente as justificativas necessárias tanto no fato causador da polêmica, quanto da discussão distorcida por conta do já popular Rodrigo e suas divagações falaciosas.

Ao Rodrigo: eu gostaria de dar um passo anterior ao envolvimento do aspecto religioso nessa questão, se você me permitir. O assunto gira sim em torno da posição da Igreja Católica, como se a instituição tivesse surgido por uma espécie de geração espontânea, sem ter o “por que” de ser, ou onde um grupo qualquer estava um dia sossegado e numa conversa surgiu o assunto: “Que tal a gene organizar um grupo pra mandar nos outros?”
Isso é a igreja evangélica, meu querido. Está no lugar errado.

Efetivamente, meu argumento a você começa agora: Consideremos o objetivo dos pais da menina ao consentirem com o aborto. Ok? Vou aos poucos pois sou lerdo e eu só entendo as coisas uma por vez.
Qual seria então o objetivo dos pais?
Preservar a vida, o bem estar (físico e mental), especificamente da filha criança. Mas se entendermos essa formulação podemos ir aos poucos e perceber que antes de associarmos a filha criança há a preocupação com “vida e bem estar”. Ok?
Ou seja, se preocupam com “vida e bem estar” entendendo que esses princípíos são importantes antes de mais nada e que aí sim, a filha é associada a esses princípios. Certo?

Errei alguma coisa aqui?

Bom, seguiremos adiante. Ao ter como motivação “preservar a vida e bem estar”, os pais devem ter alguma noção de que isso são coisas importantes. Estão, portanto, presumidos como algo certo e claro.
Concordamos nesses princípios? Mesmo você Rodrigo, acho que sim. Então estamos todos de acordo que vida e bem estar são princípios importantes sem que eu precise articular toda a questão que chega a essas afirmações como necessárias, certo?

Podemos debater sobre a subjetividade da noção de bem estar? Provavelmente você iria aqui colocar uma observação a esse respeito, dizendo que o bem estar daquela menina em particular foi preservado e que essa noção de particularizar o bem estar cabe perfeitamente. Vou deixar isso para sua resposta previsível e então esperar um desenvolvimento de apoio.

Para seguir adiante, preciso já te adiantar o seguinte: bem estar e preservação da vida são princípios que têm por fundamento, principalmente no que diz respeito ao Catolicismo, ser incondicional. Ou seja, é universal. para todos. O próprio termo “catolicismo” diz respeito a princípios universais, ou seja, para todos e necessários.

Com base num princípio válido de preservar a vida e o bem estar, os pais (e por conseguinte os médicos que executaram o aborto) entraram em contradição. Ao escolherem preservar a vida, como princípio mais importante, fizeram isso ao destruirem não uma, mas DUAS vidas.

Vamos entender?
Preservar a vida e o bem estar como princípio compreendido como universal.
Ao defenderem esse princípio, decidem por MATAR, ou seja, DESTRUIR outras vidas.
Eu já disse que sou lerdo, mas como você é mais esperto do que eu Rodrigo pode por favor me apontar se não é uma contradição agir sob a alegação de “preservação da vida e bem estar” justamente MATANDO?

O grande problema da Igreja Católica é ser coerente. Isso é um problema nesse mundo imediatista com objetivos funcionais, onde valoires são meramente instrumentais.

Ou seja, Cristo nos ensina a preservar a vida, e nós acreditamos nisso e entendemos isso como valor universal, para tanto nós agimos inclusive MATANDO para preservar vidas.
Pense então se agirmos todos assim: em qualquer circunstância para nos defendermos e preservar a vida, vamos destruir algumas vidas pelo caminho. Além de ser uma regra contraditória causaria caos e auto-destruição a quem pratica sendo, portanto, idiota.

Errei muito?
Por favor Rodrigo antes de me responder dê uma olhada nisso aqui:

http://ludicalivros.blogspot.com/2009/02/analfabetismo-funcional-seu-filho.html

Pode ser do seu interesse.

Agradeço

Rodrigo disse...

Eu nem entrei na questão do aborto (e nem quero entrar), o sujeito copia/cola (sem perceber que eu não entrei na questão do aborto - e nem quero entrar) a resposta pronta de antemão que algum católico em algum lugar fez ao pessoal que defende o aborto e eu sou o analfabeto funcional.

Fabiano.SS disse...

Ah, não me decepcione com sua amargura derrotista.
Não preciso copiar de outra fonte um argumento que é tão claro e simplista. É meu, queridão. EU escrevi e quis tratar pra você qual é o ponto da posição da igreja sobre o assunto que deu início ás primeiras manifestações ultrajadas que você leu e à qual rebateu.

Ainda aconselho a ler o texto apresentado no link que te passei.

Abraços

Rodrigo disse...

Fabiano, eu não "rebati" nenhum texto sobre aborto.
Eu "rebati" um texto sobre Estado laico.
Aí você vem e me faz um argumento sobre aborto.
Daí minha amargura de você vir e me chamar de analfabeto funcional sem nem ao menos compreender o tema que está sendo tratado aqui.

E você ainda vem falando de valores imediatistas e funcionais quando o meu post inteiro é sobre como querer acabar com o Estado laico é querer acabar com um valor histórico e moral, a ser preservado por ser um bem em si e não a moda política do momento (e eu diria, ser contra o Estado laico é uma modinha política do momento e quem pensa nisso está traindo a história da nossa civilização em prol de um valor imediatista e funcional. Está traindo a nossa moral como filhos da cristandade [mas não necessariamente cristãos] em prol do objetivo funcional de ganhar alguma legislação).

Eu achei que o que você tinha feito era um cópia/cola, porque eu não faço idéia exatamente do que você eu falei que você está respondendo.

Eu fiz, então, um texto sobre aborto ontem, aí você podia copiar/colar isso e nos falamos lá. Esse daqui não é, me desculpe, sobre o único assunto que sua mente dá qualquer importância.